sábado, julho 14, 2012

Já passaram muitas horas

Já passaram muitas horas. Muitas, desde que nos conhecemos. Um encontro numa noite fria de Novembro. Um passeio ao luar no qual trocámos impressões sobre Polanski, sobre influências e imagine-se... anginas. A despedida foi feita debaixo de chuva após um ameaço de assassinato.
Passaram-se algumas horas e voltámos a encontrar-nos. Desta vez almoçámos juntos num Museu de Cinema e à mesa com Tim Burton. Não me lembro o que comemos, mas recordo-me do à vontade, da cumplicidade e da promessa de nos voltarmos a ver. Passaram-se algumas horas e um terceiro encontro. Um novo jantar numa mesa "zen", um beijo novamente à chuva, mas desta vez com um tecto de carro para nos proteger e a benção de Emily Dickinson.
Já passaram muitas horas e continuamos a crescer. A casa está montada, os gatos criados, seguir-se-ão as viagens, os descendentes e todos os restantes dias das nossas vidas. Parece que foi ontem, parece que foi há uma eternidade, temos a certeza de tudo mas é-nos difícil defnir criteriosamente o que os dias e os meses passados significam na linha cronológica das nossas vidas. Não importa quantos dias vivemos, importa sim o que fazemos deles não é? Se assim for estou orgulhosa de todos que que passei a teu lado e preparada para os que estão para vir ao som das estações dos anos cada vez mais imprevisíveis, loucas, insensatas e cruéis para a terra.
As cores estão misturadas na tela, de azul a roxo, misturei branco com vermelho e agora tenho um cor de rosa despretensioso e carregado de força. Carregada também está a nódoa no pano que uso para proteger as pernas enquanto pinto mais uma tela, nada a fazer, está condenado o pobre coitado. Agora é um pano tingindo, desbotado, um pano dotado de uma arte imaginada por uma cabeça louca parideira de ideias destituídas de qualquer semelhança com a realidade. As ideias são apenas sonhos em carne viva, mas apenas porque precisam sangue para serem algo mais, mais carne e menos ferida, mais cicatriz que agora é carne lisa e fértil para novas sementes.
Falta-nos a noite mágica de Setembro, o brinde, o branco, o lacre. Falta-nos o cadeado preso à grande que vai conhecer todo o nosso amor e todas as horas que já vivemos juntos, falta-nos as orelhas da Minnie e a doce Angelina. Falta-nos todos os dias depois disso. Falta-nos o dia em que o vamos trazer para a nossa casa, o dia em que ele vai conhecer as nossas papoilas, brincar com os gatinhos e comer as papas feitas pelas avós. Passaram-se algumas horas e mal posso esperar pelas que estão para vir. Vá relógio, ordeno-te que te apresses.

sexta-feira, maio 11, 2012

Enquanto assim estiver



Silêncio na casa. Final de tarde, de calor e sombra. Os únicos sons que distingo são os dos pássaros a voar lá fora e o das ambulâncias. Som esse que entra na casa pela fresta da janela. Dentro de casa, um único som. O do silêncio confrontado com o bater dos meus dedos no teclado do computador.
Paz. Será esta a sensação? A garrafa de água está apenas meio bebida, da laranja que lanchei apenas resta a casca depositada finamente no pires deixado em cima da mesa.
O final de tarde é ainda marcado não só pelos sons quem vêm lá de fora como de um pequeno fio de vento que teima em entrar e beijar-me o braço direito. Chamemos-lhe brisa. Chamemos-lhe paz.
Gostava de perceber o que é. O tempo passa e cada vez compreendo menos algumas situações com as quais sou confrontada. "É a vida". Felizmente tenho o resto para me alegrar e me fazer sentir que essa vida merece ser honrada. Tenho um peito cheio de amor capaz de chorar de felicidade. Para já, não preciso de mais nada. Enquanto assim estiver. Não preciso de mais nada.

