sábado, outubro 01, 2011

Mudar

Implica rasgar com uma parte de nós que não se quer vergar. Implica olhar para dentro de nós e buscar pelo sentido das coisas, materializar medos, confrontar com a realidade e todas as consequências daí nascidas.
Fazêmo-lo sabendo que é algo precioso, mas que pode levar algum tempo. Fazêmo-lo cientes que aquilo que já temos não chega, e precisamos de força para encontrar mais.
Não julguemos os outros, olhemos por nós. Abracemos a Vida, conversemos com os fantasmas e façamos do nosso caminho uma bela história a recordar.
Quando algo não está no seu lugar, devemos perceber como o devolver ao espaço correcto. É como perceber que a flor que mais gostamos não consegue crescer no vaso que lhe destinámos, por mais sol, água e amor que lhe demos, a flor entristece-se a cada dia que passa. Mudemo-la de sítio e é vê-la a brotar e a esbanjar beleza e alegria aos nossos olhos.
Coragem. Coragem para dizer adeus, coragem para beijar o vento chegado de outra direcção, coragem para agradecer aos que nunca desistem de nós, coragem por acreditarem no nosso valor, coragem para admitir a ousadia em nós próprios, coragem para te olhar nos olhos e saber que nada mais será a mesma coisa.
Coragem nos sentidos, olhos que querem ver, boca para te sentir, dedos para te tocar nos cabelos e perceber que antes de o fazer, já eu sei o cheiro, o gosto, e o olhar que me viu ao amanhecer.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Woody Allen volta a fazer um grande filme.
Depois de algumas obras menos conseguidas, pelo menos comparativamente a muitas outras até Matchpoint, o seu Cinema volta a ganhar fôlego.
Midnight in Paris é um filme fascinante, engenhoso e um capricho delirante.
Para quem aprecia Artes plásticas e Literatura tem com este filme a oportunidade de rir e imaginar ( e porque não, sonhar) com os nomes mais altos, as recriações mais "recaricaturadas" de Picasso, Dalí, Fitzgerald, entre muitos outros.
A premissa é simples, uma cidade europeia convidativa, um protagonista que interpreta o papel de Woody Allen, uma namorada rica e fútil, e uma oportunidade de escapar desta realidade e entrar noutra época nunca largando a cidade que o fascina.
Se os actores estão todos bem? Estão. Woody Allen preocupa-se pouco com eles, parece que o imagino a dizer coisas como "Do your thing", a verdade é esta, Woody sabe quem eles são, foi ele quem os escolheu, não precisa de muito mais para dar seguimento ao que quer que seja.
Paris é filmada do ponto de vista mais romântico possível, é a cidade das luzes, da Arte, dos copos reluzentes, do vinho inebriante, da chuva que apaixona o herói da história.
Papel de fundo para deixar fluir um argumento que tem tanto de louco como de realista.
Desta vez, o realizador pede auxílio a Existencialistas, Surrealistas, Naturalistas, e Românticos, todos juntos com a mesma intenção: dar à Vida algo que ela perdeu, tal como uma mulher perde uma batom na mala. Gil, a personagem de Owen Wilson, precisa de encontrar um rumo, tanto para a sua vida pessoal, como para o seu percurso artístico.
Todos nós parecemos querer fugir da vida que temos, é mais fácil rejeitar o que se tem e imaginar como terá sido, é difícil deixar-se ir pelo que existe e simplificar. Por isso, nada melhor que fugir para outra era, ou melhor para uma era como imaginamos que tenha sido, porque imaginamos sempre uma vida no passado, quando as coisas ainda não tinham sido descobertas, quando ainda não tínhamos sofrido,
Sem revelar muito da história, é isso que acontece, são fugas à meia-noite que culminam com uma epifania (como em todos os filme deste realizador).
Manhattan, Barcelona, Londres, Paris... teremos de apelar a Woody que comece a rodar um filme em Lisboa, a nossa cidade terá certamente um encanto muito próprio que espelhe os múltiplos problemas de um novo protagonista deste grande realizador.
Midnight in Paris é ainda daqueles bom filmes, que têm mais significado nas entrelinhas, na aceitação do dia-a-dia, parece algo simples de ser imaginado, mas simples é tudo o que não é. Se as pessoas fossem todas simples, Woody Allen não seria realizador de cinema.
Bravo Woody. Estamos ansioso pelo que ainda está para vir.

domingo, setembro 11, 2011

Já não sei escrever

Apercebo-me disso. Não por aquilo que escrevo mas por aquilo que não sinto, e escrever é uma questão de sentimento, mais do que outra coisa qualquer.

Outrora foi uma libertação, uma forma de expressão, um corredor largo e alto que percorria de pena na mão, lenta e docemente. Hoje as paredes são apertadas e baixas, o chão escorregadio e não encontro métrica ou forma.

Pergunto-me se foi a minha libertação o que me condenou. Escreverei melhor quando preciso de espaço? Penso no que sempre me levou a escrever, sobre o que escrevo e no que gostaria de escrever. Apercebo-me de que não sei. Não faço a mais pálida e comum ideia. Aliás, senso-comum é coisa cada vez menos comum no mundo em que vivo.

Analiso o problemo, disseco as partes que previamente separei e coloquei em lamelas. Chego o microscópio para junto de mim, afasto a poeira incómoda e olho pela lente.

Espaço. Distância que posso ou não pedir aos demais, distância em que permaneço ou abandono, distância que percorro calma ou a passo acelerado. Espaço é coisa que não me falta. Os caminhos são percorridos a seu tempo, nunca fui apreciadora de corrida, quanto muito de passo-corrida e se me apanharem a fazê-lo, finjo que não sou eu. Peço espaço com regularidade para me encontrar comigo mesma, para reflectir e para logo sentir que não preciso de muito desse mesmo espaço para ser feliz.

Sempre gostei de escrever. Desde pequena. Recordo as composições que a Professora Maria Manuel mandava fazer em casa ou na escola, escrevia sempre demais, enquanto houvesse carvão e folhas. Escrevia, sobre o mar, o campo, a familia e os amigos, os passarinhos, o jogo da macaca, o vestido aos quadradinhos brancos e cor de rosa. Escrevia sobre o Natal, o Pão por Deus e a Páscoa, os pardais aninhados nas telhas da escola e as abelhas que nos picavam no recreio e se me fosse pedido escrevi a até sobre o Universo, mesmo ciente de que era uma coisa muito grande e que só me seriam ensinadas mais coisas quando fosse mais crescida e mudasse de escola.

Hoje escrevo exactamente sobre as mesmas coisas, com mais ou menos detalhes, e com a vantagem de já ter vivido uns anos e perceber qua antes as coisas eram de uma forma e agora são ridiculamente iguais. Mudando-se alguns adjectivos, fazendo uso de advérbios de modo e revelando aqui e ali algum je ne sais quoi de cultura geral.

De futuro gostaria de continuar a escrever sobre estas coisas mas de forma mais pueril. Porém como o posso fazer se hoje sei mais do que ontem e amanhã é para mim uma janela aberta a uma paisagem composta por milhares e milhares de perspectivas animadoras? Precisarei de me desligar de algo a mais, precisarei de algo a menos? Sempre gostei mais de prosa, acho-a a mais apaixonante que a poesia, a arte dos que se apaixonam por tudo o que respira. Não quero com isto dizer que não me derreta com versos de Wordsworth, que não reflicta ao ler Victor Hugo, que não me encante com um presente recente de nome Emily Dickinson. Quero sim afirmar que esses eram grandes demais, souberam fazer da frase curta um hino à gransiosidade da palavra.

