quarta-feira, dezembro 29, 2010

N.ó.s

E agora??!!?

sábado, dezembro 18, 2010

Pavanne - Orlando

sábado, dezembro 11, 2010

Porque o coração não sabe ler

Naquela manhã nascida num dia cinzento-água coberto de sombra enovoada havia um quarto, e desse quarto ecoava a ideia de um sono meio profundo, meio sonhado, meio por acordar. As gotículas de água cristalina estariam possivelmente à espreita com os seus olhos fugidios por entre as persianas das janelas fechadas que continham todo um ar quente bafejado de súor, gesto e agressão feita leveza.
A noite era já uma memória, um rasto deixado entre lençóis, um caminho trilhado e um novo por trilhar, um golpe de espada, um toque ao de leve na pele arrepiada, as teclas do piano que iam deixando fugir uma melodia que só duas e duas pessoas conseguiam escutar. Digam-nos para párar, ensinem-nos a esconder, libertem-nos dos nossos medos, façam as nossas asas crescer. Vão embora e deixem-me a mim ficar no para sempre no quarto, no quarto onde os violinos não soam para que uma melodia mais bela possa ser escutada.
Ao acordar, a acção prosseguiu, o momento aprisionado libertou-se e escorreu pelos poros, esvaiu-se entre lençois, um relâmpago mudo abafado por uma mão, um romper da carne contraída, um corropio de imagens, olhos fechados, olhos abertos, vermelho fogo, luz, dois.
Uma lição foi aprendida na manhã nascida do dia cinzento- água, a lição de que o tempo é uma benção e que nenhum dia pode ser desperdiçado, nenhum dia é desprovido de beleza, nenhum momento por mais breve que seja... nenhum momento pode ser dado como trivial, nenhum momento pode jamais ser roubado ao tempo que ecoa de dentro de nós, de um para o outro numa linguagem sem palavras porque as palavras às vezes fogem para os lugares do nosso coração, os lugares sem som, e assim escrevo: Gosto muito de ti, escrevo porque o coração não sabe ler.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

A ave

Subir, subir o mais possível sem temer a queda livre.
Rejeitar o baixo voo e o seu constante contacto com a erva verdejante e orvalhada, que pela sua frescura nos afasta do que há ainda por descobrir.
Optar por coisas mundanas, palpáveis, que fazem da gravidade algo trivial, da maçã um bocejo e de um abraço um manto quente e protector.
Rejeitar o voo rastejante que pouco dá para pouco receber, e que amealha restos de seres que há muito deixaram de respirar.
Abrir as janelas para deixar entrar a brisa, o vento, a folia, os pássaros, os soldadinhos de chumbo, o tilintar das chávenas, o aroma do chá, os sinais, o tudo que não é pouco, não é, não.
Ousar um voo mais alto, talvez uma ave com asas mais esguias, uma ave curiosa que não é controlada pela passagem das estações, uma ave solitária que ruma em direcção ao Sol, esteja ele vivo durante 12 ou 6 horas, as que forem...são as suficientes.
Assim começa um novo ciclo, repleto de chcolate e arco íris sorridentes, abertos e coloridos, um novo ciclo em época de luzes, deuses e monstros amáveis.
Algo que termina, algo que começa, rodopia sobre si mesmo, uma coroa de flores feita luz, nada tímida, nada presa, nada fugidia porque não sente as correntes.
A ave voa por cada vez mais tempo, para cada vez mais longe, regressando sempre. Ela regressa. O mundo gira. Estrelas. Pontes. Flores. Cartões. Dias. Bruma. Rio. Poema. Sussurro. Sono pesado. A ave regressa sempre.

segunda-feira, novembro 29, 2010

sábado, novembro 06, 2010

Incrível

A Vida é tão divertida. É incrível como só me apercebo isso de vez em quando, e nesse "de vez em quando" me alegro tão vivamente e me arrependo momentaneamente por todos os momentos infelizes.
É mesmo incrível, como o tempo passa, e enquanto passa as coisas tranformam-se, toldam um universo cada vez mais particular, melhoram a nossa percepção, as coisas passam a sonhos, os sonhos a objectivos e os objectivos a sorrisos perpetuados nas nossas pequenas grandes conquistas.
E nisto não há margem para deixarmos de ser aquilo que queremos ser, que sempre fomos e que devemos ser para sempre, se deixarmos de o ser, é porque nada sabemos sobre nós próprios, como se diz por aí...aquele que em nada acredita, deixa-se ir pelo quer que seja.
Os erros são apenas incentivos para que aprendamos a ser nós mesmos. É para isso que servem, tal como os problemas, não servem para nos perturbar ou arreliar, não nos tiram anos de vida, pelo contrário devolvem coisas que achámos perdidas, fornecem ferramentas intuitivas, puxam pela nossa criatividade, ensinam-nos que sem eles somos meros blocos repetitivos nas forma e no conteúdo.
A Vida é divertida. Mostra-nos o nosso potencial dos modos mais curiosos. Retira-nos o tapete que dorme a nossos pés para nos revelar todo um chão brilhante que podemos pisar, que é macio e deslizante e que nos leva para lugares tão ricos e distantes.
Ah se eu soubesse antes!!! Mas não sabia, é mesmo assim.
Sei que dou tudo o que tenho e ao perder, nunca fico sem nada. Guardo sempre um pouco de mim, em tudo o que possuo, em tudo o que guardo, em todos os meus sonhos, em tudo o que toco, guardo um pouco de mim nas pessoas a quem me ligo diariamente. Nunca me perco porque me conservo totalmente no meu próprio coração. Se me quiserem conhecer terão de chegar a ele, pois só ele me tem por inteira.