sexta-feira, maio 04, 2012

Se algum dia voltar a sonhar


Com que então querias desaparecer da minha vida. Patife. Com que direito? Aliás, quem te deu esse direito? Repudio Deus e todas as entidades divinas que tenham esse poder, repudio e juro nunca voltar atrás com a minha decisão.
Não percebes que és parte de mim? Que crescemos juntos. Crescemos, mas eu continuo jovem e tu estás velho, porque quiseram que um ano para ti valesse mais que um ano para mim. Os teus olhos já não me vêem, mas continuo a ser eu. A tua amiga. Os teus ouvidos já não compreendem o que a minha boca diz e o som que dela sai. Antes esse som era para ti, era teu. Agora é do ar e desaparece no vento.
Já não queres a minha companhia, quando eras tu que a querias sempre. A companhia. Pura e simples.
Chegaste numa mala de tiracolo. O teu trono era feito de verga no meio da bonecada. Embirravas com motas e bicicletas e não toleravas António Variações. Gostos. Mas adoravas ir comigo à escola, brincar e correr pelos canaviais. E se se metessem comigo, haviam de se ver contigo. O meu amigo e o meu defensor. Contigo tinha as costas quentes. Amante de costeletas e noitadas, desaparecias durante dias e voltavas cansado e esfomeado ao nosso lar. Sempre foste muito independente, demais para um ser como tu.
Agora queres ir-te embora. Deixar-me seguir com a minha vida. E se eu te disser que não quero seguir com a minha vida em frente? E se eu te disser que tens de ficar para sempre. Ficas?
Sou egoísta, faço da Razão uma piada e acho que ela não merece que lhe passe cartão. Para mim és o ser mais belo do mundo, a luz dos meus olhos, és a minha infância e todos os meus sonhos de menina. Tenho de te deixar partir, um dia. Abandonar esta minha crença e habituar-me à ideia do nascimento do dia em que já não faças parte deste mundo. Se algum dia voltar a sonhar estarás sempre nesse meu sonho e viverás sempre nesse mundo, até ao dia em que eu puder ir ter contigo para brincarmos outra vez. 


quarta-feira, abril 25, 2012

A dona Olímpia


Vejo-a sempre por estas bandas. É normal, já que moramos no mesmo prédio. A única diferença é que ela vive aqui há 50 anos, e eu apenas há um. Afinidades? Temos algumas. Gostamos desta zona, de animais e de colares grandes por cima de golas altas. Ela tem nome de cidade grega e eu de árabe, o que nos afasta.
Às vezes estou a entrar ou a sair do prédio, e lá vai ela com o seu cãozinho que leva a passear pelo menos três vezes ao dia. “Faz-lhe bem a ele e faz-me bem a mim”, imagino eu que ela o deva dizer.
A dona Olímpia diz outras coisas, que vai ao supermercado todos os dias, porque há sempre alguma coisa que faz falta em casa, e que antigamente o Café Vavá era uma maravilha. Depois olha para o chão e envergonha-se antes de dizer que “agora é uma mero café de rua”. Como a percebo, penso eu, de mim para mim.
A dona Olímpia anda sempre na rua, lá vai ela, alta e magra, com os seus cabelos brancos e encaracolados bem arranjados e penteados em canudos curtos. O seu cãozinho de trela vai farejando um poiso, uma erva saborosa ou um banco de jardim, de peito cheio por ter uma dona assim.
Ela veste calças com pinças e tem sempre um sorriso na cara. Uma vez contou-nos ao tentar meter-se a si e ao seu cão no elevador que o foi buscar a um daqueles sítios repletos de animais a precisar de um lar. Eu, que tenho dois meninos em casa que vêm de um sítio assim sei bem o que ela quer dizer, e sinto que se tivesse mais 60 anos podíamos ser grandes amigas.
Ainda ontem a vi com a sua camisola verde-bandeira e o seu cão - que eu acho sempre que deveria ser uma cadela e que o seu nome devia ser Milú - a passear Avenida dos Estados Unidos abaixo.
Pensei cá para comigo. Fascinante esta Dona Olímpia!

sábado, março 31, 2012

E a areia da praia?

Andava eu feliz e contente por voltar a ver o sol a brilhar mais forte que nunca, e logo no fim de semana havia o tempo de mudar radicalmente e brindar-me com uns belos dias de Outono. É coisa que não se entende não senhor. E logo eu, uma miúda com tantas coisas para fazer ao sol, e tão poucas para fazer à sombra.
Quer dizer, agora que penso nisso, lembro-me de uma e outra coisa que podia fazer à sombra, mas também quem faz à sombra, faz ao luar e daqui a nada escurece!
Falava eu no sol e no fim de semana. Não estão contentes por começarem a perceber que vem aí o Verão? E não estão preocupados por pensar que tudo o que não choveu até agora, há-de chover nos meses de Junho, Julho e Agosto?
A boa notícia, é que com ou sem essa preocupação na cabeça, o Verão terá sempre esse poder incontrolável de nos aquecer a alma. De nos fazer querer fruta fresca, beber bebidas frescas, dormir desnudados, e até tirar algumas peças de roupa quando já estamos deitados.
O Verão faz com que dancemos mais, e faz ainda com que a nossa pele fique mais luminosa, mais viva. Voltamos a pôr o anelinho no dedo do pé, porque o pé agora vê por onde andamos, mesmo quando andamos às voltas dos mesmos lugares.
E a areia da praia? Não sentem saudades de sentir a areia entre os vossos dedos, aquela rudeza natural com cheiro a sal, a mar e histórias de pescadores naufragados.
Eu sinto falta do Verão. Muita mesmo.

