E porque tudo o que vejo, vejo como nos filmes. E porque tudo o que fazemos e sentimos pode ser recordado nas asas de um caleidoscópio em pleno movimento. Se há "acção" eu revelo por aqui.
segunda-feira, outubro 28, 2013
É isso que eu vou fazer
O Cinema foi e será sempre uma das minhas grandes paixões. Ao longo de todos estes anos tenho ocupado a minha mente - e o meu coração - com momentos repletos da intimidade própria de uma sala de cinema. Chorei, ri, voltei a chorar, a suspirar, a assustar-me e a viver com personagens de bons e maus filmes, de excelentes obras e outras não tão grandiosas, mas que por motivos vários me tocaram.
O saldo é positivo, cresci entre corredores de salas escuras, de sessões ao início e meio da tarde, início e final da noite, só e acompanhada, com e sem pipocas. Cresci e cresci muito, constitui família, vibrei com sucessos e derrotas próprias do caminho que tenho vindo a traçar sempre de mãos dadas com a Sétima Arte.
Costumo dizer que tudo o que dizemos e vivemos dava um filme. É só querermos.
E o Luzcamaraccao cresceu comigo. Às vezes mais "alimentado", outras vezes menos e nem sempre pelo seu tema-rei: o Cinema. A verdade é que eu própria descobri em mim outros gostos e outras vontades, descobri o digital e o Marketing, as Redes Sociais que me dão um gozo tremendo e me mostram que o dia está a mudar, todos os dias.
Mal ou bem fui pioneira nos primeiros tempos de blogger. O meu grande Amor (poderia lá eu imaginar) nasceu de um comentário deixado e esquecido por aqui, anos mais tarde, vim a descobrir que a pessoa que amo já me "seguia" ainda nos tempos de faculdade, vim a descobrir um grande amor. Um amor tão alto e tão forte que me faz querer mais, e escrever mais. E é por isso que volto sempre, volto sempre aqui a este espaço que é onde me sinto bem, é a minha casa das palavras que poderiam dar filmes.
Do Cinema resta pouco, escrevo pouco sobre ele, mas volto "devagar, devagarinho". O Luzcamaracção vai continuar a viver, e não vai mudar de nome, exactamente porque tudo é uma questão de perspectiva: tudo pode ser transformado em filme. Se escrevo sobre memórias, é porque na minha cabeça elas voam nas asas de um caleidoscópio.
Este meu mundo vai continuar a mostrar aquela que sou, do movimento do digital, das redes que me movem e de casos que encontro e que acho que devem ser espalhados aos sete ventos. Do Facebook ao Instagram, do vídeo à imagem, das causas esquecidas e dos artistas que ficam por escutar. É isso que vou fazer. A partir de hoje. É isso que eu vou fazer.
Imagem via Pinterest
domingo, outubro 27, 2013
O sonho
Parece que foi um sonho. Rápido, mágico e arrebatador. O dia amanheceu contigo e comigo juntos, de mãos dadas, como se fosse véspera de Natal.
Trocámos juras de amor, do nosso amor, e o nosso pequeno-almoço foi tomado com as nossas canecas, as nossas torradas, os nossos gatos, e os seus pêlos. Fui buscar o bouquet ao atelier improvisado na traseira de um carro e lá fui surpreendida mais uma vez. A brancura das flores escolhidas em contraste com o verde das suas folhas e com a fita de veludo azul que o prendia fizeram dele uma verdadeira jóia. A minha jóia.
Levei-o para casa e mostrei-to, sorriste-me em sinal de aceitação e até olhaste para o boutonniere com outros olhos, os olhos de quem muda de ideias. Despedimo-nos com a promessa de que nos voltaríamos a ver dali a umas horas, despedimo-nos com a certeza de que quando os nossos olhos se voltasse a cruzar, tu estarias de fato e eu de vestido, tu estarias à minha espera e eu iria em teu encontro. E assim foi.
