quarta-feira, setembro 18, 2013

Uma criança que tarda

O elevador tardava. É sempre assim quando se está à espera.... tudo tarda. Ele sorriu timidamente e disse num português de quem vem de fora "Boa Noite". Continuaram à espera, até que ele lá se decidiu e perguntou-lhe com um simpático sorriso "O elevador costuma parar?". Ela ouviu a pergunta e pensou que ele era o rapaz mais doce que lhe tinha aparecido naquela semana, tão doce como uma criança, uma criança que tarda.

domingo, agosto 25, 2013

Por mais tempo que passe

Voou.

O tempo voou. Parece que foi ontem, que foi há uns meses, há umas horas.O dia de sol quente no norte do país em frente ao lago verde, habitado por simpáticos e vigorosos patos que entre bicadas e guinchos compuseram a mais bela banda sonora da nossa tarde passada naquela cidade que é a cidade mais simpática que conheço. Uma tarde como as outras transformada na nossa melodia desde então.

Por mais tempo que passe, recordarei para sempre o nosso encosto um no outro como duas rochas que com a passagem dos anos se fundem tornando-se numa só. Recordarei os pequenos riachos que dos nossos olhos nasciam e que caiam em forma de pequenas cascatas frescas e salgadas sobres as nossas mãos.

Por mais tempo que passe.

Hoje, e passados tantos meses estamos mais perto que nunca do desfecho de mais um capítulo do nosso livro, o livro que abrimos juntos e que escrevemos a quatro mãos sempre que os nossos desejos se realizam.

E contigo meu amor, os meus desejos realizam-se todos os dias, e todos os dias adormeço com a certeza que a mais bela história de amor foi inventada numa noite escura de Novembro. Quando acordo, apercebo-me que tenho vivido dela desde então, e que não há outra forma de viver.

Por mais tempo que passe.










domingo, agosto 18, 2013

Há uns anos

Às vezes lembro-me das tardes que passava em salas de cinema. Chegava a ver o mesmo filme duas e três vezes no escurinho das salas que ficavam mais próximas da faculdade onde me ia entretanto entre as cadeiras de Análise filmica e História de Arte. Agora que olho para trás, com aquele olhar que a idade adulta nos transforma e devolve numa doce carícia na alma, e não me apetece voltar. Fui feliz, imensamente feliz, aprendia tudo, absorvia tudo, tinha tempo para ver e rever, ler e reler, passar a limpo e estudar com antecedência, era tudo fácil e não era mais do que aquilo.


quinta-feira, agosto 08, 2013

A ponte


O tempo passa. 
O nível da água sobe e desce numa constante luta silenciosa. A paisagem permanece muda e presencia todos os movimentos ascendentes e descendentes, calada e profunda. 

A ponte constrói-se. A quatro mãos, a dois corações. Ao mesmo tempo e em tempos quebrados pela distância. A ponte constrói-se fruto de uma vontade mútua, de uma vontade que não se amedronta, que é despida de interesses e livre de motivos inferiores.

A ponte só resiste ao tempo se construída (para uma dia) ser caminhada lado a lado na linha final da vida, quando o reflexo dos nossos rostos nessa mesma água revelar o valor daquilo que fomos um dia…juntos.

[Imagem via: http://eukendei.deviantart.com/art/The-Bridge-study-2-359979814]


sexta-feira, junho 07, 2013

Há uma pessoa





Há uma pessoa lê as linhas dos livros que não escrevo. Que ilumina os dias mais sombrios. Esta pessoa deita-se numa cama mal feita, ou até mesmo por fazer, porque há alguém (não vou dizer quem) que não tem gosto em tratar disso. Há uma pessoa que ouve as palavras mudas e as devolve em desejos realizados. Uma pessoa que passa os dedos por entre os meus fios finos de cabelo e diz que eles cheiram bem, duas, três vezes por hora. Uma pessoa que respira o meu ar, que bebe a minha água e que partilha o meu guardanapo. A pessoa que me ilumina, me resguarda, me engrandece e me segue sempre até ao encontro enamorado. Essa pessoa és tu. Sim, tu.

quinta-feira, junho 06, 2013




As suas penas mexiam ao sabor do vento febril da manhã de Junho. Olhei-o de cima, como os olhos de Deus penetram no mundo. Senti-me tudo. Tudo, menos Deus. Aquela criatura fria e dura teve um fim triste e o mais certo é acabar no fundo de um contentor do lixo. Está só, e deu o último sopro entre buzinas e carros, transeuntes de passagem apressados e sem tempo para compaixões de início de dia. Por segundos, vi-me naquele chão sujo e cinzento, por minutos imaginei-me morta e fria a ser espezinhada pelos demais, por uns segundos apenas porque tive de seguir em frente com os olhos postos no futuro. 