quarta-feira, março 14, 2012

La Mer

Há imensos motivos pelos quais nos enamoramos por alguns filmes. Tantos quantos os nossos devaneios, as nossas memórias de infância, de adolescência, e mais estranho, memórias de momentos que nunca vivemos em períodos históricos dos quais apenas sabemos aquilo que lemos nos livros ou vimos por alguns instantes em fotografias de arquivo.
Não sei explicar porque adoro tanto o filme Thinker Tailor Soldier Spy. Poderia ser pelas magníficas interpretações de actores como Tom Hardy, Mark Strong, Colin Firth e claro Gary Oldman. Poderia ser pelo modo como a história se desenvolve, ou o tema da espionagem, "o passeio" por Londres, a guerra-fria. Poderia ser tudo isso, mas não é.
Acho que o que me faz gostar tanto deste filme é o facto da verdadeira história se consubstanciar naquela camada emocional que fica à flor da pele e a qual nos permite ver um mundo inteiro de sentimentos.
Espero que esta ideia fique bem espelhada neste vídeo do final do filme em que o tom meio alegre e meio triste o Júlio Iglésias acompanha o destino final de todas as personagens. E palavras, não há?
Não é preciso, fica La Mer.

domingo, março 04, 2012

Maternidade

Então não é que já tenho cortinados no meu quarto!? Orgulho em mim e na minha mãe que nunca esmoreceu aquando dos meus olhares incrédulos e das minhas palavras pronunciadas menos perfeitamente, já que a minha boca abrigava umas quantas bolachas Maria para acalmar o meu estômago cego de fome.

“Um pouco para a direiiiiiita, mais acima, olha que isso vai caiiiiiir, vê lá se a bucha não é grand’ demais, olha que me partes a caixa do estore!”. E ela responde:” Benze-te filha que a mãe só descansa quando a calha estiver presa à parede”. E assim foi uma tarde de Domingo bem passada na companhia da mamã.

Do Pinheirinho, trouxe uma panelona de sopa acabadinha de fazer, um ferro de engomar, 2 cortinados, agulhas e dedais, uma calha de dois metros e meio e muita vontade de contribuir para um lar mais harmonioso.

O que se pensava rápido, tornou-se num parto difícil e demorado, mas a concepção levou tanto amor que o resultado não podia ter ficado mais perfeito. Agora vou começar a dormir num quarto com cortinados lisos, brancos, translúcidos, ah digna de uma princesa!

A gatinha aqui do lar harmonioso, fez das suas e achou que o saco das cortinas daria uma cama perfeita e logo agora que pus a mantinha dela a lavar e só lá para Terça-feira é que deve estar “boa para consumo”.

Da tarde, fica-me o ar de satisfeito da mãe, da sua dedicação e das duzentas histórias que me contou da Avenida de Roma até à João XXI, em que a única coisa que a calou foi um pão de Deus digno dos deuses.

Domingos assim são especiais e eu já tinha saudades de passar um serão com a mamã. Mas faltava-me algo. Fazes-me mesmo muita falta.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Quando não estás

As horas demoram a passar como se de décadas atravessassem as ruas. As pontas dos dedos esfriam, e os meus cabelos encaracolam na sombra da tua ausência. Saber que virás em breve, tolda-me os sentidos e ajuda-me na ilusão dos meus próprios olhos. Fecho-os, vejo-te. Fecho-os de novo, e estás deitado a meu lado. O teu corpo virado para a esquerda, a tua cabeça apoiada na almofada das flores cor de rosa, os teus braços a cercar-me o tronco, envaidecido, sonolento.