Eu não o sei fazer, prefiro a prosa que me permite escrever tudo o que me vem à cabeça, porém acho sempre que escrevo frases curtas exactamente porque apreciso poesia que transformo em prosa. Talvez não tenha ainda encontrado a forma certa, talvez apenas a encontre quando deixar de procurá-la e ela sentir-se livre e por isso preparada para mim.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Temos Catwoman

Esperamos que o último dos três seja tão bom ou melhor que os anteriores!

sexta-feira, agosto 12, 2011

Para o meu pai

Subias as escadas rolantes que vinham do fundo do chão em direcção à luz do dia. Desviaste por um segundo a atenção dos teus pensamentos banais, e pensaste noutra coisa. Baixaste os olhos e ajeitaste os óculos de sol. Naquele instante pensaste no que perdeste, foi-te roubado. Nunca tinhas pensado dessa forma, foste atingida por um raio invisível e teimoso, nervoso e saudosista. Recordaste todas as pequenas coisas, gestos primários e doces. Rcordaste a voz e a forma, o cheiro e o olhar. Foi-te roubado. A meio da subida das escadas, levantaste o olhar, cerraste os lábios e franziste o olhar como quem fica confusa e indecisa. Sentirei a tua falta? E se o passado tivesse sido outro, gostarias do teu presente. Seria melhor? Recordaste o mês fatídico, o mês de Dezembro, o teu preferido que se estava a desmoronar. O frio da caminhada, a espera pelos autocarros, a vista da janela, os pingos de chuva que te encurralavam a qualquer hora do dia, o silêncio apenas quebrado pelo sol do televisor que a meio desse mesmo mês foi levado para outros a quem fizesse falta. Recordas o bolo de laranja húmido e as bolachas Maria integrais, um pacote verde garrafa com letras brancas e castanhas. Anos e anos depois apercebes-te que o mundo mudou desde então, perdeste e não sabes ao certo se recebeste algo em troca. A Vida é mesmo assim. Não esqueças a vida bonita que tens.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Porque dominar é preciso - e comer também.

Dominar.
Trata-se e um verbo que usa aqui e ali e que revela apenas um sentimento cada vez mais visível no nosso mundo, mas que lá por ser mais notório agora não quer dizer que é coisa que não existiu desde sempre.
Dominaram-se povos, dominaram-se territórios e depressa se começou a dominar animais, através da domesticação.
Séculos e séculos depois, nasceu a noção de "sociedade" e uma "estrutura social" baseada também em domínio consubstanciado no poder económico e claro, político.
As sociedades começaram a organizar-se em castas, os ricos em cima, os pobres em baixo, com escolaridade em cima, sem estudos em baixo. O mesmo em casa de famílias, (o homem por trabalhar e poder dominar )em cima da mulher submissa e dependente.
Pensar isto nos dias de hoje seria ridículo, pelo menos do ponto de vista da vida como a conhecemos.
Mulheres e homens têm os mesmos direitos, travaram-se lutas por isso, tantas lutas que muitas vezes se inverteram os papéis e as mulheres tornaram-se frias e ela sim com imensa vontade de dominar.
Dominar é agora uma necessidade constante, os homens querem dominar as mulheres e as mulheres - porque queimaram soutiens querem dominar os homens. Não condeno obviamente as mulheres que no seu tempo o fizeram, e bem, colocaram-se em frente a autocarros, associaram-se e fizeram ouvir-se. Hoje não teríamos metade do que temos se essas mesmas mulheres não o tivessem feito. Mas essas mulheres viveram no seu tempo e não sabiam no que poderia acontecer. Os anos passaram no mundo ocidental, as sociedades evoluiram, as guerras sucederam-se e as mulheres tiveram de entrar no mercado de trabalho já que os homens estavam em campos de guerra. As mulheres foram à escola, as mulheres mostraram que além de donas de casa, podiam ser mães e esposas, eram também profissionais competentes e multifacetadas, capazes de opinar e fazer a diferença.
O que aconteceu depois? Porque querem agora as mulheres dominar os homens?
Seria um desejo inconsciente decorrente da sensação de injustiça a que foram votadas desde há milénios? Ou, um mero desejo comum a homens e mulheres mas apenas manifetado nestas últimas no decorrer da sua emancipação?
A mulher agarrou o cigarro, a pasta dos contratos e a máquina de calcular, deixou de querer ter filhos, de fazer o jantar, acha que ir ao supermercado uma seca e condena ainda as que gostam de o fazer. Esta mulher prefere passar tempo com as amigas, dinheiro a afectos, redefinem prioridades e dominam, colegas de trabalho, familiares e companheiros de vida. Os sonhos mudam e a realidade acompanha essa mudança.
Parece que estar com uma pessoa, significa "és meu e só meu, não porque te amo mas porque és meu", e é assim que tem de ser, escolhe-se a infelicidade como caminho, não se fazem planos bonitos, fazem-se planos porque assim tem de ser e porque a sociedade assim o exige, é obrigatório e isso diz tudo.
Gosto muito de ser mulher, gosto mesmo. Acho que devemos sempre lutar pelos nossos direitos, mas basta olharmos para trás, ou folhearmos uns quantos livros de História para perceber: tudo o que acontece no mundo possui um carácter ciclico e um período de vida compreendido entre nascimento, amadurecimento e declínio.
A mulher renasceu quando se apercebeu que tinha de lutar pelos seus direitos.
Durante cerca de 4 décadas cresceu exponencialmente e mostrou que estava certa.
Passados esses 40 anos começou a destruir tudo o que construiu por ganância e vontade de dominar.
O Neandertal foi extinto pelo Homo sapiens após conviverem juntos.
Alexandre foi grande até querer dominar todo o mundo.
O mesmo se passou com a chegada ao Novo Mundo e com toda a riqueza a explorar.
Tudo começou bem e acabou mal, porque todos quiseram dominar aqueles que mais perto de si estavam, e estavam perto por serem mais fracos e estavam porque precisavem de um exemplo a seguir. Juntou-se a fome à vontade de comer.

segunda-feira, julho 18, 2011

A Árvore da Vida

O texto sobre este filme tardou, porque senti que precisaria de algum tempo até conseguir reunir as palavras certas para um texto com sentido. O tempo que é de ouro.
Tratamos aqui de um verdadeiro hino à Vida, a vida tal como a conhecemos, terrestre e universal, e ainda um convite à reflexão sobre a nossa condição. Depois de tudo isso, o filme tem ainda espaço para ser uma obra de arte.
Repleto de imagens oriundas de um imaginário poderosíssimo como é o cósmico, Malick tenta desmistificar, pegando no que há de mais místico: a Fé em Deus "o sentido da Vida", usando passagens bíblicas que vão alimentando as dúvidas do Homem nos seus maiores momentos de fragilidade e dor e que o vão reconfortando quando tudo o resto falha.
Somos confrotado vezes e vezes sem conta pela passagem de pessoas por nós, como se numa vida coubesse um universo à espera de nos encurralar numa das encruzilhadas amargas do caminho que temos de travar. Felizmente por esse caminho vamos encontrado árvores de frutos, árvores perfumadas, árvores vivas, árvores da vida.
Terrence Malick acredita no poder da vida e no poder a morte, na dor da passagem de um estado para o outro, mas acredita principalmente na Vida e no deleite decorrente das maravilhas que a mesma tem para nos oferecer.
O realizador acredita na expiação e na redenção, na Graça divina e no ódio humano, neste último caso parecem estar sempre associadas.
Foi com alegria e tristeza que vi o filme por duas vezes, mais algeria que tristeza, das duas vezes.
Porém no segundo visionamento: algo mudou, para além da sala e da companhia.
Árvore da Vida toca-nos pela proximidade do tema e condição, toca-nos porque todos nós somos fruto de uma árvore, uma família recheada de contradições e sonhos, uma árvore que nasceu muito mais cedo do que poderíamos imaginar, uma viagem iniciada por algo ou alguém há milhares de anos e que pode terminar de repente, sem aviso. Não sabemos realmente a quem obedecemos, não importa, ha um caminho a percorrer e uma corrente de laços a estreitar.
Esta obra é também um hino ao Tempo, o Tempo como barómetro circunstancial das nossas atitudes, o Tempo como escala das nossas mudanças, a nossa vontade em pedir perdão a nossa incerteza face ao que nos espera.
Do ponto de vista técnico, pouco há a dizer (porque tudo é tão grandioso) apenas que Malick transforma um simples plano a uma homenagem à Mãe Natureza, e que Malick é ainda capaz através de um plano aproximado carregá-lo de dor que nunca a chega a ser abafada pelo som avassalador de um avião a descolar. A nossa atenção é concentrada na expressão do actor (Um Brad Pitt fenomenal), o mundo corre na velocidade máxima, a dor é esmagadora e eu não consigo tirar os olhos da expressão dele.
Essa é para mim uma das cenas mais marcantes da obra, que encerra este texto, e eu sei que poderia escolher dezenas de cenas, mas esta é realmente a que mais me marcou, como se eu própria me afundasse num marmoto capaz de destruir um pedaço de teritório, uma nação, um mundo tal como o conhecemos, a destruição fatal de uma humanidade, de uma era, de um capítulo das nossas vidas em comum como irmãos terrestrres.
Felizmente não nos podemos definir a partir de um filme, (isso seria verdadeiramente redutor), porque se pudéssemos a Árvore da Vida seria a definição de Humanidade.