Passei a tarde entre detalhes e preparativos, os cachos de cabelo agarrados e soltos, os saltos e a cauda. A gravação de momentos naquele quarto de hotel com vista para um jardim que parecia saído de um conto de fadas. E saí ao cair dos primeiros brilhos da noite, quando o céu esmorece e o seu azul quebra para dar lugar a um azul cinza que desabrocha num azul muito escuro. O azul do mar abençoou a nossa união e eu subi as escadas convicta de que o momento pelo qual esperámos tinha acabado de chegar.
E eu vi-te, do outro lado, a sorrir para mim e a dizer-me que eu estava linda com o olhar, eu fitei-te e sorri para que só tu soubesses que ver a tua cara naquele momento era o realizar de um desejo muito profundo, o nosso desejo cumprido. Abraçámo-nos e beijámo-nos, como nos filmes, sentámo-nos e ouvimos o discurso da nossa amiga que nos embaciou os olhos e apertou o coração. Ela terminou e foi como se um espartilho se abrisse para voltarmos a respirar.
Beijos e abraços, e deixei de te ver, tinhas desaparecido para te voltar a encontrar alguns minutos mais tarde. Nunca mais te larguei (ou pelo menos tentei), dançámos e flutuámos, trocámos olhares e dezlizámos pelo mármore frio do espaço escolhido.
Não poderia ter sido diferente, foi tudo o que quisemos e muito mais. Feliz por sermos assim, feliz por sabermos fazer as nossas escolhas, feliz por saber que temos algo difícil de ter e que é fácil para nós. Lemos juntos o nosso livro, um último beijo e um último deitar.
Somos felizes, a felicidade não é um momento, a felicidade é um mar de dias.
Trocámos juras de amor, do nosso amor, e o nosso pequeno-almoço foi tomado com as nossas canecas, as nossas torradas, os nossos gatos, e os seus pêlos. Fui buscar o bouquet ao atelier improvisado na traseira de um carro e lá fui surpreendida mais uma vez. A brancura das flores escolhidas em contraste com o verde das suas folhas e com a fita de veludo azul que o prendia fizeram dele uma verdadeira jóia. A minha jóia.
Levei-o para casa e mostrei-to, sorriste-me em sinal de aceitação e até olhaste para o boutonniere com outros olhos, os olhos de quem muda de ideias. Despedimo-nos com a promessa de que nos voltaríamos a ver dali a umas horas, despedimo-nos com a certeza de que quando os nossos olhos se voltasse a cruzar, tu estarias de fato e eu de vestido, tu estarias à minha espera e eu iria em teu encontro. E assim foi.
Passei a tarde entre detalhes e preparativos, os cachos de cabelo agarrados e soltos, os saltos e a cauda. A gravação de momentos naquele quarto de hotel com vista para um jardim que parecia saído de um conto de fadas. E saí ao cair dos primeiros brilhos da noite, quando o céu esmorece e o seu azul quebra para dar lugar a um azul cinza que desabrocha num azul muito escuro. O azul do mar abençoou a nossa união e eu subi as escadas convicta de que o momento pelo qual esperámos tinha acabado de chegar.
E eu vi-te, do outro lado, a sorrir para mim e a dizer-me que eu estava linda com o olhar, eu fitei-te e sorri para que só tu soubesses que ver a tua cara naquele momento era o realizar de um desejo muito profundo, o nosso desejo cumprido. Abraçámo-nos e beijámo-nos, como nos filmes, sentámo-nos e ouvimos o discurso da nossa amiga que nos embaciou os olhos e apertou o coração. Ela terminou e foi como se um espartilho se abrisse para voltarmos a respirar.
Beijos e abraços, e deixei de te ver, tinhas desaparecido para te voltar a encontrar alguns minutos mais tarde. Nunca mais te larguei (ou pelo menos tentei), dançámos e flutuámos, trocámos olhares e dezlizámos pelo mármore frio do espaço escolhido.