Mas os olhos pedem para que os abra, e eu respeito-os. Perco o que ganhei, enfrento a noite fria e pontapeio poetas antigos. Tenho vontade de dormir a teu lado, e sei que apenas descansarei quando me acoradres de madrugada com um beijo e me disseres as saudades que sentiste minhas. Uma a uma. Da maior à mais pequena, a tempo de eu te poder retribuir cada palavra em mais beijos.

Até lá, espero por ti.

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Ai Valentim, Valentim

Nos dias que correm leio muitos ataques ao pobre coitado do São Valentim que há uns séculos atrás andava descansadinho da sua vida, sem saber que iria causar tantos dissabores a tantas pessoas, quer dizer ele deve ter sido martirizado na Roma antiga, por isso para muito boa gente ele 'teve o que mereceu'!
Mas, como ia a escrever, são muitos ataques feitos aos inúmeros elogios a este dia de S. Valentim, elogios esses que se reflectem em filmes bonitos como este, postais, e algemas com penas cor-de-rosa.
Eu sou das que acredita que este dia deve ser celebrado com toda a pompa e circunstância, nada tem a ver com amar e fazer surpresas às pessoas que amamos nos restantes 364 dias do ano, porque somos livres de o fazer e devemos amá-las ao ponto de o mostrar sem 'obrigações' nesses mesmos 364 dias.
Por isso mesmo, não compreendo o ataque feito a um único dia em que trocamos juras de amor, caixas de chocolates, balões vermelhos, de forma mais explícita ou 'comercial' (palavra detestável nos dias que correm).
Eu gosto de acreditar que seja uma vez, ou 364 dias por ano, o melhor da vida deve ser celebrado, os sortudos festejam o ano todo, os menos sortudos um dia por ano, e os outros: tentam afundar o pobre do Valentim e ridicularizam os jantares românticos nos italianos da cidade!

terça-feira, fevereiro 07, 2012

O Artista

É tão raro ir ao cinema com grandes expectativas e sair de lá com o peito cheio de contentamento, que demorei alguns dias a conseguir escrever algumas palavras sobre obra de Michel Hazanavicius.

No escuro de uma sala cheia, tive a oportunidade de entrar numa outra dimensão: a dimensão do sonho americano, onde a realidade e a ficção se esbatem numa cortina de renda.

O Cinema mudo reinou em Hollywood, que na altura ainda era Hollywoodland, durante aproximadamente três décadas, tendo o seu apogeu na década de 20 e entrando não em declínio mas sofrendo uma morte súbita no início da década de 30 fruto do crash de 29 e de uma necessidade maior que a força humana: a necessidade de evasão.

«O Artista» é sobre este pequeno e pobre resumo de uma parte da História do Cinema, e sobre a queda de um homem que se viu perdido no meio deste turbilhão de acontecimentos, em que os jovens desconhecidos saltaram um degrau tão alto, que lhes permitiu ultrapassar os outros mais experientes.

George Valentim (Jean Dujardin) é um galã do cinema mudo, que protagonizou dezenas de filmes e que, sem querer, conhece Peggy (Berénice Bejo) uma jovem actriz. Valentim inadvertidamente faz dela uma estrela e Peggy brilha no cinema sonoro,tornando-se o símbolo da nova era, a era que George Valentim repudia por orgulho.

A premissa é simples, mas o desenvolver desta obra de arte é extraordinária: costuma ser assim quando o conceito é explorado com amor e dedicação. Mais do que uma história de amor entre duas pessoas, «O Artista» é uma hitória de amor pelo Cinema.

O realizador usa finamente os artifícios que lhe permitem uma narrativa fluida e quase intuitiva.Mais do que saber o que vai acontecer, o que nos prende é como acontece, e como somos transportados para uma época sobre a qual apenas sabemos através dos filmes que já vimos, ou dos quais já ouvimos falar.

São vários os esquemas usados que demonstram o profundo conhecimento pelos filmes desta era, tanto no uso dos planos aproximados enquadrados em objectos como pano de fundo, como os planos partilhados quer seja por casais, quer seja pelo par majestoso da obra -George e o seu cão fiel e amigo - ou até mesmo as cenas em que as personagens se revêem em espelhos.

Morre assim o cinema mudo e nasce a era sonora e a época das screwball comedies. Em vez de usar o olhar, era altura de usar a voz, e muitos foram os actores que viram a sua carreira morrer porque tinham uma voz desafinada ou estridente, desadequada à imagem cuidadosamente criada pelos estúdios e dissonante face à imaginada pelos próprios espectadores.