sexta-feira, junho 24, 2011

Devorar destes

como se o amanhã fosse coisa que poderia não acontecer ;)

domingo, maio 22, 2011

O sonho que nunca mais esqueci

Ela sonhava com o pai.
Ela menina e o pai, pai dela.
Segura pela mão era guiada pela vila caiada de branco numa noite cálida de verão. O céu meio estrelado como as noites pintadas por Van Gogh. A viagem parecia demorada, entre as ruelas da vila, as casas de portas fechadas a respirar o ar familiar de um repouso de fim de semana. As cigarras a cantar, os canaviais a sibilar, um ambiente vivo e cintilante como a Lua reflectida no topo da água do mar, e um sonho ainda todo por sonhar.
As perninhas da menina esforçavam-se por acompanhar as passadas do pai, alto, grande e de sorriso malandro nos lábios. Subiram a escadaria para admirar o grande relógio fechado no cubo de vidro, um relógio gigante e imponente, feito em madeira e ponteiros de aço. Os dois estagnados a vislumbrar a peça, os dois a suspirar pelos seus corações palpitantes. O pai pegou a menina ao colo, deixou-a tocar no vidro como se estivesse mais perto do que nunca de tocar no relógio, o pai deixa deslizar os lábios e murmura um segredo, descai o lábio inferior e contrai o superior, um beijo na bochecha da menina que ecoa com as badaladas do relógio.
Nunca esqueci este sonho que sonhei quando era mais pequena, não me recordo de ter visitado em vida uma vila numa noite de Verão acompanhada pelo meu pai, apenas me lembro do segredo. O meu pai não mo contou no sonho, contou-me numa das muitas viagens que fazíamos há anos atrás... mas isso, isso é o meu segredo.

sexta-feira, maio 06, 2011

O menino no tractor

Van Gogh, Path through a field with willows, 1888
- Tu ainda acreditas em magia?
Perguntou-lhe ele enquantos estavam os dois sentados nas escadas à frente da porta da escola que teimava em abrir. Os dois sós, os dois meninos. Sentados como se aquele fosse o último dia de aulas antes das férias grandes, como se os dois fossem as únicas crianças daquela aldeia, como se aquela manhã fosse fonte inesgotável de risos e queques, sumo de laranja e pão com manteiga, e leite com chocolate em pó aquecido. - Eu sim. Acredito em magia. Porquê? Tu não? - És uma tola. Vou explicar-te uma coisa, coisa essa que jamais esquecerás. A magia não existe. O que existe são truques que fazem com que acredites em magia. No entanto, tudo não passa de artimanhas bem feitas que fazem com que pombos voem de cartolas, coelhos apareçam dentro de gaiolas fechadas a cadeado num abrir e fechar de olhos. O que tu não sabes é que num abrir e fechar de olhos uma pessoa pode ser muito rápida, e iludir-te e depois enganar-te e tu não percebes. Não podes acreditar em tudo o que vês. A menina retraiu-se, sentiu um calafrio e uma primeira lágrima fez-se convidada no seu rosto. Pensou para si mesma que ele estaria a enganá-la, mas também não tinha como não acreditar nas palavras que ele acabava de ter dito, e deu para si a abandonar a sua própria crença e esqueceu-se de continuar a chorar. Ao ver que tinha perturbado a jovem alma da menina, o menino disse: - Não fiques triste, a magia não existe mas há coisas verdadeiramente mágicas, essas não precisam de truqes ou mentiras. A campainha tocou e os meninos entraram na escola, cada um para a sua sala, ela era mais nova e mais pequenina que ele um menino mais velho e já na quarta classe. Ela sentou-se e aprendeu a colorir folhas com animais parados nelas e a desenhar letras, ele deixou-se ficar. A menina nunca mais se sentou nas escadas com ele, os dois cresceram, a menina saiu da aldeia, o menino ficou, a menina voltava e o menino sempre lá ficara. A menina aprendeu mais coisas, percebeu que os números eram infinitos e que não se davam bem com ela, que a vida parecia estar sempre um passo à frentes das suas decisões e que aceitando-as saberia ser feliz e até quem sabe contrariar a própria vida. Nos dias em que a menina, agora mais crescida volta à aldeia e procura o menino, uma ou outra vez encontra-o na estrada, sempre na estrada, ele parece por lá vaguear sentado a guiar o seu tractor, alheado de tudo e de todos. Quando assim é ela recorda-se que foi ele quem uma vez disse que a magia não existe, o que ele desconhece é que ele acabou por lhe dizer a ela o seu verdadeiro oposto. A magia não existe, mas as coisas mágicas sim.

terça-feira, maio 03, 2011

Uma noite assim

Corpo que reconforta o acordar após o pesadelo assaltante de almas madrugada fora.
Uma penumbra de receios que se esvai ao toque com esse mesmo corpo, abraço fiel e apaziguador.
Não te movas, eu vou ao teu encontro, e não te vires que já me virei para ti.
Conto de fadas que se escreve nas entrelinhas do dia com a leveza digna das asas de um anjo. E assim ecoa a esperança de uma felicidade constante, que não parece uma miragem, que não vive ensombrada, que não permite paredes ou escuridão.
Doce e terno assim é o batimento de um coração em paz.
Destruam-se as barreiras, quebrem-se os espelhos azarentos, volte-se a Lua para a nossa janela, afugentem-se os malvados dos pesadelos, enfeitice-se o espaço beijado pelo sol, brinque-se com as tranças das meninas morenas, tape-se o poço para não revelar perigos e para eu adormecer a teu lado, outra vez.

segunda-feira, abril 11, 2011

segunda-feira, abril 04, 2011

Uma tarde como outra qualquer

Uma luz seca que força uma amena sensação.
Raios chuvosos que nos refrescam entre batimentos de coração.
Uma manhã sonolenta que desemboca numa refeição terna e doce e num deitar quente e prolongado. E amamo-nos, como se a janela do quarto estivesse virada para o Paraíso. E amamo-nos como se as estações do ano nascessem e morressem em algumas horas. E amamo-nos como se os nossos corpos entrassem e saissem do nosso ser. E amamo-nos por longas horas em movimento e em progressão, em luz e escuridão. E amamo-nos como se as nossas vidas disso dependessem. E amamo-nos como se o Universo entrasse dentro de nós enraizado nos nossos cabelos, nas pontas dos dedos, nas línguas ávidas. E amamo-nos sem medo, sem reservas e sem rivalidade. E amamo-nos mais e mais, sempre mais, sempre mais do que ontem e menos que amanhã, sempre mais e mais fundo. E amamo-nos sem dar tréguas. E amamo-nos sempre porque sempre nos parece pouco demais.

sexta-feira, abril 01, 2011

Escuro

Austera sensação esta que sinto. As palavras fogem-me ou eu não as alcanço. O mundo gira e eu não o consigo aprisionar, as borboletas voam e eu não as sei proteger, vejo a cor e a beleza das asas e nada sei dizer sobre isso.
Loucura fugidia, paredes entreabertas que não me permitem abraçar o universo. Luz que emana e não ilumina. Não me sinto sã, não me sinto sábia, não me sinto acordada e não me sinto triste. Não sinto, respiro. Amanhã vou acordar de novo e espero ter mais para escrever.

segunda-feira, março 28, 2011

Chuva para o almoço

Às vezes, mesmo sabendo que não temos razão, prosseguimos e não avistamos para lá de entre as gotas de chuva. O Sol deixa de espreitar e não conseguimos opor-nos aos nossos próprios sentimentos, mesmo sabendo que não temos razão. Trata-se de uma sensação ridícula, um cansaço da alma que corrompe os sentidos e não nos permite ver com a clareza que precisamos. Saber que não se faz o certo e mesmo assim persistir, saber que a vida é boa e bela demais para ser medida em folhas de papel mal impressas. Deixemos a chuva cair e levar com elas os nossos medos, nada há a temer. Nada. Viver apenas, respirar o teu corpo e deixar-nos cair no trapézio sem rede que é a nossa vida.

segunda-feira, março 14, 2011

Quando chove

temos de agir assim.
Aliás, temos de agir assim sempre, principalmente quando chove.