Não poderia ter sido diferente, foi tudo o que quisemos e muito mais. Feliz por sermos assim, feliz por sabermos fazer as nossas escolhas, feliz por saber que temos algo difícil de ter e que é fácil para nós. Lemos juntos o nosso livro, um último beijo e um último deitar.
Somos felizes, a felicidade não é um momento, a felicidade é um mar de dias.
Castanho
Castanho. Não costuma ser uma cor de eleição, pelo menos, não costumo ouvir como sendo uma cor especial. Mas a magia do outono faz desta cor, uma cor real, uma cor extraordinária. Há dias viajei pelo norte do nosso país, vi o Douro. Finalmente, o Douro. Que bonito, que mágico, que grandiosidade feita de terra e folhas. As folhas, que foram verdes, são agora uma trilogia cromática repleta de magia ancestral. O dourado, o castanho e o vermelho. São as cores das uvas, do cheiro a terra orvalhada e cigarras cantantes nas noites amenas e estreladas. O castanho das madeiras, dos frutos secos, do cacau em pó. O castanho avermelhado dos topos das casas e do asfalto longo e paciente. O castanho dos doces e amargos, dos campos e das folhas, das mãos fortes que com os seus machados talham o quadro da viagem que fizemos os dois. Castanho.
Imagem via: Pinterest
Imagem via: Pinterest
quarta-feira, setembro 18, 2013
Uma criança que tarda
O elevador tardava. É sempre assim quando se está à espera.... tudo tarda. Ele sorriu timidamente e disse num português de quem vem de fora "Boa Noite". Continuaram à espera, até que ele lá se decidiu e perguntou-lhe com um simpático sorriso "O elevador costuma parar?". Ela ouviu a pergunta e pensou que ele era o rapaz mais doce que lhe tinha aparecido naquela semana, tão doce como uma criança, uma criança que tarda.
domingo, agosto 25, 2013
Por mais tempo que passe
Voou.
O tempo voou. Parece que foi ontem, que foi há uns meses, há umas horas.O dia de sol quente no norte do país em frente ao lago verde, habitado por simpáticos e vigorosos patos que entre bicadas e guinchos compuseram a mais bela banda sonora da nossa tarde passada naquela cidade que é a cidade mais simpática que conheço. Uma tarde como as outras transformada na nossa melodia desde então.
Por mais tempo que passe, recordarei para sempre o nosso encosto um no outro como duas rochas que com a passagem dos anos se fundem tornando-se numa só. Recordarei os pequenos riachos que dos nossos olhos nasciam e que caiam em forma de pequenas cascatas frescas e salgadas sobres as nossas mãos.
Por mais tempo que passe.
Hoje, e passados tantos meses estamos mais perto que nunca do desfecho de mais um capítulo do nosso livro, o livro que abrimos juntos e que escrevemos a quatro mãos sempre que os nossos desejos se realizam.
E contigo meu amor, os meus desejos realizam-se todos os dias, e todos os dias adormeço com a certeza que a mais bela história de amor foi inventada numa noite escura de Novembro. Quando acordo, apercebo-me que tenho vivido dela desde então, e que não há outra forma de viver.
Por mais tempo que passe.
O tempo voou. Parece que foi ontem, que foi há uns meses, há umas horas.O dia de sol quente no norte do país em frente ao lago verde, habitado por simpáticos e vigorosos patos que entre bicadas e guinchos compuseram a mais bela banda sonora da nossa tarde passada naquela cidade que é a cidade mais simpática que conheço. Uma tarde como as outras transformada na nossa melodia desde então.
Por mais tempo que passe, recordarei para sempre o nosso encosto um no outro como duas rochas que com a passagem dos anos se fundem tornando-se numa só. Recordarei os pequenos riachos que dos nossos olhos nasciam e que caiam em forma de pequenas cascatas frescas e salgadas sobres as nossas mãos.
Por mais tempo que passe.
