domingo, abril 18, 2010

A primeira viagem da pequenina

Ela pegava na mão pequena da pequenina e levava-a por entre as ervas finamente verdes. "Já falta pouco, já falta pouco". O caminho era curto, mas por saber que iria culminar numa surpresa parecia longo, interminável, inesgotável. A mão pequena e segura da pequenina escorregava, e a força exercida mesmo pouca, parecia capaz de esmagar a mão da menina, a mão e os sonhos sonhados para ela. O Sol lá no alto mas também longe anunciava uma Primavera fresca e demorada, "o frio já lá vai", agora que venha o quente, o mais quente e o laranja dourado do Verão que se vê nas cearas em trigo.
A menina de perninhas anafadas e baixinhas, fugia por entre uma ou outra flor que teimava em travar-lhe a caminhada, impetuosa e vaidosa como uma flor deve ser. A menina em surdina falava com elas: "não perdem pela demora, alguém virá ainda mais vaidoso que vocês e tirar-vos- à do vosso lugar, a Terra deixará de ser a vossa morada, e o Vento o vosso namorado para a vida.".
A menina parou porque a sua companheira de viagem parou antes dela, a sua guia olhou para o céu, deixando-se ficar a admirar a viagem das andorinhas que por ali se deixavam conduzir....e pensava "gostava de ser como elas, não saber como mas saber sempre para onde ir, mas já falta pouco para mostrar à pequenina as fadas mais mágicas que conheço. Mágicas pela sua cor, pela sua curta existência, e por conseguirem transformar-se em bailarinas sangrentas. Adoro-as...e ela vai adorá-las também quando vir o manto majestoso que prepararam para seu deleite.".
A pequenina estava cansada, farta de andar, as perninhas já trôpegas, a azeda nos lábios, o chapéu de palha com o laço branco que deixava fugir a franja cerrada e os caracóis longos e castanhos escuros, escuros como casco ardido, e brilhantes ao Sol, tal como a Lua brilha quando sobe ao altar nocturno.
Chegadas.
Vivas.
Como sempre devem estar, era isto que a mãe te queria mostrar "Apresento-te as papoilas".

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