quarta-feira, março 09, 2011

127 horas

Pop.
É a palavra que encontro para descrever, mínima e pudicamente o filme de Danny Boyle.
127 horas é o filme sobre um homem só, encurralado pela mão que foi "ao encontro" de uma pedra, ou será que a pedra é que foi ter com a mão?
Tendo a solidão como condição Mr Boyle opta por realizar uma obra em que o espectador vê repleta de imagens de cor com multidões em contraste grosseiro com a condição do protagonista.
Mais que um jogo de cor, 127 horas é um objecto com função sensorial, melhor que nos transmite sensações, e porque o Cinema é isso mesmo.
Com poucas deslocações de câmera retemos tudo aquilo pelo qual Aron Ralston passa desde a privação de alimentos e água, a exposição à luz e calor de dia e frio (muito frio) de noite, às alucinações consequentes e os vários momentos de reflexão pelo qual o mesmo vai percebendo os seus limites, por vezes ilundindo-os mas sempre consciente de que se havia algo a fazer, teria que o fazer a só consigo mesmo.
James Franco é competente como em tudo o que faz, executa e bem o papel, algo difícil atendendo ao facto de se tratar de one man show, tal como era difícil para Tom Hanks em Castaway.
Normalmente a academia premeia sempre este tipo de trabalhos o que é fácil de compreender, o actor tem margem para "brilhar" tal como tem margem (e como tem) para se espalhar ao comprido como se diz por aí... James Frnaco brilha por estar só, por transparecer toda uma gama de sentimentos e angúsitas, medos e ansiedades pelos quais uma pessoa numa situação limite daquelas poderia trasmitir.
O actor já nos tem maravilhado com alguns desempenhos, desde James Dean, a prostituto Sonny no filme de Nicolas Cage, que na altura mereceu boas críticas, aqui trata-se de um grande papel, apenas ofuscado pelo filme em si e no modo como a História se desenvolve ao ritmo avassalador de imagens colocadas que dão descanso ao espectador, nem por isso ao actor. Basicamente Danny Boyle oferece ao espectador a oportunidade de respirar através de explosão de imagens, é a botija de ar que recebemos de bónus, de outro modo o filme era uma tortura e o tema central deixava se ser o desempenho do actor. Porque verdade seja dito, as pessoas gostam de sangue, e é sangue que querem ver neste filme, Danny Boyle dá a volta à questão!
A reter: o olhar de Franco, a banda sonoro forte, a montagem e fotografia, a visão e projecção inteligente do realizador.

segunda-feira, março 07, 2011

A dois

Um estrondo interior, fervoroso e em crescendo.
"A dois" é algo que fazemos, juntos e que ninguém mais sabe.
Do nada, uma luz que se acende e ascende. Do nada e num ímpeto, um encontro de corpos em movimentos coreografados pelo som do bater dos corações.
Os corpos que se encaminham acompanhados ao final do dia pelas divisões do espaço, a sombra da noite infantil que se esbate na fronteira da Lua. Uma enchente de alegria, dois suspiros, um minuto e todo o mundo a acontecer: naquele preciso momento.
Prolongada a sensação, vida, sangue, fruição, dez sentidos, pares que se repetem, o teu gosto no meu, o meu corpo no teu, um sorriso esboçado que parece uma tela impregnada de cor, viva, bela e amante.
O poema de uma canção ainda a ser composta, a dedicatória de um livro já com muitas páginas lidas, uma pena leve que teima em cair sobre nós, o nosso sonho, a nossa vida. Isto é todo um reino de flores e rios prontos para nos receber.

terça-feira, março 01, 2011

Mudar de casa...mudar de vida?

Mudei de casa.
Aliás, estou ainda em fase de mudanças, transporto de uma casa para outra parte da minha vida, coisas e mais coisas que se colocam dentro de caixas livros, folhas, antiguidades e preciosidades chegadas do meu coração.
Mudo-me para uma nova casa, na nossa cidade, na artéria que nos faz chegar mais depressa a todas as coisas que fazem da nossa vida aquilo que ela é. E como foi bom percorrer aquele caminho hoje, lado a lado contigo. Caminhando entre o sol e a sombra, a brisa fria da manhã de Inverno e todas as outras pessoas do mundo nesta nossa cidade.
Não me é difícil mudar, nunca foi. Trata-se de uma nova etapa, que já iniciei há algum tempo sem me aperceber muito bem. Muda o local, o resto permanece, muda outra coisa, antes partilhava tudo comigo mesma, agora partilho-o contigo, todos os dias, dia a dia.
É bom descer a rua abraçada a ti, caminhar calmamamente, conversar enquanto o fazemos, é bom saber que sentes a minha falta à noite quando te deixo por breves momentos a dormir, é bom deixar a nossa casa e saber que a ela vamos regressar ao cair da noite.
À nossa!
Bem hajas.

domingo, fevereiro 13, 2011

F.u.t.u.r.O

Futuro.
O que é afinal?
Como é que se escreve, como se descobre, como vivê-lo, se ele é algo que ainda está por vir?
Passamos o tempo a planeá-lo sem saber que o futuro está bem mais próximo do que podemos imaginar.
Futuro é um sonho que com uma "data limite" se transforma em objectivo. Futuro é grão de areia sobre grão de areia, é mão de criança curiosa e macia. Futuro é manhã silenciosa e ensonada.
Para quê temer o futuro, quando o passado já nos ensinou por demasiadas vezes que tudo se resolve, que o Sol por mais escondido que esteja sempre arranja maneira de se insurgir, o Sol colado ao céu aos beijos sôfregos com todas as núvens passageiras.
Futuro é linha fina e trémula que tornamos forte com o presente que enfrentamos hora a hora. Futuro é fina camada de açucar caramelizado no topo de um bolo acabado de arrefecer.
Futuro é tudo e nada, é água e fogo, sombra e luz, é pessoa e animal, é cama feita de lavado, é sabor a cereja na Primavera, é aquela música que vai ser um grande sucesso só que ainda não foi feita, é palavra por dizer, é vida, morte, renascimento e plenitude.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Brevemente

numa avenida perto de mim...

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Hino

A ti que me seduzes e animas.
À luz que emanamos juntos num sussuro sonoro.
Ao mundo que nos abriga num universo particular.
Ao som do bater do teu coração quando me aninho sobre ele.
Ao silêncio do vento que nos abençoa quando precisamos de estar a sós.
À ausência do dia a dia que nos faz querer sempre regressar.
A mim que me deixei ir enredada pelo teu sorriso.
Ao adeus que partilhamos todas as manhãs, tristemente felizes.
Ao pé ante pé que nos deixa caminhar de noite para não quebrar o vidro do sono um do outro.
À sugestão que damos à Vida de que ela ser torna simples e por isso digna se ser sorvida.
A nós que apenas sentimos e não duvidamos, porque apenas sentimos.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Do que gosto?

Gosto de palavra. Decisão. Firmeza. Subtileza. Agressividade gentil. Gosto de resposta rápida. Doce. Calor. Casa. Prata dourada. Gosto de tudo o que me permite evoluir. Gosto voo e da queda. Gosto de harmonia. Paz interior. Teclados de máquinas de escrever antigas. Brilho nos olhos. Esconderijos. Jasmim. Chá e café. Gosto da clave de sol. Gosto do cheiro da minha mãe. Gosto de bolo de noz. Veludo e seda. Da queda e do salto. Da mentira frágil. Do miar da minha gata. Da manta no Inverno. Do luxo da simplicidade. De fruta fresca cortada. Do cheiro a papel, a plástico e erva molhada.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

sábado, dezembro 11, 2010

Porque o coração não sabe ler

Naquela manhã nascida num dia cinzento-água coberto de sombra enovoada havia um quarto, e desse quarto ecoava a ideia de um sono meio profundo, meio sonhado, meio por acordar. As gotículas de água cristalina estariam possivelmente à espreita com os seus olhos fugidios por entre as persianas das janelas fechadas que continham todo um ar quente bafejado de súor, gesto e agressão feita leveza.
A noite era já uma memória, um rasto deixado entre lençóis, um caminho trilhado e um novo por trilhar, um golpe de espada, um toque ao de leve na pele arrepiada, as teclas do piano que iam deixando fugir uma melodia que só duas e duas pessoas conseguiam escutar. Digam-nos para párar, ensinem-nos a esconder, libertem-nos dos nossos medos, façam as nossas asas crescer. Vão embora e deixem-me a mim ficar no para sempre no quarto, no quarto onde os violinos não soam para que uma melodia mais bela possa ser escutada.
Ao acordar, a acção prosseguiu, o momento aprisionado libertou-se e escorreu pelos poros, esvaiu-se entre lençois, um relâmpago mudo abafado por uma mão, um romper da carne contraída, um corropio de imagens, olhos fechados, olhos abertos, vermelho fogo, luz, dois.
Uma lição foi aprendida na manhã nascida do dia cinzento- água, a lição de que o tempo é uma benção e que nenhum dia pode ser desperdiçado, nenhum dia é desprovido de beleza, nenhum momento por mais breve que seja... nenhum momento pode ser dado como trivial, nenhum momento pode jamais ser roubado ao tempo que ecoa de dentro de nós, de um para o outro numa linguagem sem palavras porque as palavras às vezes fogem para os lugares do nosso coração, os lugares sem som, e assim escrevo: Gosto muito de ti, escrevo porque o coração não sabe ler.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