Hoje, e passados tantos meses estamos mais perto que nunca do desfecho de mais um capítulo do nosso livro, o livro que abrimos juntos e que escrevemos a quatro mãos sempre que os nossos desejos se realizam.
E contigo meu amor, os meus desejos realizam-se todos os dias, e todos os dias adormeço com a certeza que a mais bela história de amor foi inventada numa noite escura de Novembro. Quando acordo, apercebo-me que tenho vivido dela desde então, e que não há outra forma de viver.
Por mais tempo que passe.
domingo, agosto 18, 2013
Há uns anos
Às vezes lembro-me das tardes que passava em salas de cinema. Chegava a ver o mesmo filme duas e três vezes no escurinho das salas que ficavam mais próximas da faculdade onde me ia entretanto entre as cadeiras de Análise filmica e História de Arte. Agora que olho para trás, com aquele olhar que a idade adulta nos transforma e devolve numa doce carícia na alma, e não me apetece voltar. Fui feliz, imensamente feliz, aprendia tudo, absorvia tudo, tinha tempo para ver e rever, ler e reler, passar a limpo e estudar com antecedência, era tudo fácil e não era mais do que aquilo.
quinta-feira, agosto 08, 2013
A ponte
O tempo passa.
O nível da água sobe e desce numa constante luta silenciosa. A paisagem permanece muda e presencia todos os movimentos ascendentes e descendentes, calada e profunda.
A ponte constrói-se. A quatro mãos, a dois corações. Ao mesmo tempo e em tempos quebrados pela distância. A ponte constrói-se fruto de uma vontade mútua, de uma vontade que não se amedronta, que é despida de interesses e livre de motivos inferiores.
A ponte só resiste ao tempo se construída (para uma dia) ser caminhada lado a lado na linha final da vida, quando o reflexo dos nossos rostos nessa mesma água revelar o valor daquilo que fomos um dia…juntos.
[Imagem via: http://eukendei.deviantart.com/art/The-Bridge-study-2-359979814]
[Imagem via: http://eukendei.deviantart.com/art/The-Bridge-study-2-359979814]
sexta-feira, junho 07, 2013
Há uma pessoa
Há uma
pessoa lê as linhas dos livros que não escrevo. Que ilumina os dias mais
sombrios. Esta pessoa deita-se numa cama mal feita, ou até mesmo por fazer,
porque há alguém (não vou dizer quem) que não tem gosto em tratar disso. Há uma
pessoa que ouve as palavras mudas e as devolve em desejos realizados. Uma
pessoa que passa os dedos por entre os meus fios finos de cabelo e diz que eles
cheiram bem, duas, três vezes por hora. Uma pessoa que respira o meu ar, que
bebe a minha água e que partilha o meu guardanapo. A pessoa que me ilumina, me
resguarda, me engrandece e me segue sempre até ao encontro enamorado. Essa
pessoa és tu. Sim, tu.
quinta-feira, junho 06, 2013
As suas penas mexiam ao sabor do
vento febril da manhã de Junho. Olhei-o de cima, como os olhos de Deus penetram
no mundo. Senti-me tudo. Tudo, menos Deus. Aquela criatura fria e dura teve um
fim triste e o mais certo é acabar no fundo de um contentor do lixo. Está só, e
deu o último sopro entre buzinas e carros, transeuntes de passagem apressados e
sem tempo para compaixões de início de dia. Por segundos, vi-me naquele chão
sujo e cinzento, por minutos imaginei-me morta e fria a ser espezinhada pelos
demais, por uns segundos apenas porque tive de seguir em frente com os olhos
postos no futuro.