Todos nós




Às vezes é-se bom, outras vezes é-se mau. Tem dias em que o interesse é maior e a fraqueza acompanha-a. Outros em que sorrimos mais, e outros em que choramos mais. Dou por mim a subir muitas vezes a Avenida e a olhar para as expressões das caras de quem passa por mim. Já vos deve ter acontecido certamente. Olhar para elas, e parar para ver que as suas caras estão tristes, que as linhas que figuram os lábios estão em sentido descendente, o mesmo sentido da linha do olhar. Dou por mim a olhar e a ver dor, e a dor transforma-se em aperto no coração e o coração vacila em bater. Dou por mim a pensar também que ninguém é totalmente bom e ninguém totalmente mau. Não tenho pena delas, eu sou como elas, não tenho pena, apenas paro para pensar nisso, porque nada posso fazer por elas. Todos nós temos um pouco de Dr Jekyll e Mr Hyde em nós. Todos nós somos capazes de trucidar corpos de inocentes num dia, e ter bondade no coração capaz de transformar o mundo no outro. Todos nós.

sexta-feira, maio 31, 2013

A arrogância dos sábios

A arrogância dos sábios cansa-me. Ser dono da razão é das coisas mais chatas e aborrecidas do mundo. Saber tudo e nem sequer querer ouvir o outro ponto de vista, mesmo que errado, mesmo que louco. Porque é que dois mais dois terão de ser sempre e invariavelmente quatro? Porque é que não posso pegar nos primeiro dois e transformá-lo em andorinhas, e nos outros dois e transformá-los em gomas e dizer que afinal dois mais dois são três, porque entretanto uma das andorinhas decidiu voar para longe dos sábios.

Na minha perspectiva, se continuarmos a acreditar nos sábios, e nos factos perdemos uma capacidade maravilhosa: a de tirar os pés da terra para poder sonhar. Sonhar é a nossa janela para o mundo em que queremos viver para o resto da nossa vida. É que nos
sonhos podemos ser quem quisermos, sermos dotados de força ou medo irracional.


E depois aparece o sábio e diz-me que dois mais dois são quatro e eu perco as forças. O sábio que em vez de particularizar e se espantar com o novo, generaliza o seu próprio conhecimento e transforma-o em banalidades repletas de verbosidades impenetráveis. 



quinta-feira, maio 30, 2013

Voltar a escrever com força.


Voltar a escrever com força. 

A mesma força dos sentimentos que os sonhos me impõem. Escrever sobre estórias de filmes e de vidas reais, escrever sobre acordares e adormeceres ao peito de alguém, na almofada de alguém, no colo de alguém.

Voltar a escrever com amor, porque tudo o que vai sobrar de nós é isso mesmo, amor. E é amor que quero deixar ao partir deste mundo.

Voltar a escrever ao sabor da pena, sem dó nem piedade, e às vezes sem razão. Aprisionar as imagens em palavras e devolvê-las em vislumbres de seda.


Voltar a escrever com força. 



domingo, abril 21, 2013

Aquele abraço apertado

Aos Domingos recebo sempre uma visita especial. Chegado o final da manhã, ela chega com o seu andar repenicado, a sua saia travada e o seu colar que varia da pérola ao plástico. Traz sempre um tacho cheio de sopa e umas laranjinhas. Às vezes também tem um plasticozinho com uma carne assada e gosta de me deixar uma notinha na gaveta do aparador. Deixa-as lá e nem me diz nada. No dia seguinte ao telefone costuma dizer-me "É para os teus cafezinhos.". Esta é a minha mãe.
Depois conversa muito, conta como foi a sua semana, fala-nos da sua nova patroa, do meu pai, que tem saudades da mana e que começou a fazer um vestido novo.

Eu fico sentada no braço do sofá, com as pernas empoleiradas e ele mete-se ao meu lado, como que a aparar uma queda que ao acontecer é tudo menos grande, e vem o abraço, o abraço apertado. Sinto-lhe o peito, o mesmo que me alimentou durante quatro anos e meio. O peito que tantas vezes me confortou, o peito da minha mãe.


Vergonha

Estendem a mão e pedem. Pedem com a mão, com os olhos e com a boca. A boca que pede comida, as mãos que pedem boa vontade e os olhos que pedem.... com vergonha.
E eu fico com vergonha, vergonha de não poder ajudar todos os que me pedem ajuda e vergonha de não saber sequer o que é pedir na rua. Pedir é um acto de vergonha. E vergonha é uma morte sem morrer.