A ave

Subir, subir o mais possível sem temer a queda livre.
Rejeitar o baixo voo e o seu constante contacto com a erva verdejante e orvalhada, que pela sua frescura nos afasta do que há ainda por descobrir.
Optar por coisas mundanas, palpáveis, que fazem da gravidade algo trivial, da maçã um bocejo e de um abraço um manto quente e protector.
Rejeitar o voo rastejante que pouco dá para pouco receber, e que amealha restos de seres que há muito deixaram de respirar.
Abrir as janelas para deixar entrar a brisa, o vento, a folia, os pássaros, os soldadinhos de chumbo, o tilintar das chávenas, o aroma do chá, os sinais, o tudo que não é pouco, não é, não.
Ousar um voo mais alto, talvez uma ave com asas mais esguias, uma ave curiosa que não é controlada pela passagem das estações, uma ave solitária que ruma em direcção ao Sol, esteja ele vivo durante 12 ou 6 horas, as que forem...são as suficientes.
Assim começa um novo ciclo, repleto de chcolate e arco íris sorridentes, abertos e coloridos, um novo ciclo em época de luzes, deuses e monstros amáveis.
Algo que termina, algo que começa, rodopia sobre si mesmo, uma coroa de flores feita luz, nada tímida, nada presa, nada fugidia porque não sente as correntes.
A ave voa por cada vez mais tempo, para cada vez mais longe, regressando sempre. Ela regressa. O mundo gira. Estrelas. Pontes. Flores. Cartões. Dias. Bruma. Rio. Poema. Sussurro. Sono pesado. A ave regressa sempre.

segunda-feira, novembro 29, 2010

sábado, novembro 06, 2010

Incrível

A Vida é tão divertida. É incrível como só me apercebo isso de vez em quando, e nesse "de vez em quando" me alegro tão vivamente e me arrependo momentaneamente por todos os momentos infelizes.
É mesmo incrível, como o tempo passa, e enquanto passa as coisas tranformam-se, toldam um universo cada vez mais particular, melhoram a nossa percepção, as coisas passam a sonhos, os sonhos a objectivos e os objectivos a sorrisos perpetuados nas nossas pequenas grandes conquistas.
E nisto não há margem para deixarmos de ser aquilo que queremos ser, que sempre fomos e que devemos ser para sempre, se deixarmos de o ser, é porque nada sabemos sobre nós próprios, como se diz por aí...aquele que em nada acredita, deixa-se ir pelo quer que seja.
Os erros são apenas incentivos para que aprendamos a ser nós mesmos. É para isso que servem, tal como os problemas, não servem para nos perturbar ou arreliar, não nos tiram anos de vida, pelo contrário devolvem coisas que achámos perdidas, fornecem ferramentas intuitivas, puxam pela nossa criatividade, ensinam-nos que sem eles somos meros blocos repetitivos nas forma e no conteúdo.
A Vida é divertida. Mostra-nos o nosso potencial dos modos mais curiosos. Retira-nos o tapete que dorme a nossos pés para nos revelar todo um chão brilhante que podemos pisar, que é macio e deslizante e que nos leva para lugares tão ricos e distantes.
Ah se eu soubesse antes!!! Mas não sabia, é mesmo assim.
Sei que dou tudo o que tenho e ao perder, nunca fico sem nada. Guardo sempre um pouco de mim, em tudo o que possuo, em tudo o que guardo, em todos os meus sonhos, em tudo o que toco, guardo um pouco de mim nas pessoas a quem me ligo diariamente. Nunca me perco porque me conservo totalmente no meu próprio coração. Se me quiserem conhecer terão de chegar a ele, pois só ele me tem por inteira.

domingo, outubro 31, 2010

Amor é o lugar de onde se parte, é o caminho que se trilha e o lugar a que se chega.

Para uns ponto de partida, para outros.. de chegada... isto se forem a tempo, e se não desistirem antes.
De onde se parte afinal? E para onde se pretende ir?
Questiono-me sobre isto sem saber muito bem o porquê. Como se durante o sono profundo sem sonhos fosse assaltada pela dúvida que mais não é energia esvaída a recompor-se.
Talvez Amor.
Será Ele construção, produto final...ou, ponto de partida?
Seja o que for deve ser na mesma proporção partilhado. Creio que o Amor vem antes de tudo, somos produtos de Amor, emanamos Amor pelas pequenas coisas, por nós próprios, amamos ainda antes de nos apercebermos e de constatarmos por palavras. Amor. Para mim, ponto de partida para algo em construção, uma aura crescente.
Esperar por amar, não é amar verdadeiramente, é simples sujeição. Para uns o Amor sente-se logo ao início, para outros o Amor é um objectivo. O Amor não se conquista, não se rouba, não se perde, não se ilude, não se vende, não se consubstancia em corpo, não se ganha, não se vitimiza, não se cansa, não se desgasta com o tempo, não colide com ideais, não.
O Amor engradece, ecoa, brilha, acolhe, perfura e liberta, sente-se na brisa do vento, na língua húmida, no bater do coração, no sorriso de uma criança, num miar de um gato, num abraço em noite de tempestade. O Amor cresce na perda, na mudança, na dor, na luta, o Amor dissolve as diferenças, o Amor é aquele momento perpetuado em câmara lenta, que com a brisa acelera o passo e se transforma no caleidoscópio dos nossos sentidos.
O amor pede apenas coerência, entre o que se diz, o que se escreve e o que se faz.
O amor pede coragem.
O amor pede menos do que aquilo que dá. E se for difícil dar, então é porque não se trata de Amor.
Amor é o lugar de onde se parte, é o caminho que se trilha e o lugar a que se chega.

domingo, outubro 24, 2010

Embalada

...pelo som da melodia feita batida do meu coração, coração que é meu, meu e de mais ninguém. Pensamento livre, livre como o pássaro que voa sem destino, sem estação de ano, sem vento, sem fome, pássaro que voa porque quer voar, porque tem asas e porque pode voar.
Apoderar-me da fome que se transforma em calor e que mata o frio no peito sedento de novo sangue. Sem muito fazer, a não ser tudo aquilo que me parecia mais coerente com o sentimento acorrentado à vontade de não despir a minha alma, porque sem ela nada seria...prossigo.
Consciente de que tudo em meu redor, nunca é presente, o presente é um instante que no final desta frase já terminou. Vivo o passado como quem atravessa um corredor remodelado pelas memórias da minha mente, estantes de conhecimento, de lágrimas e sorrisos, pilares de harmonias, de súores frios, de línguas quentes, quadros pintados a aguarela, lágrimas que não chorei, planta que não cresceu, sorte que tive em perder, porque ao perder sei que ganhei.
Que chegue o futuro no final da próxima frase, momento prestes a ecoar por entre cortinas, como as ondas do mar que recortam as rochas duras, cinzentas e em mudança eterna. Sejamos essas rochas, vivamos em constante mudança como elas, deixemos para trás as pégadas na areia que o mar tratará de desfazer, abracemos o céu estrelado, o beijo do sol ao mar pela manhã, o início do dia, do dia da nossa vida.
Da minha vida.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Outono

O verão está a morrer. Está a despedir-se depressa demais. Não sentem? Não concordam, ainda ontem parecia estar tão presente. Será que foi alguma coisa que fiz e ele agora está a vingar-se, partindo repentinamente. Mau este Verão, ser vil e sem coração. Que fazer? Prosseguir, com ou sem o ar quente dos meses do meio ano, e não menosprezar aquilo que os que ainda estão para vir me podem oferecer.

Tardes calmas, aninhadas na manta ao sofá. Chá, e bebidas quentes horas frias, refeições reconfortantes, matinés em que adormecemos antes do filme terminar, o enroscar do gato no nosso colo. Aquele frio ao acordar e que nos empurra ainda mais fundo entre os cobertores, aquela vontade que falta uns dias e que teima em ser forte nos outros. A de ficar, ali toda uma manhã.

Noites frias com vidros embaciados, revisitar de momentos puros, nostalgias anciãs, a memória de aniversários remediados, de festividades felizes, de surpresas simples.