domingo, outubro 31, 2010

Amor é o lugar de onde se parte, é o caminho que se trilha e o lugar a que se chega.

Para uns ponto de partida, para outros.. de chegada... isto se forem a tempo, e se não desistirem antes.
De onde se parte afinal? E para onde se pretende ir?
Questiono-me sobre isto sem saber muito bem o porquê. Como se durante o sono profundo sem sonhos fosse assaltada pela dúvida que mais não é energia esvaída a recompor-se.
Talvez Amor.
Será Ele construção, produto final...ou, ponto de partida?
Seja o que for deve ser na mesma proporção partilhado. Creio que o Amor vem antes de tudo, somos produtos de Amor, emanamos Amor pelas pequenas coisas, por nós próprios, amamos ainda antes de nos apercebermos e de constatarmos por palavras. Amor. Para mim, ponto de partida para algo em construção, uma aura crescente.
Esperar por amar, não é amar verdadeiramente, é simples sujeição. Para uns o Amor sente-se logo ao início, para outros o Amor é um objectivo. O Amor não se conquista, não se rouba, não se perde, não se ilude, não se vende, não se consubstancia em corpo, não se ganha, não se vitimiza, não se cansa, não se desgasta com o tempo, não colide com ideais, não.
O Amor engradece, ecoa, brilha, acolhe, perfura e liberta, sente-se na brisa do vento, na língua húmida, no bater do coração, no sorriso de uma criança, num miar de um gato, num abraço em noite de tempestade. O Amor cresce na perda, na mudança, na dor, na luta, o Amor dissolve as diferenças, o Amor é aquele momento perpetuado em câmara lenta, que com a brisa acelera o passo e se transforma no caleidoscópio dos nossos sentidos.
O amor pede apenas coerência, entre o que se diz, o que se escreve e o que se faz.
O amor pede coragem.
O amor pede menos do que aquilo que dá. E se for difícil dar, então é porque não se trata de Amor.
Amor é o lugar de onde se parte, é o caminho que se trilha e o lugar a que se chega.

domingo, outubro 24, 2010

Embalada

...pelo som da melodia feita batida do meu coração, coração que é meu, meu e de mais ninguém. Pensamento livre, livre como o pássaro que voa sem destino, sem estação de ano, sem vento, sem fome, pássaro que voa porque quer voar, porque tem asas e porque pode voar.
Apoderar-me da fome que se transforma em calor e que mata o frio no peito sedento de novo sangue. Sem muito fazer, a não ser tudo aquilo que me parecia mais coerente com o sentimento acorrentado à vontade de não despir a minha alma, porque sem ela nada seria...prossigo.
Consciente de que tudo em meu redor, nunca é presente, o presente é um instante que no final desta frase já terminou. Vivo o passado como quem atravessa um corredor remodelado pelas memórias da minha mente, estantes de conhecimento, de lágrimas e sorrisos, pilares de harmonias, de súores frios, de línguas quentes, quadros pintados a aguarela, lágrimas que não chorei, planta que não cresceu, sorte que tive em perder, porque ao perder sei que ganhei.
Que chegue o futuro no final da próxima frase, momento prestes a ecoar por entre cortinas, como as ondas do mar que recortam as rochas duras, cinzentas e em mudança eterna. Sejamos essas rochas, vivamos em constante mudança como elas, deixemos para trás as pégadas na areia que o mar tratará de desfazer, abracemos o céu estrelado, o beijo do sol ao mar pela manhã, o início do dia, do dia da nossa vida.
Da minha vida.

quarta-feira, setembro 15, 2010

Outono

O verão está a morrer. Está a despedir-se depressa demais. Não sentem? Não concordam, ainda ontem parecia estar tão presente. Será que foi alguma coisa que fiz e ele agora está a vingar-se, partindo repentinamente. Mau este Verão, ser vil e sem coração. Que fazer? Prosseguir, com ou sem o ar quente dos meses do meio ano, e não menosprezar aquilo que os que ainda estão para vir me podem oferecer.