Tal como Billy Wilder fez em «O crepúsculos dos deuses», Michel Hazanavicius debruça-se sobre a relutância de um actor conceituado em adaptar-se a uma indústria diferente daquela em que perdeu o seu grau de intocabilidade. Todos sabemos que o Homem sempre recusou a mudança, mas não costuma ser um homem qualquer a fazê-lo, normalmente são os mais experientes aqueles que menos preparados estão para as novas eras.

A introdução do som na obra também a torna ainda mais característica, já que a mesma é feita de duas formas, uma onírica, em que «se prepara» o protagonista para o que está para vir, e uma manifestamente real aquando da aprovação da era em questão por parte do público (e não só), revelando-se como uma das cenas mais mágicas a que assisti nos últimos tempos. Essa cena vem mostrar, que um bom filme não precisa de um bom twist para ser apoteótico, basta ser verdadeiro para que nos deixemos render.

Jean Dujardin faz um trabalho notório e digno, e qualquer prémio é mais que merecido, conseguindo uma interpretação única já que apenas o podemos avaliar pela sua expressão e pelo seu encanto natural. Um trabalho esplêndido que já o consagrou e que nos mostra que ser actor, nada tem a ver com palavras, mas sim com o que fica entre elas.

Berenice Bejo também é fantástica no papel de heroína incansável, dotada de uma energia contagiante e uma aura de musa, que nos apaixona principalmente na cena em que se deixa abraçar por um casaco solitário.

É uma verdadeira lição assistir ao «O Artista», a lição de que o Cinema é e sempre foi um mundo paralelo, poderoso pelo fascínio que exerce, e desarmante por nos deixar entrar no mundo do sonho que nos envolve e apaixona, encanta e liberta.

sexta-feira, janeiro 27, 2012

À procura de ideias

Quando as ideias fogem, não há nada fazer, a nao ser esperar. Normalmente as fujonas das ideias revoltam-se e somem do mapa, evaporam-se e nós achamos que estamos a ser tramados!

Quando tal acontece - bem sei que é irritante - não há nada fazer, a não ser esperar. Normalmente as ideias revoltam-se e desaparecem, chamem-nas de sentimentais, e assim podem contar com cerca de uma semana, até voltarem a avistá-las.

Normalmente quando temos de ter uma ideia, e há muitos momentos na vida assim, pensamos de tal forma que tudo nos parece amorfo e sem conteúdo. Por isso mais vale, deixar ir. Pura e simplesmente, deixar de pensar, que as ideias regressam num momento de pleno vazio, refeitas e com os seus caprichos devidamente saciados.

Eu ou faço isso, ou seja, nao penso em nada ou penso em tudo. Mas faça o que fizer, costumo fazer acompanhar-me de comida, ou entao de um plano majestoso para uma refeiçao!

Escolho a esplanada, o melhor ângulo na mesa, peço leite com café, ou seja, uma galão quente e bem claro, e lambo torradas quando o coração não me pede o aconchego de um pão-de-Deus ou de uma boa fatia de bolo de chocolate.

Tem dias em que a inspiração vem, e com ela as ideias fazem-me debitar palavras nas folhas, tem outros em que risco e rabisco, mais do que escrevo, e nesses dias costumo sentir-me como uma pessoa com muito pouco para dizer ao mundo!

Porém, às vezes obrigam-nos a ter mais e mais ideias, e encurtam-nos os prazos, nessas vezes tenho de me obrigar, e podia dizer que fico exausta, mas não é bem assim que me sinto. É mais um misto entre obrigação e alegria, ansiedade e contentamento por ver (finalmente) a folha repleta e a maquete elaborada.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Pensa pequena, pensa.