Outono que aí vem, folhas amareladas e quebradiças estendidas no chão feitas manto de retalhos, retalhos que teimam em permanecer quietos e murchos, tal como alguns corações, ternos, adormecidos, expectantes, sombrios, em sobressalto, corações descompassados e que precisam de ganhar ritmo, um novo bater, um bater esperançado, um bater feliz, um bater disposto e prosseguir, um bater majestoso e desejoso de mais, apenas um pouco mais.

terça-feira, agosto 24, 2010

A memória

É um corte abrupto na carne, bem no centro. São fios a rebentar por não conter a força do movimento de dentro para fora, arde uma luz que na sua própria aura consome o que resta do corpo dormente. Uma dor tão forte que dá ideia de que o coração quer abrir caminho pelas costas, não temos asas e agora não temos coração. O ar deixa de entrar. Fechamos os olhos e quando os voltam0s a abrir, está tudo igual, tudo menos o coração que permanece fora do corpo, e o ar que não entra por ele a dentro. Decidimos sair em busca do Sol e voltar para casa sabendo que não o encontrámos e sentir bem lá no fundo que não o vimos, porque ele saiu também à nossa procura. Assim se gera o apaziguamento doce e que se vai instalando calmo e feliz clamando por Liberdade, aí sabemos que temos de buscar o nosso próprio Sol. A memória permite acesso a coisas extraodinárias, relembra-nos do que queremos que fique e do que queremos que vá, que fiquem os mapas nos nossos corpos, as manchas nas nossas almas, os olhares tão cheios de vida, o gosto do gosto de outros, o resto que vá. A memória relembra-nos que há dor, que se olharmos para a ferida dói mais, ganha vida. A memória permite-nos abrir todas as portas que se fecharam, permite-nos correr até que nos faltem as forças até àquilo que queremos, a memória busca-nos quando nos esqueçemos dela. A memória é intruiguista e ávida de conquistas, e quase tão bela... Isso faz dela invejosa, a memória gostava de ser corpo como nós, sentir dor, alegria, prazer e toque humano, mas a memória não pode, é mera escrava do ar que envolve tempo que já foi.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Deveres

Devemos correr atrás do que queremos. Devemos sempre prestar atenção ao que nos rodeia, a quem nos rodeia e a quem rodeamos. Devemos perdermo-nos para nos voltar a encontrar. Devemos deixar sempre a porta entreberta para que os fantasmas percebam que não os tememos. Devemos repetir sempre aquilo que já sabemos que o outro sabe. Devemos deixar que as oportunidades não escorram por entre os nossos dedos. Devemos partilhar o pouco que temos, para que o pouco se transforme em algo grandioso. Devemos morrer se queremos renascer, sem deixar morrer o calor que emana do nosso coração acorrentado à carne fria. Devemos beber do suór da Lua, cantar com as lágrimas secas do Sol, maravilharmo-nos com o odor das estrelas em noite escura e quente, devemos fechar os olhos para assim vermos toda a uma vida. Devemos contemplar o Vazio que sentimos engrandecer-se na derrota dos nossos actos. Devemos deixar o Vazio instalar-se, comprazer-se na nossa dor, deixá-lo mais um pouco. Devemos apelar às forças que já não acreditamos ter, alimentá-las do que de bom ainda possuimos, pegar na espada da Vitória e despedaçar o Vazio, deixá-lo ir com a brisa fresca da saudade e sair vitorioso no seu lugar. Devemos partir, se nunca abandonarmos o nosso lugar. Devemos ficar, se nunca tivermos vontade de partir.

segunda-feira, agosto 02, 2010

domingo, agosto 01, 2010

A Vida parece ter vontade própria

Sabem quando vos apetece fugir, esquecer, relativizar, simplificar, esconder de tudo e todos com a máscara de um sorriso escavada na mais dura rocha na encosta da solidão? Sabem quando se tenta apagar da memória, mesmo que temporariamente, os bons momentos vividos, as alegrias partilhadas, os sorrisos cúmplices, os despertares felizes... e tentamos e tentamos, em vão... Parece que estamos a produzir uma imitação da vida, uma forma desesperada de não sentimento, de não desejo, de não cumprimento do dever, de esquecimento. Um rio que não desagua em mar algum... E eis que a Vida ganha força, mais uma vez, e parece ter vontade própria, esbofeteia-nos, diz que nos portámos mal, que estamos a fugir de algo que está dentro de nós e que ecoa numa sombra pesada. A sombra é nossa prisioneira, ou nós dela. E eis que a Vida ganha força, força como a do corpo enraivecido, força como a lágrima que escorre sem poder ser contida, força como a do vento em noite de tempestade, força como a da entrada de um corpo no outro num balanço terno, força como a das amarras do passado, força como a da sombra que rouba a luz do nosso dia, força como a do espaço da palavra escrita porque não a posso proferir de viva voz, força como a da alma que acredita que a sua carne se unirá a ela uma vez mais. E eis que a vida me faz deparar com isto...e eu lembro tudo outra vez...é a Vida. "Um beijo teu é como água salgada, quanto mais se bebe...mais sede se tem." Drummond de Andrade

segunda-feira, julho 26, 2010

Hoje odiei o mundo por duas vezes

Desde o dia 15 de Junho que odeio o mundo. Faço sempre o mesmo caminho em direcção ao meu trabalho e o mesmo para regressar a casa ou a outro sítio qualquer. Tem dias em que odeio o mundo. Desde o dia 15 que ao mesmo tempo que me encaminho para o escritório vejo um homem velho, de cabelo e barba branca, com sacos de plástico numa ou em ambas as mãos. Nas mãos cheias que me parecem vazias. Mas só as mãos parecem vazias, olho-o sempre revoltada e fico triste, não sei o que lhe aconteceu, o que fez ou o que lhe fizeram. Não sei como e quantas pessoas magoou, não sei se mentiu, se maltratou, se roubou ou se matou sequer. Juro que não sei. Não lhe conheço a voz, nem a morada. Só vejo com o meu olhar entristecido que procura o olhar triste dele, e nesta procura terna de vidas fugidias fico sem saber porque odeio o mundo e por ele nada consigo sentir. Apenas sei do que vejo, e quando o vejo, olho-o a ver se me olha, procuro-lhe a íris mas ele olha sempre o chão e nunca as pessoas de frente, não sei se por vergonha, se por medo. Ele não me olha, e tem dias em que acho que se o conseguisse encontrar com o meu olhar que lhe conseguiria ler a alma e dizer-lhe sem palavras que não tem que fugir das pessoas. Um dia se o vir sentado no banco do jardim frente à igreja como também já o cheguei a ver, vou falar com ele. Devia tê-lo já feito. Hoje vi-o a caminho do emprego e a caminho de casa. Hoje vi-o duas vezes. Hoje odiei o mundo por duas vezes. E hoje não o consigo esquecer.

domingo, julho 18, 2010

Entre as linhas

poemas que se escrevem e que jamais serão lidos. Há cores inventadas e que jamais impregnarão uma tela. Há lugares do coração que nos esquecemos de procurar. Há medos que por mais que combatamos não se esgotam ao nascer do dia. Há verdades imensas, valiosas, donas da Humanidade. Há coisas que gostaríamos que fossem fáceis, e só o são se assim o quisermos verdadeiramente. Há partes de nós que são estilhaços que nos cortam a nós e aos outros. Há palavras que não queremos vir a precisar de dizer. Há caminhos que não queremos percorrer. Há que percorrê-los, a pé, a voar, contigo, por ti, ou apenas para te alcançar. Há sentimentos que se alojam nas encostas da nossa alma, tal como as rochas tumulares nas praias fazem alterar a morfologia do mundo. Há coisas que quando nos imaginamos sem, fazem com que o reino dos nossos sentidos se desmorone. Ritmo. Obra. Devaneio. Revelação. Inimaginável. Gesto. Obrigatório. Há o verso curto e há a composição escrita. As entrelinhas que foram inventadas para que consigamos descobrir o que deixou de ser visível, as frases feitas para nos redimir, e...as mesmas, capazes de nos condenar.

domingo, julho 11, 2010

É bom...