Imagem retirada daqui: http://browndresswithwhitedots.tumblr.com/page/9
Todos nós
Às
vezes é-se bom, outras vezes é-se mau. Tem dias em que o interesse é maior e a
fraqueza acompanha-a. Outros em que sorrimos mais, e outros em que choramos
mais. Dou por mim a subir muitas vezes a Avenida e a olhar para as expressões
das caras de quem passa por mim. Já vos deve ter acontecido certamente. Olhar
para elas, e parar para ver que as suas caras estão tristes, que as linhas que
figuram os lábios estão em sentido descendente, o mesmo sentido da linha do
olhar. Dou por mim a olhar e a ver dor, e a dor transforma-se em aperto no
coração e o coração vacila em bater. Dou por mim a pensar também que ninguém é
totalmente bom e ninguém totalmente mau. Não tenho pena delas, eu sou como
elas, não tenho pena, apenas paro para pensar nisso, porque nada posso fazer
por elas. Todos nós temos um pouco de Dr Jekyll e Mr Hyde em nós. Todos nós
somos capazes de trucidar corpos de inocentes num dia, e ter bondade no coração
capaz de transformar o mundo no outro. Todos nós.
sexta-feira, maio 31, 2013
A arrogância dos sábios
A arrogância dos
sábios cansa-me. Ser dono da razão é das coisas mais chatas e aborrecidas do
mundo. Saber tudo e nem sequer querer ouvir o outro ponto de vista, mesmo que
errado, mesmo que louco. Porque é que dois mais dois terão de ser sempre e
invariavelmente quatro? Porque é que não posso pegar nos primeiro dois e
transformá-lo em andorinhas, e nos outros dois e transformá-los em gomas e
dizer que afinal dois mais dois são três, porque entretanto uma das andorinhas
decidiu voar para longe dos sábios.
Na minha perspectiva,
se continuarmos a acreditar nos sábios, e nos factos perdemos uma capacidade
maravilhosa: a de tirar os pés da terra para poder sonhar. Sonhar é a nossa
janela para o mundo em que queremos viver para o resto da nossa vida. É que nos
sonhos podemos ser
quem quisermos, sermos dotados de força ou medo irracional.
E depois aparece o
sábio e diz-me que dois mais dois são quatro e eu perco as forças. O
sábio que em vez de particularizar e se espantar com o novo, generaliza o seu
próprio conhecimento e transforma-o em banalidades repletas de verbosidades
impenetráveis.
quinta-feira, maio 30, 2013
Voltar a escrever com força.
Voltar a escrever com força.
A mesma força dos
sentimentos que os sonhos me impõem. Escrever sobre estórias de filmes e de
vidas reais, escrever sobre acordares e adormeceres ao peito de alguém, na
almofada de alguém, no colo de alguém.
Voltar a escrever com amor, porque tudo o que vai
sobrar de nós é isso mesmo, amor. E é amor que quero deixar ao partir deste
mundo.
Voltar a escrever ao sabor da pena, sem dó nem
piedade, e às vezes sem razão. Aprisionar as imagens em palavras e devolvê-las
em vislumbres de seda.
Voltar a escrever com força.
Imagem retirada de: http://www.behance.net/gallery/a-due-Colori/3367841
domingo, abril 21, 2013
Aquele abraço apertado
Aos Domingos recebo sempre uma visita especial. Chegado o final da manhã, ela chega com o seu andar repenicado, a sua saia travada e o seu colar que varia da pérola ao plástico. Traz sempre um tacho cheio de sopa e umas laranjinhas. Às vezes também tem um plasticozinho com uma carne assada e gosta de me deixar uma notinha na gaveta do aparador. Deixa-as lá e nem me diz nada. No dia seguinte ao telefone costuma dizer-me "É para os teus cafezinhos.". Esta é a minha mãe.
Depois conversa muito, conta como foi a sua semana, fala-nos da sua nova patroa, do meu pai, que tem saudades da mana e que começou a fazer um vestido novo.
Eu fico sentada no braço do sofá, com as pernas empoleiradas e ele mete-se ao meu lado, como que a aparar uma queda que ao acontecer é tudo menos grande, e vem o abraço, o abraço apertado. Sinto-lhe o peito, o mesmo que me alimentou durante quatro anos e meio. O peito que tantas vezes me confortou, o peito da minha mãe.
