quarta-feira, maio 10, 2006

HOSPITAL

By Frida Kahlo Ao nascer lembrei-me que já havia algum tempo que não morria, curiosamente todos dizem ou pensam que morremos sem precisar de nascer (os vencidos da vida), mas o que no fundo queremos é nascer sem precisar de morrer, queremos aquilo que não podemos ter..e não é sempre assim? ...odeio aquele sítio, o cheiro, a cor, a energia mórbida da espera, as conversas vazias entre desconhecidos, porque ali o nome não é importante, apenas o autocolante colocado em local visível, e a audição em plena sintonia com a voz esganiçada do altifalante que pronunciará sim o nome, de modo seco e arrogante, como se o doente fosse culpado do mal que padece. A sala é um espectáculo triste, quase como um jogo cinzento em que tenhamos que adivinhar por onde é que a sombra da morte vai pairar... Entretanto voltei e não sei por onde queria ir, mas recordo-me enquanto vou para lá que tenho medo deste caminho, medo desta calçada e destas árvores, lembro-me do gelo na barriga que sentia ao subir a rampa ampla e barulhenta, e entrar no edificio grande e cinzento, do qual só conhecia parte, a parte que menos gostava, calma, asseada, sem alma, o corpo inerte do meu pai numa cama fina e opaca de metal, o tic-tic-tic da máquina azul com luzes verdes a piscar initerruptamente...ditando vida... a parede de borracha, o vaso com flores de plástico..dálias, vejo eu. A conversa seca e metódica do momento, com frases de circunstância e expressões de boa vontade lançadas no calor do momento. A alegria momentânea e a beleza da vida fracamente apreendida, nem pelo mais talentoso dos pintores impressionistas...apenas o helicóptero pousado no espaço que lhe era reservado aguaradando a fraqueza de mais alguma alma em sopro desistente. Há dois dias voltei lá, e senti o mesmo, repeti o sentimento por mais estranho e inexplicável que pareça (porque não acredito em sentimentos repetidos), estarei a mudar, a desistir, a chorar..................quando lá iá fazia frio e o vento reunia-se todo no meu tronco a fim de sair pelos meus olhos, no outro dia fazia calor e em vez de vento era o sol que se encolhia todo dentro de mim, senti-me queimar friamente, mas o sol não me saiu pelos olhos, está ainda aqui a queimar. Vou ser fria para ele não me magoar mais.

1 comentário:

Anónimo disse...

Fantástico ! Desde pequeno que tenho essa imagem dos hospitais.O cheiro sempre igual, as paredes tao brancas que ate deprimem, toda a gente a queixar-se os funcionários chamam as pessoas como mercadorias e os médicos(nem todos)tratam os pacientes como mais um carro que precisa de ser arranjado,e a receita é o orçamento do nosso "arranjo"-. A unica coisa alegre pelo menos enquanto esperamos pela consulta, sao os putos irrequietos de 3ou 4 anos que arranjam qualquer coisa para brincar.