É bom quando chegamos, sentir que foi como se nunca tivéssemos partido! Também gosto da sensação de partir, e nesse mesmo momento vislumbrar a minha chegada. Por melhor que seja o motivo da ida, só é de facto bom, se tivermos uma razão ainda melhor para regressar. Sempre vi assim as minhas viagens. Fui sempre na intenção de voltar. Houve apenas uma vez que não o desejava, queria lá ficar, nem sei bem porquê...estava a gostar por demais da novidade e a achar que aqui no lugar onde tinha de ficar não tinha grandes coisas para fazer, a não ser continuar a aprender um pouco sobre tudo e nunca muito sobre coisa alguma. "Adolescentes" diz a irmã!! Mas a verdade é que voltei. No ano seguinte regressei pela mesma altura, os planos foram alterados à última da hora, peguei em mim, comprei um bilhete e meti-me no avião, queria desaparecer...mesmo que fosse só por 10 dias, mesmo sabendo que o longe é sempre perto demais. Voltei tristíssima por sair de lá, foi uma verdadeira tortura, mas voltei. Alterada. Tomei decisões, mudei tudo, desisti do que havia a desistir e formulei uma recuperação: nos entretantos fui celebrando a vida! Desde então a viagem que fiz foi por aqui mesmo, a do ano passado não conta...e este ano também não prevejo nenhuma no horizonte! Viajarei nos sonhos, que vou trilhar por entre caminhos feitos em chão de pedra dourada coberta por todo um manto feito de retalhos de alegria e cheiro a moringa. Além dos sonhos, viajarei com as palavras, nos intervalos dos esforços laborais, nas noites quentes e abafadas de Verão, nas manhãs cheias de esperança e frescura, nos entardeceres calmos e abraçados, sim o entardecer é capaz de nos abraçar: normalmente é nesse momento que o nosso coração se deixa inflamar.

sábado, julho 03, 2010

Manifesto ao Prazer

Creio que preciso de descodificar o prazer. Afinal o que é isso de "prazer". Sei sentir, mas não sei explicar. Não sei se coloque a questão em termos físicos, ou siga outro rumo que desemboque numa ressonância magnética à alma. O prazer poderá ser dor? Acho que sim. Pode gerar ou ser gerado por ela. Deveriam ser antagónicos, mas vejo-os um ao lado do outro, de mãos dadas. Porém, e é aqui que entra a grande questão: o prazer proporciona felicidade. Andamos todos à procura de ser felizes, mas dou por mim a olhar para isto tudo e a crer que procuramos de maneira errada. É como se a felicidade fosse uma meta e não todo o chão que pisamos até chegar a ela...A felicidade meus caros é algo que está sempre connosco, dentro de nós, e para onde quer que vamos, a felicidade está em nós, é tudo aquilo que somos, o que de bom nos alegrou e o que de mau nos fez mudar, mudar para melhor. Sejamos independentes e encontraremos forma de dar a quem precisar de receber. Talvez a questão à qual não quero responder seja "És feliz?", mas sim "Podes ser ainda mais feliz?", prefiro responder à segunda questão. E eis que me lembro do prazer, e nas suas variações, o prazer na dor como já mencionei, o prazer como escape, o prazer como manifestação sensorial dos nossos sentimento, ( a sensação de sentir...jamais esquecerei isso), o prazer como resultado explosivo do afecto que sentimos por alguém, o prazer em dar, o prazer de receber, o prazer da carne pura e dura, o prazer na vontade que se gera entre duas pessoas sem que precisem de fazer uma pergunta que seja, o prazer de um simples acordar silencioso, porém majestoso em gestos, o prazer de ouvir a voz de alguém de quem se gosta e que nos faz falta, o prazer em achar que há muito para fazer, por isso o que está feito se feito com prazer não precisa de qualquer recriminação. O prazer. Sintam-no, mas não façam dele um sedativo, não vejam no prazer uma sensação momentânea, um escape para os problemas da vida, problemas sempre teremos, resolvemos uns e logo surgem outros, com o prazer é a mesma coisa, deixamos de ter prazer numas coisas para ter noutras, e o mesmo com as pessoas, e o mesmo com as cores, e o mesmo com a felicidade, hoje sou feliz, mas amanhã quero ser mais!

domingo, junho 27, 2010

É de noite que os deuses descem à Terra dos Sonhos

Às vezes sinto que o dia presente, será o último dia em que usarei palavras.
Normalmente adormeço com esse pensamento. Durante a noite algo de mágico acontece. É como se me despedisse milhares de vezes de alguém, e no dia seguinte ele voltasse a aparecer na minha vida. Ao acordar, as palavras estão já deitadas a meu lado leves e sorridentes. De noite costumam acontecer coisas mágicas, os deuses descem à terra e ofertam-nos com os seus encantos, mas fiquem atentos, porque os deuses são caprichosos. É de noite que os deuses descem à terra dos sonhos. Pairam sobre nós, sussuram-nos palavras doces e tornam os nossos sonhos em matéria. Afinal de que são feitos os sonhos? Hei-de morrer sem saber a resposta, apenas a posso imaginar.
Imaginar e depois escrever, sendo que escrever nada mais é que reviver um momento que já não se repete, apenas o podemos voltar a imaginar, tentar decifrar pedaços da nossa existência e criar laços a partir daí. Laços que quando dados e depois recolhidos no fio da memória nos arrancam sosrrisos rasgados. É assim, doce e frenético...o sonho, o momento que se sonha. O meu último sonho foi uma realidade. Estava meia que a dormir, mas sem dormir verdadeiramente, digamos que estava naquele momento em que internamente travamos uma batalha entre vontade e necessidade, que nem sempre são a mesma coisa, mas quando são, é de facto um momento maravilhoso. E meia que a dormir, era chamada ao meu mundo por uma voz, ela estava ali colada ao meu ouvido, como que um zumbido, fazendo com que a necessidade fosse rebaixada pelo desejo, porque eu desejava ficar acordada durante horas. De repente, o zumbido tornou-se um grito, a distância que eu imaginava encurtou-se, e senti a adrenalina nos minutos que antecediam a abertura dos presentes no Natal quando era pequena. Saltei da cama, juro que saltei da cama para ver com os meu próprios olhos aquilo que os meus ouvidos me diziam. Não era mentira. A melhor prenda, pele com pele, voz com voz, toque com toque, sentir algo a crescer, o mundo poderia começar a arder nesse preciso momento que não daria conta, será que ardeu? Parece que parou de girar, ou então começou a girar mais depressa que nunca. A noite envolta tornou-se madrugada, os deuses por ali, sobre nós, por entre, de dentro para fora, entrando e saindo. Os deuses só nos deixaram quando afugentados pelos primeiros raios de sol. Para nossa sorte, nós ficámos, por uma vez, completamente a sós.

sábado, junho 26, 2010

Afinal do que é que não gosto

Ora aqui está um tema importante. Do que é que não se gosta...podemos não saber ao certo do que é que gostamos, mas é realmente importante sabermos aquilo de que não gostamos, digamos que é um atalho, que hoje em dia parece que "não há tempo a perder"!
Não gosto da palavra "não": parvoíce eu sei, mas não gosto de a usar, e muito menos de começar frases como acabei de fazer com a presente...também já não a vou apagar, não vou não. Note-se que além de não gostar de começar frases com esta palavra, também não gosto de as terminar. Onde é que ia eu..ah pois bem, do que é que não gosto...Não gosto de favas. Não gosto de enguias, vivas ou cozinhadas. Não gosto de não ter nada para fazer. Não gosto de ter coisas por fazer. Não gosto que me caia a pele, como me está a cair neste preciso momento. Não gosto que me batam na nuca. Não gosto quando tenho a certeza que pus uma coisa num sítio e quando lá vou cadê da coisa. Não gosto de Saramago, tenho muita pena que tenha falecido, mas não gosto do que escreve, como escreve e muito menos da entoação que dá (dava) às palavras quando falava. Não gosto da morte, da minha e dos que amo. Não gosto do cheiro do milho cozido. Não gosto de sapatos lindos de morrer, caros como o raio co parta e que magoam como se não houvesse amanhã. Não gosto quando os filmes que quero ver no cinema demoram para lá de três meses a estrear no Cinema. Não gosto de não ter imaginação para mais, e por isso mesmo escrever que nem uma idiota sobre as coisas que não gosto. Não gosto de iogurtes em que misturamos os cereais. Não gosto do preço das malas Louis Vuitton. Não gosto de música (muito) clássica. Não gosto de Tony Carreira, mas não é por mal, juro. Não gosto de falsas modéstias. Não gosto de meninas púdicas. Não gosto de meninos gays e que nem sequer gostam de outros meninos. Não gosto de "dominar" sobre um assunto. Não gosto de acordar tarde. Não gosto quando quero muito uma coisa e ela nunca mais chega. Não gosto quando me apetece comer alguma coisa e não percebo o que é. Não gosto de banana, nem de polvo, e de galinha que sabe a cânfora. Não gosto de "performances", nem "Arte" contemporânea que envolva acrílicos, saliva, pregos e guardanapos sujos. Não gosto de guardar segredos, mas guardo 'tá? Não gosto quando me quero explicar e as palavras vão a correr na direcção da outra pessoa antes de eu me aperceber e quando dou por mim já vou tarde. Não gosto daqueles dias depois do Natal em que rebolamos de casa em casa, e depois ainda nos sentimos cheios e temos de saltar e dançar muito, e pedir desejos na noite do ano novo (mas gosto do beijo que se dá à meia noite, embora nunca tenha dado nenhum ;). Não gosto que estraguem surpresas. Não gosto quando o ipod fica sem bateria e não tenho o cabo USB por perto. Não gosto quando tenho o nome da canção na ponta da língua e a filha da p*** não sai cá para fora. Não gosto quando no Telejornal dizem "as imagens que se seguem podem ferir a sensibilidades dos teleespectadores"...e mesmo assim mostram. Não gosto quando cortam a minha música na rádio com Publicidade. Não gosto de ver maratonas de séries em casa, como se não houvesse uma vida para viver, seja em casa, na cama, encostada à parede, ou até mesmo no supermercado a comprar sacos do lixo. De que é que não gosto mais...deixa cá ver...pois da guerra, da corrupção, da maldade, de doenças para as quais não há uma cura. Não gosto de perder, coisas e pessoas que amo. Não gosto de ser deixada para trás, não gosto de sentir frio, não gosto quando bato com o dedo mindinho no pé da mesa, não gosto quando mordo a língua e deita sangue pois, não gosto mesmo nada disso. E enfim, há mais coisas que não gosto, e possivelmente são muito parecidas com as que vocês não gostam, portanto este texto é ridiculamente fora de qualquer propósito e em nada vos vai enriquecer após a sua leitura. Não me odeiem, vá está bem só um bocadinho assim para o pequenino.