Na zona onde vivo, pedem-me muitas vezes. Já me bateram à porta a pedir comida "o que tiver, que não como desde ontem. O que puder...", e eu dei, com vergonha. Quando passeio e mais não tenho que dar tento oferecer o meu melhor sorriso, mas é um sorriso repleto de vergonha, porque eu tenho para onde voltar e o meu frigorífico está cheio e a minha barriga não tem do que queixar.

Por aqui, vejo pessoas mais velhas, que pela primeira vez na vida pedem "o que tiver, o que puder", têm vergonha, vão pelo passeio, olham-nos timidamente a ver se conseguem perceber se as vamos recriminar ou simplesmente ignorar. Dois caminhos fáceis para esconder a nossa vergonha. Vergonha essa que eles sentem ao estenderem a mão e projectarem timidamente a voz e que eu percebo com o coração partido ao meio.

Que vergonha que eu sinto. Que vergonha.

                              Imagem retirada daqui: http://www.etsy.com/listing/77165399/old-hands-8x8-custom-print

quarta-feira, abril 10, 2013

I.

Anda depressa sem saber para onde ir.
As primeiras flores a florir,
Colhidas as palavras no regaço,
Devolvida a chuva e o vento,
pois deles já não queres saber.

Pés ávidos de sabor a terra e sorriso nos lábios.
A doce e intoxicante melodia dos nossos sonhos.
Cabelos em canudos desfeitos.
Bainha da saia desfeita.
Vontade de ser gota de água infiltrada no profundo do teu ser.

Noite caída, brisa fresca.
Um voltar erguido e vibrante.
Seda rasgada, copo entornado, trovão mudo.

Assim somos.


                                                                                    Foto retirada daqui

segunda-feira, abril 08, 2013

Dissecar um bolo de arroz





Desde pequenina que gosto de bolo de arroz.
O bolo de arroz, é aquele bolo, que não leva arroz, mas que se chama bolo de arroz. E é um bolo perfeito. Doce e dourado, com "rótulo" branco e letras a azul. À antiga.

Era eu uma menina pequenina e lambia-me só de pensar no bolinho de arroz que comia com perícia no café do Pinheirinho mesmo ao lado da minha casa.
Dissecar um bolo de arroz tinha muito que se lhe diga. Ou leiam só:

Primeiro retirava a película da base, com cuidado para não perder nem uma migalhinha do bolo. Quando esta tarefa era terminada com sucesso, passava à segunda etapa, etapa essa que me poderia vir a proporcionar de seguida o momento mais aguardado: a prova. O invólucro que envolve o bolo era também ele retirado com calma e carinho, devagar, devagarinho.

Momento de sedução. A menina a olhar para o bolo desnudado à espera da sua primeira dentada. Mas não pensem vocês que o bolo de arroz (que não leva arroz) se come assim, do pé para a mão. Não, não e não. Agora é o momento em que se parte o bolo de arroz em dois: "capacete" dourado e açucarado para um lado e "corpo vegetante" do bolo para o outro.

E está feita a operação. Primeiro come-se o corpo, depois a cabeça. Não costuma ser assim entre os adultos também? Segundas interpretações ao vento, é assim que se prova um bolo de arroz. E eu ando mortinha para meter a minha boca ao barulho com um, e de preferência com o meu velho à minha frente para eu te explicar como se faz ao vivo a cores.

quinta-feira, abril 04, 2013

O caminho?

                                                Vamos fazendo-o à medida que caminhamos.


quarta-feira, abril 03, 2013

Sem arrependimentos

Às vezes fecho os olhos e não durmo.
O exercício é feito para contemplar momentos que por um motivo ou outro me escapou por entre as horas dos dias. Todas as vezes que me deixo ir, apercebo-me de algo reconfortante, algo que me permite sorrir por dentro, abro os olhos e digo: não me arrependo de nada do que fiz na minha vida.

Tambem é verdade que ainda não vivi muitos anos, pelo menos é o que ouço quando me perguntam a idade, e eu lá respondo que estou na casa dos vinte, naquela número muitos antes do trinta.

Mas é verdade, não me arrependo de nada do que fiz na minha vida. Todas as opções que tomei, certas ou erradas levaram-me ai sítio onde estou agora, e eu adora o "agora". Há problemas, claro que sim, eles existem e sempre irão existir. Mas não passam disso, problemas com soluções, sejam elas mais fáceis ou mais difíceis. Não me arrependo das pessoas que até hoje passaram pela minha vida, das pessoas que se afastaram de mim ou daquelas das quais me afastei. Não me arrependo de ter trocado Londres por Lisboa, por ter desistido desta ou de outra oportunidade profissional, e muito menos das que tive e que deixei de ter quando assim o decidi.