Tardes calmas, aninhadas na manta ao sofá. Chá, e bebidas quentes horas frias, refeições reconfortantes, matinés em que adormecemos antes do filme terminar, o enroscar do gato no nosso colo. Aquele frio ao acordar e que nos empurra ainda mais fundo entre os cobertores, aquela vontade que falta uns dias e que teima em ser forte nos outros. A de ficar, ali toda uma manhã.

Noites frias com vidros embaciados, revisitar de momentos puros, nostalgias anciãs, a memória de aniversários remediados, de festividades felizes, de surpresas simples.

Outono que aí vem, folhas amareladas e quebradiças estendidas no chão feitas manto de retalhos, retalhos que teimam em permanecer quietos e murchos, tal como alguns corações, ternos, adormecidos, expectantes, sombrios, em sobressalto, corações descompassados e que precisam de ganhar ritmo, um novo bater, um bater esperançado, um bater feliz, um bater disposto e prosseguir, um bater majestoso e desejoso de mais, apenas um pouco mais.

terça-feira, agosto 24, 2010

A memória

É um corte abrupto na carne, bem no centro. São fios a rebentar por não conter a força do movimento de dentro para fora, arde uma luz que na sua própria aura consome o que resta do corpo dormente. Uma dor tão forte que dá ideia de que o coração quer abrir caminho pelas costas, não temos asas e agora não temos coração. O ar deixa de entrar. Fechamos os olhos e quando os voltam0s a abrir, está tudo igual, tudo menos o coração que permanece fora do corpo, e o ar que não entra por ele a dentro. Decidimos sair em busca do Sol e voltar para casa sabendo que não o encontrámos e sentir bem lá no fundo que não o vimos, porque ele saiu também à nossa procura. Assim se gera o apaziguamento doce e que se vai instalando calmo e feliz clamando por Liberdade, aí sabemos que temos de buscar o nosso próprio Sol. A memória permite acesso a coisas extraodinárias, relembra-nos do que queremos que fique e do que queremos que vá, que fiquem os mapas nos nossos corpos, as manchas nas nossas almas, os olhares tão cheios de vida, o gosto do gosto de outros, o resto que vá. A memória relembra-nos que há dor, que se olharmos para a ferida dói mais, ganha vida. A memória permite-nos abrir todas as portas que se fecharam, permite-nos correr até que nos faltem as forças até àquilo que queremos, a memória busca-nos quando nos esqueçemos dela. A memória é intruiguista e ávida de conquistas, e quase tão bela... Isso faz dela invejosa, a memória gostava de ser corpo como nós, sentir dor, alegria, prazer e toque humano, mas a memória não pode, é mera escrava do ar que envolve tempo que já foi.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Deveres

Devemos correr atrás do que queremos. Devemos sempre prestar atenção ao que nos rodeia, a quem nos rodeia e a quem rodeamos. Devemos perdermo-nos para nos voltar a encontrar. Devemos deixar sempre a porta entreberta para que os fantasmas percebam que não os tememos. Devemos repetir sempre aquilo que já sabemos que o outro sabe. Devemos deixar que as oportunidades não escorram por entre os nossos dedos. Devemos partilhar o pouco que temos, para que o pouco se transforme em algo grandioso. Devemos morrer se queremos renascer, sem deixar morrer o calor que emana do nosso coração acorrentado à carne fria. Devemos beber do suór da Lua, cantar com as lágrimas secas do Sol, maravilharmo-nos com o odor das estrelas em noite escura e quente, devemos fechar os olhos para assim vermos toda a uma vida. Devemos contemplar o Vazio que sentimos engrandecer-se na derrota dos nossos actos. Devemos deixar o Vazio instalar-se, comprazer-se na nossa dor, deixá-lo mais um pouco. Devemos apelar às forças que já não acreditamos ter, alimentá-las do que de bom ainda possuimos, pegar na espada da Vitória e despedaçar o Vazio, deixá-lo ir com a brisa fresca da saudade e sair vitorioso no seu lugar. Devemos partir, se nunca abandonarmos o nosso lugar. Devemos ficar, se nunca tivermos vontade de partir.