domingo, junho 20, 2010

Respiro entre Vento e Aguarela

(fotograma do filme, E tudo o ventou levou, 1939)
"Mais. Por favor."
Transbordo de sensações. Misto de embaraço e avidez, numa aparente calma movediça. Palavra como cor de aguarela aguada, ténue e translúcida.
E se a chuva vier? E se a impiedosa chuva vier e fazer desaparecer a aguarela da face da Terra. E se a chuva vier? Como é que se anda erguido debaixo da chuva? Aliás como se protege a aguarela para que não se misturem as cores?
Respiro. Por um pouco. A tela ainda ali está, a aguarela é que teima em secar.
E se fechar os olhos, por um momento que seja...será que o momento se esvai?
Abro as janelas para que a brise entre, se chegue a ela e num abraço fresco a faça secar mais depressa. O abraço descai num longo beijo entre apaixonados, o Vento e a Aguarela.
Respiro. Respiro mais uma vez. Nem sempre é fácil respirar, teima em sair, o ar amedrontado, mas mais não é possível. Respiro.
Gota de suór deslizante, entre os fios que definem os corpos. Respiro. Páro. Recomeço. Um respirar solenemente prolongado. E depois há aquilo que não se vê, que não se mostra, que não se materializa, a agurela não penetra. Respiro em pequenas doses enquanto o momento não chega.
Vento forte, capaz de destruir. Mas o vento é também elíxir quando chega em boa hora. A aguarela espera pelo vento, que é capaz de vaguear pelo mundo enquanto ela fica húmida e fresca entranhando-se na mais bela tela que quiseram pintar.
( E só escrevo porque ao escrever, respiro.)

sexta-feira, junho 18, 2010

Pessoas

Algumas gostam de sorrir. Outras de chorar a rir, outras preferem chorar antes e rir depois.
Pessoas grandes, pequenas, altas, magras, daqui e dali, viajantes do ar, da terra e do mar. Sonhadoras convictas ou idelistas inertes. Pessoas que gostam de pessoas. Pessoas que gostam de comunicar, de agradecer, de fazer sorrir. Pessoas que não temem, que vão em frente. Pessoas que sofrem, que já sofreram e mesmo assim não desistem, por saberem que o bom do sofrimento é que este termina eventualmente. Pessoas que dançam sem música. Pessoas com o dom de tocar um instrumento, ou de tocar alguém. Pessoas que antecipam, outras que se esquecem do que está para vir. Pessoas que deixam outras para trás. Pessoas que esmagam outras, pessoas que não pensam nos outros. Pessoas de quem gostamos. Pessoas com quem nos cruzamos, pessoas que nos cedem a passagem, pessoas que se aproveitam da nossa passagem pela vida delas. Pessoas que largamos, pessoas com quem vibramos. Pessoas a quem fazemos confissões, pessoas que esquecemos de nos lembrar. Pessoas que jamais esquecemos, outras que nunca nos esquecem quando delas já nada queremos saber. Pessoas que matam a fome que as atormenta com sabores de outros mundos, com sons de outros universos. Pessoas com sensibilidade, pessoas que nos abraçam, que nos sentem, que entram em nós e não queremos que deixem de se entranhar nos nossos poros.
Pessoas como tu.
Pessoas como eu.

domingo, junho 13, 2010

Passarinho na gaiola!

"Disseste-me tu!" Sinto as grades, as asas presas e o espelho que reflecte a imagem que não apetece admirar. A prisão que esgota, suga a energia, e cola as asas à carne que não se vê. E dentro da gaiola há o pauzinho suspenso por dois fios feitos de arame que o transformam num balouço, sinto o arrepio do balanço, o medo de cair...mas não caio, eu devia cair. Não percebo..eu devia cair. Uma coisa é não querer, outra é não poder, um coisa é ser, outra é algo que não sei o que é. Quero voar, pode ser baixo, naquele voo tangente ao solo que por timidez roça na ponta da erva orvalhada que arrepia a barriga ao toque, mas quero voar. Mas não consigo cair primeiro. Não rasga, não corrói, não verga, não expulsa, o que entra fica e não sai. Não corre, não parte, não estica, o que respira transpira e não molha. Bate as asas passarinho, que o gato está a ver-te por entre as grades da gaiola.

sábado, junho 05, 2010

A um passo da Eternidade

Já se deram conta da imensidão da vida que já se esvaiu?
Já se sentiram abençoados tamanha é a felicidade que contém o vosso coração, transbordando para lá da linha do Horizonte, desafiando a lógica, a convenção,... a normalidade.
Às vezes damos por nós a pensar que nunca somos os eleitos, que são sempre os outros os primeiros, que a nossa vez tarda sempre, mas depois quando chega sentimo-nos lisongeados, vingados, glorificados.
As dúvidas deixam de ser dúvidas porque a noite as desfaz na brisa da madrugada.
O quente do corpo ao nosso lado, adornece a nossa alma de sonhos felizes como que em catadulpa, a brisa instala-se, permanece, vibra e nós quietos, abraçados, respirando ao ritmo do mesmo compasso binário.
E tudo isto num encosto de peitos apertados um contra o outro, num jogo dançante que de calmo se torna cheio de movimentos e avidez, de sussurros e olhos que quando fechados vêem toda a realidade. E nesse mesmo encosto que se encaminha para outros lugares, o corpo fala a linguagem dos sentidos, do sentimento mais primário. As línguas secam de sede, os dedos das mãos tentam sentir vida ao tocarem a superfície do corpo que está à sua frente, ao entrar nele e ficar. As luzes, as sombras, a luz, a sombra, o desejo que encadeia, os olhares cruzam-se na antevisão da sensação frenética que pára e recomeça e que me lembra que estou a um passo da Eternidade.
E depois a calma, a reflexão, a vontade de sorrir, a vontade dar beijos incontáveis, de não arrancar o cheiro que se entranha nos poros, a vontade de não fechar os olhos por recear que aos abrir já lá não estejas, mesmo sabendo que isso não é possível, porque estás, estás mesmo.
O que se segue, o que acontece no dia seguinte...e depois e depois? É a Eternidade pois claro. Que se aninha no nosso dia a dia, que nos faz sentir falta do dia que já foi e do dia que está para vir. A Eternidade é a ideia de que somos capazes juntos, que podemos prosseguir, que a hora seguinte vai ser melhor que as anteriores, que os desafios podem vir que estamos cá para eles. A Eternidade é o espaço que se gera entre nós e que ecoa como um grito silencioso dos nossos corações. E eu espero, o tempo que for preciso.
A Eternidade é o que te dou, e é tudo o que tenho para te dar.