Depois há os "pequenos nadas", aquelas pequenas decisões, pequeninas, pequeníssimas, não me arrependo de nenhuma. Nem das três fatias de bolo comi no Domingo passado. Inventar para quê?

segunda-feira, março 25, 2013

Só peço sol




Só peço sol. Não peço mais nada.
Juro a pés juntos, que tudo o que queria era acordar amanhã e dar de trombas com um sol esmagador e vibrante capaz de me dar todas as energias (e receio que mais algumas) para enfrentar o dia com outra alegria.

É que isto pode desembocar num caso sério.
Ora vejamos: a pessoa acorda, até que bem disposta porque não tem o hábito de descontar nas pessoas  logo pela manhã, porém alguns são os perigos com os quais nos podemos cruzar nas primeiras horas seguintes ao acordar, neste dias que não são nem carne nem peixe.

Perigo #1 a pessoa está descalça, porque é orgulhosa e recusa-se a dormir de meia, e mete o pezinho no chão. Dá o arrepio frio na espinha (e não me refiro a sem vergonhices) e está o caldo entornado.

Perigo #2 a pessoa toma o seu banho. Tudo bem. Água quentinha, pressão q.b, há champoo e há gel de duche, o desodorizante é coisa que brota no armário da casa de banho como se de cogumelos se tratasse, também há cotonete, creme hidratante, e remédio para as unhas. Tudo bem. Por aqui estou safa.

Perigo #3 ui que frio! Resolução: ligar o aquecedor do cabelo e enquanto não trato da juba, toca a aquecer os pezinhos com o bafo quente que este instrumento emite. Não só resolve a situação como dá um certo reboliço no coração, porém cuidado: pode queimar o pé e a perna (ou qualquer outra parte do corpo que se lembrem de aquecer).

Perigo #4 a pessoa tem que se vestir, e ao contemplar o seu vasto guarda roupa não só constata que tem muito mais roupa do que aquela que alguma vez usará, constata que não gosta de nada do que se apresenta à sua frente. E a culpa não é da roupa, é do frio que insiste em ficar e nós não podemos mais levar com o casaco de fazenda, a galocha, o cachecol e a camisola de lã de gola alta que pica que se farta e que nos faz parecer uma baleia anã com ares de coiso e tal. Que m*****!

Perigo #4 a pessoa não sai de casa sem a barriguinha cheia. O café aquece, a torrada... está a torrar, pois claro, e há que passar o corrector de olheiras. Hmmm mas que cheiro é este, ai as minhas ricas torradinhas, lá se vai a magia poética de uma torrada feita em pão de Rio Maior cravejada com duas generosas colheres de sopa de manteiga. Fico-me pela torrada queimada e o cenário deprimente que vejo da janela do meu quinto andar.

Basicamente é isto.
Tenham cuidado com os perigos da manhã, que com este tempo ridículo se podem consubstanciar num verdadeiro crime digno de letras gordas na capa do Correio da Manhã, tendo como criminoso esta bela pessoa que vos escreve.


quinta-feira, março 21, 2013

A bailarina

Dançava por entre as sombras das árvores despidas.
A Lua ameaçava aparecer envolta numa névoa fria.
Sentou-se ali a seu lado, os nós dos dedos doíam cansados.
De olhos prostrados no céu parecia procurar algo,
o seu corpo movia-se ao sabor da brisa,
os cabelos ondeavam por entre as finas camadas de gelo gelado.

Ninguém a estava a ver.
Ninguém a poderia ver e como tal, jamais alguém iria escrever sobre si.
Os anjos caíram todos na noite passada.
As casas mudaram de lugar, a terra deixou de girar sobre si mesma.

Para quem dançaria ela, agora refeita de coragem deixada pelo pó largado pelas estrelas?
Porque continuaria ela a dançar...esperaria alguém?

Dançaria apenas pelo prazer do toque fino das pontas dos pés entre as ervas e os galhos partidos de árvores doces sem vontade de a magoar?
Seria ela algo em transformação, seria ela visível aos olhos dos demais, para além da pessoa que escreve estas linhas?

A dança tornou-se lenta e uma chama ecoou do seu coração, e a bailarina desapareceu.
A bailarina queria ser livre.
Quando o conseguiu, a bailarina amou.