Depois conversa muito, conta como foi a sua semana, fala-nos da sua nova patroa, do meu pai, que tem saudades da mana e que começou a fazer um vestido novo.
Eu fico sentada no braço do sofá, com as pernas empoleiradas e ele mete-se ao meu lado, como que a aparar uma queda que ao acontecer é tudo menos grande, e vem o abraço, o abraço apertado. Sinto-lhe o peito, o mesmo que me alimentou durante quatro anos e meio. O peito que tantas vezes me confortou, o peito da minha mãe.
Vergonha
Estendem a mão e pedem. Pedem com a mão, com os olhos e com a boca. A boca que pede comida, as mãos que pedem boa vontade e os olhos que pedem.... com vergonha.
E eu fico com vergonha, vergonha de não poder ajudar todos os que me pedem ajuda e vergonha de não saber sequer o que é pedir na rua. Pedir é um acto de vergonha. E vergonha é uma morte sem morrer.
Na zona onde vivo, pedem-me muitas vezes. Já me bateram à porta a pedir comida "o que tiver, que não como desde ontem. O que puder...", e eu dei, com vergonha. Quando passeio e mais não tenho que dar tento oferecer o meu melhor sorriso, mas é um sorriso repleto de vergonha, porque eu tenho para onde voltar e o meu frigorífico está cheio e a minha barriga não tem do que queixar.
Por aqui, vejo pessoas mais velhas, que pela primeira vez na vida pedem "o que tiver, o que puder", têm vergonha, vão pelo passeio, olham-nos timidamente a ver se conseguem perceber se as vamos recriminar ou simplesmente ignorar. Dois caminhos fáceis para esconder a nossa vergonha. Vergonha essa que eles sentem ao estenderem a mão e projectarem timidamente a voz e que eu percebo com o coração partido ao meio.
Que vergonha que eu sinto. Que vergonha.
Imagem retirada daqui: http://www.etsy.com/listing/77165399/old-hands-8x8-custom-print
E eu fico com vergonha, vergonha de não poder ajudar todos os que me pedem ajuda e vergonha de não saber sequer o que é pedir na rua. Pedir é um acto de vergonha. E vergonha é uma morte sem morrer.
Na zona onde vivo, pedem-me muitas vezes. Já me bateram à porta a pedir comida "o que tiver, que não como desde ontem. O que puder...", e eu dei, com vergonha. Quando passeio e mais não tenho que dar tento oferecer o meu melhor sorriso, mas é um sorriso repleto de vergonha, porque eu tenho para onde voltar e o meu frigorífico está cheio e a minha barriga não tem do que queixar.
Por aqui, vejo pessoas mais velhas, que pela primeira vez na vida pedem "o que tiver, o que puder", têm vergonha, vão pelo passeio, olham-nos timidamente a ver se conseguem perceber se as vamos recriminar ou simplesmente ignorar. Dois caminhos fáceis para esconder a nossa vergonha. Vergonha essa que eles sentem ao estenderem a mão e projectarem timidamente a voz e que eu percebo com o coração partido ao meio.
Que vergonha que eu sinto. Que vergonha.
Imagem retirada daqui: http://www.etsy.com/listing/77165399/old-hands-8x8-custom-print
quarta-feira, abril 10, 2013
I.
Anda depressa sem saber para onde ir.
As primeiras flores a florir,
Colhidas as palavras no regaço,
Devolvida a chuva e o vento,
pois deles já não queres saber.
Pés ávidos de sabor a terra e sorriso nos lábios.
A doce e intoxicante melodia dos nossos sonhos.
Cabelos em canudos desfeitos.
Bainha da saia desfeita.
Vontade de ser gota de água infiltrada no profundo do teu ser.
Noite caída, brisa fresca.
Um voltar erguido e vibrante.
Seda rasgada, copo entornado, trovão mudo.
Assim somos.