Os raios de sol penetravam as horas do dia que ainda ia a meio. Da janela avistava pessoas minúsculas que andavam rapidamente para fugir do frio, e pombos que se ajustavam ao passeio. A chávena de café libertava vapor que embaciava o vidro da janela e criava uma penumbra mortal que se desvanecia pouco depois.
Os dedos que tocavam a chávena aqueciam o resto do corpo e a franja teimava em desfigurar a paisagem com laivos morenos a pairar pelo ar. Pensava numa forma de criar o que estava por criar. Num momento antecipado, sonhou um futuro, com viagens, risos e experiências. Viu flores e o recheio de um bolo. Imaginou nomes, e viu-se perdida numa tempestade. Num momento fatídico, pensou na dor, e na alegria transbordante, no cheiro a pés de bebés, e numa sesta cálida. Há coisas que se fazem descaradamente, outras que se disfarçam, ou simplesmente não são proferidas, esta é uma delas. Navegar por águas mais tumultuosas por gosto, criar rugas de riso, alimentar a esperança com dias de plenitude. Transbordar de orgulho pelo que se sente, por aquilo a que se é fiel, e por saber que a luz de dias como este não se vão jamais extinguir.

terça-feira, janeiro 17, 2012

E uma vida é tudo o que precisamos

Só temos uma vida.
A verdade é essa.
Uma vida, em que podemos chorar, rir, entrar, partir, governar, chamar, sentir, beijar, comer, vestir, sair, limpar, fugir, escrever, desejar, cuidar, morder, vingar, e tantas outras coisas, tantas como a existência de verbos no infinitivo, em português, ou em qualquer língua à volta do Globo.
A vida que temos, deve ser estimada. Não é curta o suficiente, nem longa o desejado para que consigamos preencher todas as lacunas, ou realizar todos os sonhos que balançam na rede do nosso coração.
Às vezes enganamo-nos a nós próprios, erramos quer seja por imaturidade ou por teimosia, brincamos com os sentimentos de alguém ou deixamos que alguém brinque com o nosso brinquedo. Felizmente, em determinado momento das nossas vidas, percebemos da enormidade do palácio que tentamos edificar. Maior que nós, lado a lado com a nossa alma. Há sempre aquele momento em que sentimos que lá por falharmos uma vez, não quer dizer que falhemos sempre.
Teremos sempre as nossas amigas e amigos, aqueles que amamos, os lugares que deixámos de procurar mas que lembramos com saudade, as palavras que vagueiam na nossa mente à espera de serem proferidas.
Os nossos corações vão partir-se e vamos tentar ser poetisas, vamos olhar para as nossas mãe e repetir para nós mesmas, que os mesmos erros não se vão repetir, vamos acordar manhã após manhã e achar que há algo que não faz sentido nenhum.
Haverá sempre a possibilidade de tentar, se não for à primeira, será à segunda, ou à terceira, o importante é sabermos que fizémos tudo o que estava ao nosso alcance.
E sorriam, há motivos maravilhosos para sorrir nos dias que correm. Encontrem-nos! Façam-nos! Desejem-nos! Sejam bravos. Eu estou a tentar sê-lo também!

Vem aí

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Vou contar-vos uma história

Ele chega meio trémulo de xícara e pastel de nata nas mãos, e desvia cuidadosamente a louça deixada por alguém na mesa onde se vai sentar. O senhor pensa melhor, e hesita entre deixá-la lá ou transportá-la até ao balcão para que fiquem em fila de espera para o duche de torneira na cozinha.
Ele tem já poucos cabelos, e os poucos são brancos, parecem neve, uma neve doce e sábia. De blaser com quatro botões de punho dourados, e aliança na mão direita, puxa dos jornais e senta-se frente a eles para os folhear.
Ela chega entretanto. Escolhe umas revistas e diz que vai pedir um cafézinho para fazer companhia ao seu garoto «bem escuro». Ele sorri, meio perdido nas frases que vai lendo mas sem nunca tirar os olhos das páginas, e apenas interrompe a leitura para retirar do bolso a sua pequena carteira dos trocos fazendo espalhar as folhas do jornal no chão. A senhora levanta-se devagar e maternalmente, ou seja, sem pestanejar e levanta-as do chão, como se as trouxesse de volta à vida. Os dois vão trocando magras palavras, sem nunca se enxergar. Cada um para seu lado, ela com as suas pérolas ao pescoço, ele com os seus óculos bem juntos aos olhos.
Conheceram-se numa festa de Faculdade. Ela tinha muitos pretendentes, ele muita vontade de dançar com ela, e de a beijar num segundo encontro! A vida não foi fácil, mas o casamento trouxe crianças para alegrar a casa, e agora é aos netos que compete essa feliz missão.
Ela desvia atenção da revista, mexe no brinco da orelha esquerda: sinal de que pensa no que vai ser o jantar desta noite, ou apenas se lembra da juventude. Questiono-me muito, se as pessoas mais velhas passam muito do seu tempo a pensar nos anos que já lá vão...
Antigamente, ela costumava fazer-lhe uma carne no forno, a sua preferida! E ele desdobrava-se em elogios que a enchiam de orgulho por fazê-lo um esposo dedicado.
A leitura fica em dia e ela ajuda-o a levantar, ele devolve os jornais e lembra-se que tem de ir à casa de banho. Ela aguarda-o pacientemente. Passam quase dez minutos, e ele regressa finalmente. A sua esposa, devota e amada ajuda-o a vestir o casaco e a colocar o cachecol. Estão tão perto de mim que sinto a aragem própria do movimento a mover-me os cabelos.
Eu fico ali sentada, como se nada fosse, continuo a ler enquanto o meu leite esfria tal como os scones que o acompanham. Fico com vontade de ir ter com eles e dizer-lhe que gosto muito deles, mas deixo-me ficar. Imagino-os a regressar juntos a casa, de mãos dadas, e a dar um beijinho de boa-noite agora mesmo. Não lhes disse que gostava muito deles, mas digo-o a vocês.