Primavera

Adoro a Primavera. Mais do que gostar da Primavera, gosto do seu início. Daquele encantamento febril dos primeiros dias mais longos, dos tímido raios de sol que se começam a alastrar com uma firmeza cada vez maior e mais assertiva.
Nesta altura do ano, as cores regressam, as bochechas ruborizam e já não nos são permitidas umas cavas por debaixo das malhas finas, as meias de lã são trocadas por algumas menos quentes enquanto as sandálias continuam guardadas no armário à espera do derradeiro momento em que podem dar o ar de sua graça.
Por volta desta época, as idas às compras também ganham outra motivação, as frutas multiplicam-se e vejo morangos, nêsperas, laranjas e cerejas: ah que maravilha!
Tudo melhora nesta fase. Tudo melhora.

Porém... este ano a Primavera tarda. Estará ela em consonância com a tristeza que nos vai na alma?
Será que também ela está a demorar porque simplesmente não estamos preparados para a primavera dos nossos corações. Não há sol, não há calor, não há risos e sorrisos nos parques infantis das cidades, as crianças não brincam nas ruas, as frutas no mercado ainda são as mesmas, e eu caminho mais lentamente tal é o peso das roupas que envergo.

Embora estejamos em plena Primavera, é o Inverno quem reina. Sinto que o Inverno que sinto é igual ao Inverno que não nos abandona. Tivesse eu o poder de o pontapear daqui para fora.

domingo, março 10, 2013

Aquele lugar



As suas mãos quentes, pequenas e macias procuravam as minhas mais velhas, mais vividas, mais frias. Os seus olhos ávidos de curiosidade pareciam querer falar-me. Mas os bebés não falam, pelo menos era o que eu pensava quando o segurei ao colo.
Ao pegá-lo, depressa me apercebi que havia algo de diferente, um peso mais leve que o normal apenas sentido por aqueles que pegam em bebés assim.
Olhei pela janela e vi a casa cor-de-rosa lá ao longe, a casa que sempre imagino, repleta de memórias impregnadas de vento e terra, História, se quiserem chamar-lhe. O bebé continuava ao meu colo, menina ou menino, não sei dizer. De repente, os seus olhos grandes e repletos de vida olharam-me e ele falou.... Tu não sabes quem és. E nada mais disse. Fiquei a olhá-lo, não estava muda pela surpresa, porque nos sonhos tudo é possível, e os bebés podem falar e chamar-nos à razão.
Mais do que pensar que devo estar a ensandecer, pensei que aquele bebé e aquela frase fazem sentido. Um bebé é sinal de rejuvenescimento , de vida, de novos começos, e muitas vezes procura-se num bebé um sentido para a vida. Quando já nada pode funcionar o bebé ele vai preencher o vazio, os silêncios e tudo aquilo que resultar menos bem. Este meu bebé pode significar algo completamente diferente, algo novo, arrebatador, o meu bebé não é chave para nada, nasceu para me mostrar que aquilo que sou continua a formar-se e que por mais que me leiam, só eu sei o pulsa cá dentro e só eu sei porque sonho tantas vezes o mesmo sonho, o sonho de encontrar aquele lugar em vida

sexta-feira, março 01, 2013

A rua espera por nós



Doentes, cansados e desiludidos.

Estamos todos assim.

Manter a atitude positiva é uma prova de esforço, porque é assim que estamos, é assim que vivemos. Em esforço. Uma amiga no outro dia disse-me que ia abandonar o país, o país que não é o dela, mas que a recebeu há muitos anos com os dois braços abertos. O mesmo país onde eu nasci e onde receio ficar. Essa minha amiga vai embora, diz que está quase a passar fome. Eu fecho os olhos, e imagino “poderia ser eu, e não quero vir a ser eu”. Em esforço. O país que estava de braços abertos para ela, assim ficou… à espera que se fechassem.

Pela minha amiga e por mim, manifesto-me amanhã pacificamente em plena cidade de Lisboa. Pudesse eu crescer e tornar-me num gigante. Amanhã manifesto-me, porque os meus filhos vão nascer num país que foi e continua a ser incinerado por políticos e gestores mal preparados e mal formados. Pessoas que não se conseguem pôr na pele dos outros, que acham que o contentamento é uma coisa linda e entenderam mal os versos de Camões, porque o poeta ao dizer que o Amor “É um contentamento descontente”, não se referia a algo bom.

Querem-nos contentes, contentados, resignados à vidinha mal levada, ao rebaixamento, ao muito trabalho para pagar a dividazinha, porque temos papás para nos sustentar. Quem vive bem, está-se nas tintas para quem vive mal. Nas tintas. Além de mal formados, foram mal educados.

Vão mas é ler Camões, que nós já aprendemos a lição e a rua espera por nós.