Foto retirada daqui
As primeiras flores a florir,
Colhidas as palavras no regaço,
Devolvida a chuva e o vento,
pois deles já não queres saber.
Pés ávidos de sabor a terra e sorriso nos lábios.
A doce e intoxicante melodia dos nossos sonhos.
Cabelos em canudos desfeitos.
Bainha da saia desfeita.
Vontade de ser gota de água infiltrada no profundo do teu ser.
Noite caída, brisa fresca.
Um voltar erguido e vibrante.
Seda rasgada, copo entornado, trovão mudo.
Assim somos.
Foto retirada daqui
segunda-feira, abril 08, 2013
Dissecar um bolo de arroz
Desde pequenina que gosto de bolo de arroz.
O bolo de arroz, é aquele bolo, que não leva arroz, mas que se chama bolo de arroz. E é um bolo perfeito. Doce e dourado, com "rótulo" branco e letras a azul. À antiga.
Era eu uma menina pequenina e lambia-me só de pensar no bolinho de arroz que comia com perícia no café do Pinheirinho mesmo ao lado da minha casa.
Dissecar um bolo de arroz tinha muito que se lhe diga. Ou leiam só:
Primeiro retirava a película da base, com cuidado para não perder nem uma migalhinha do bolo. Quando esta tarefa era terminada com sucesso, passava à segunda etapa, etapa essa que me poderia vir a proporcionar de seguida o momento mais aguardado: a prova. O invólucro que envolve o bolo era também ele retirado com calma e carinho, devagar, devagarinho.
Momento de sedução. A menina a olhar para o bolo desnudado à espera da sua primeira dentada. Mas não pensem vocês que o bolo de arroz (que não leva arroz) se come assim, do pé para a mão. Não, não e não. Agora é o momento em que se parte o bolo de arroz em dois: "capacete" dourado e açucarado para um lado e "corpo vegetante" do bolo para o outro.
E está feita a operação. Primeiro come-se o corpo, depois a cabeça. Não costuma ser assim entre os adultos também? Segundas interpretações ao vento, é assim que se prova um bolo de arroz. E eu ando mortinha para meter a minha boca ao barulho com um, e de preferência com o meu velho à minha frente para eu te explicar como se faz ao vivo a cores.
quinta-feira, abril 04, 2013
quarta-feira, abril 03, 2013
Sem arrependimentos
Às vezes fecho os olhos e não durmo.
O exercício é feito para contemplar momentos que por um motivo ou outro me escapou por entre as horas dos dias. Todas as vezes que me deixo ir, apercebo-me de algo reconfortante, algo que me permite sorrir por dentro, abro os olhos e digo: não me arrependo de nada do que fiz na minha vida.
Tambem é verdade que ainda não vivi muitos anos, pelo menos é o que ouço quando me perguntam a idade, e eu lá respondo que estou na casa dos vinte, naquela número muitos antes do trinta.
Mas é verdade, não me arrependo de nada do que fiz na minha vida. Todas as opções que tomei, certas ou erradas levaram-me ai sítio onde estou agora, e eu adora o "agora". Há problemas, claro que sim, eles existem e sempre irão existir. Mas não passam disso, problemas com soluções, sejam elas mais fáceis ou mais difíceis. Não me arrependo das pessoas que até hoje passaram pela minha vida, das pessoas que se afastaram de mim ou daquelas das quais me afastei. Não me arrependo de ter trocado Londres por Lisboa, por ter desistido desta ou de outra oportunidade profissional, e muito menos das que tive e que deixei de ter quando assim o decidi.
Depois há os "pequenos nadas", aquelas pequenas decisões, pequeninas, pequeníssimas, não me arrependo de nenhuma. Nem das três fatias de bolo comi no Domingo passado. Inventar para quê?
O exercício é feito para contemplar momentos que por um motivo ou outro me escapou por entre as horas dos dias. Todas as vezes que me deixo ir, apercebo-me de algo reconfortante, algo que me permite sorrir por dentro, abro os olhos e digo: não me arrependo de nada do que fiz na minha vida.