terça-feira, janeiro 03, 2012

sábado, dezembro 31, 2011

Nunca fui uma entusiasta de noite de passagem de ano, porque sempre vivi este período com a ideia que tinha de começar tudo de novo, e nem sempre admirei a ideia da «estaca zero».
Porém, os anos vão passando, e a repetição de muitas noites de fim de ano, ensinam-nos que se encontrarmos a nossa própria forma de celebração: nada nos pode deter!
Por isso, inventei uma pessoa que se chama «Ano» e imagino-o a crescer e a morrer numa esfera de 365 dias. A vida dele, é mais ou menos assim:


Em Janeiro, acaba de nascer, é um ser frágil e que precisa de protecção e paciência, resmunga um pouco, e por vezes até se arrelia por estar tão no início.
Em Fevereiro, há aquela ideia que ainda passou pouco tempo, o tempo jaz na sua frieza, mas felizmente o mês é curto, e a esperança começa a ganhar espaço.
Em Março, as primeiras andorinhas trazem consigo a promessa de tardes mais felizes, fins de semanas frios mas já de olho na Primavera.
Em Abril, esta pessoa alegra-se, vai ver o mar, mesmo vestido da cabeça aos pés, e anima-se com os primeiras frutas da época, frescas e saborosas, e até com o sabor a chocolate que anima as férias da Páscoa dos mais novos.
Em Maio, já as borboletas se entrelaçam nas suas tranças, as tardes são mais longas, os violinos tocam e ecoam ao vento, e esta pessoa inspira-se na esperança de um Verão prometido.
Em Junho, é tempo de festa a bailarico, de cor e cheiro a chouriça assada, fazem-se planos para os meses vindouros, e diz-se olá às mangas à cava.
Em Julho, abre-se a porta às tardes na praia, ao cheiro a salmão grelhado com arroz de brócolos, as manhãs são inspiradas, e os leques começam a elogiar as faces ruborizadas das senhoras.
Em Agosto, vestimo-nos de cores e com saias curtas, os cabelos são apanhados, os pés respiram, e a pele está quase sempre em contacto com a toalha turca. A areia amacia-nos os pés, e o cheiro a mar é intenso e majestoso.
Em Setembro, a pessoa despede-se do calor com pouca convicção, mas já com vontade de regressar à malha, ao gorro e às mantas no sofá, agarrada à ideia de que as folhas ao cair das árvores tiveram uma vida rica e feliz.
Em Outubro, regressamos aos tons acastanhados, os dias ficam bem mais curtos e frios, os gatos aninham-se ao nosso colo, e fazemos refeições mais pesadas e demoradas.
Em Novembro, são trocadas juras de amor. A pessoa está mais feliz que nunca, e passa o mês a celebrar pelas coisas mais pequenas, o mês fica feliz com a nossa felicidade, os passeios dos velhos sucedem-se e a luz das estrelas abençoam-nos.
Em Dezembro, é o mês feliz, com cheiro a papel de embrulho e fitas enroladas, a árvore montada relembra-nos a infância, e ficamos com aquela sensação de que estamos mais perto de um fim que nunca o é.


Assim é a vida do «Ano» que se renova de 12 em 12 meses, vive intensamente e nunca se deixa ficar. Nesta pessoa, revejo-me e materializo sensações e emoções. Os meses mais felizes são os últimos porque não temem o seu fim, já que viveram verdadeiramente como dizia alguém que já se foi.