Tambem é verdade que ainda não vivi muitos anos, pelo menos é o que ouço quando me perguntam a idade, e eu lá respondo que estou na casa dos vinte, naquela número muitos antes do trinta.
Mas é verdade, não me arrependo de nada do que fiz na minha vida. Todas as opções que tomei, certas ou erradas levaram-me ai sítio onde estou agora, e eu adora o "agora". Há problemas, claro que sim, eles existem e sempre irão existir. Mas não passam disso, problemas com soluções, sejam elas mais fáceis ou mais difíceis. Não me arrependo das pessoas que até hoje passaram pela minha vida, das pessoas que se afastaram de mim ou daquelas das quais me afastei. Não me arrependo de ter trocado Londres por Lisboa, por ter desistido desta ou de outra oportunidade profissional, e muito menos das que tive e que deixei de ter quando assim o decidi.
Depois há os "pequenos nadas", aquelas pequenas decisões, pequeninas, pequeníssimas, não me arrependo de nenhuma. Nem das três fatias de bolo comi no Domingo passado. Inventar para quê?
segunda-feira, março 25, 2013
Só peço sol
Só peço sol. Não peço mais nada.
Juro a pés juntos, que tudo o que queria era acordar amanhã e dar de trombas com um sol esmagador e vibrante capaz de me dar todas as energias (e receio que mais algumas) para enfrentar o dia com outra alegria.
É que isto pode desembocar num caso sério.
Ora vejamos: a pessoa acorda, até que bem disposta porque não tem o hábito de descontar nas pessoas logo pela manhã, porém alguns são os perigos com os quais nos podemos cruzar nas primeiras horas seguintes ao acordar, neste dias que não são nem carne nem peixe.
Perigo #1 a pessoa está descalça, porque é orgulhosa e recusa-se a dormir de meia, e mete o pezinho no chão. Dá o arrepio frio na espinha (e não me refiro a sem vergonhices) e está o caldo entornado.
Perigo #2 a pessoa toma o seu banho. Tudo bem. Água quentinha, pressão q.b, há champoo e há gel de duche, o desodorizante é coisa que brota no armário da casa de banho como se de cogumelos se tratasse, também há cotonete, creme hidratante, e remédio para as unhas. Tudo bem. Por aqui estou safa.
Perigo #3 ui que frio! Resolução: ligar o aquecedor do cabelo e enquanto não trato da juba, toca a aquecer os pezinhos com o bafo quente que este instrumento emite. Não só resolve a situação como dá um certo reboliço no coração, porém cuidado: pode queimar o pé e a perna (ou qualquer outra parte do corpo que se lembrem de aquecer).
Perigo #4 a pessoa tem que se vestir, e ao contemplar o seu vasto guarda roupa não só constata que tem muito mais roupa do que aquela que alguma vez usará, constata que não gosta de nada do que se apresenta à sua frente. E a culpa não é da roupa, é do frio que insiste em ficar e nós não podemos mais levar com o casaco de fazenda, a galocha, o cachecol e a camisola de lã de gola alta que pica que se farta e que nos faz parecer uma baleia anã com ares de coiso e tal. Que m*****!
Perigo #4 a pessoa não sai de casa sem a barriguinha cheia. O café aquece, a torrada... está a torrar, pois claro, e há que passar o corrector de olheiras. Hmmm mas que cheiro é este, ai as minhas ricas torradinhas, lá se vai a magia poética de uma torrada feita em pão de Rio Maior cravejada com duas generosas colheres de sopa de manteiga. Fico-me pela torrada queimada e o cenário deprimente que vejo da janela do meu quinto andar.
Basicamente é isto.
Tenham cuidado com os perigos da manhã, que com este tempo ridículo se podem consubstanciar num verdadeiro crime digno de letras gordas na capa do Correio da Manhã, tendo como criminoso esta bela pessoa que vos escreve.
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