segunda-feira, agosto 02, 2010

domingo, agosto 01, 2010

A Vida parece ter vontade própria

Sabem quando vos apetece fugir, esquecer, relativizar, simplificar, esconder de tudo e todos com a máscara de um sorriso escavada na mais dura rocha na encosta da solidão? Sabem quando se tenta apagar da memória, mesmo que temporariamente, os bons momentos vividos, as alegrias partilhadas, os sorrisos cúmplices, os despertares felizes... e tentamos e tentamos, em vão... Parece que estamos a produzir uma imitação da vida, uma forma desesperada de não sentimento, de não desejo, de não cumprimento do dever, de esquecimento. Um rio que não desagua em mar algum... E eis que a Vida ganha força, mais uma vez, e parece ter vontade própria, esbofeteia-nos, diz que nos portámos mal, que estamos a fugir de algo que está dentro de nós e que ecoa numa sombra pesada. A sombra é nossa prisioneira, ou nós dela. E eis que a Vida ganha força, força como a do corpo enraivecido, força como a lágrima que escorre sem poder ser contida, força como a do vento em noite de tempestade, força como a da entrada de um corpo no outro num balanço terno, força como a das amarras do passado, força como a da sombra que rouba a luz do nosso dia, força como a do espaço da palavra escrita porque não a posso proferir de viva voz, força como a da alma que acredita que a sua carne se unirá a ela uma vez mais. E eis que a vida me faz deparar com isto...e eu lembro tudo outra vez...é a Vida. "Um beijo teu é como água salgada, quanto mais se bebe...mais sede se tem." Drummond de Andrade

segunda-feira, julho 26, 2010

Hoje odiei o mundo por duas vezes

Desde o dia 15 de Junho que odeio o mundo. Faço sempre o mesmo caminho em direcção ao meu trabalho e o mesmo para regressar a casa ou a outro sítio qualquer. Tem dias em que odeio o mundo. Desde o dia 15 que ao mesmo tempo que me encaminho para o escritório vejo um homem velho, de cabelo e barba branca, com sacos de plástico numa ou em ambas as mãos. Nas mãos cheias que me parecem vazias. Mas só as mãos parecem vazias, olho-o sempre revoltada e fico triste, não sei o que lhe aconteceu, o que fez ou o que lhe fizeram. Não sei como e quantas pessoas magoou, não sei se mentiu, se maltratou, se roubou ou se matou sequer. Juro que não sei. Não lhe conheço a voz, nem a morada. Só vejo com o meu olhar entristecido que procura o olhar triste dele, e nesta procura terna de vidas fugidias fico sem saber porque odeio o mundo e por ele nada consigo sentir. Apenas sei do que vejo, e quando o vejo, olho-o a ver se me olha, procuro-lhe a íris mas ele olha sempre o chão e nunca as pessoas de frente, não sei se por vergonha, se por medo. Ele não me olha, e tem dias em que acho que se o conseguisse encontrar com o meu olhar que lhe conseguiria ler a alma e dizer-lhe sem palavras que não tem que fugir das pessoas. Um dia se o vir sentado no banco do jardim frente à igreja como também já o cheguei a ver, vou falar com ele. Devia tê-lo já feito. Hoje vi-o a caminho do emprego e a caminho de casa. Hoje vi-o duas vezes. Hoje odiei o mundo por duas vezes. E hoje não o consigo esquecer.

domingo, julho 18, 2010

Entre as linhas

poemas que se escrevem e que jamais serão lidos. Há cores inventadas e que jamais impregnarão uma tela. Há lugares do coração que nos esquecemos de procurar. Há medos que por mais que combatamos não se esgotam ao nascer do dia. Há verdades imensas, valiosas, donas da Humanidade. Há coisas que gostaríamos que fossem fáceis, e só o são se assim o quisermos verdadeiramente. Há partes de nós que são estilhaços que nos cortam a nós e aos outros. Há palavras que não queremos vir a precisar de dizer. Há caminhos que não queremos percorrer. Há que percorrê-los, a pé, a voar, contigo, por ti, ou apenas para te alcançar. Há sentimentos que se alojam nas encostas da nossa alma, tal como as rochas tumulares nas praias fazem alterar a morfologia do mundo. Há coisas que quando nos imaginamos sem, fazem com que o reino dos nossos sentidos se desmorone. Ritmo. Obra. Devaneio. Revelação. Inimaginável. Gesto. Obrigatório. Há o verso curto e há a composição escrita. As entrelinhas que foram inventadas para que consigamos descobrir o que deixou de ser visível, as frases feitas para nos redimir, e...as mesmas, capazes de nos condenar.

domingo, julho 11, 2010

É bom...

É bom quando chegamos, sentir que foi como se nunca tivéssemos partido! Também gosto da sensação de partir, e nesse mesmo momento vislumbrar a minha chegada. Por melhor que seja o motivo da ida, só é de facto bom, se tivermos uma razão ainda melhor para regressar. Sempre vi assim as minhas viagens. Fui sempre na intenção de voltar. Houve apenas uma vez que não o desejava, queria lá ficar, nem sei bem porquê...estava a gostar por demais da novidade e a achar que aqui no lugar onde tinha de ficar não tinha grandes coisas para fazer, a não ser continuar a aprender um pouco sobre tudo e nunca muito sobre coisa alguma. "Adolescentes" diz a irmã!! Mas a verdade é que voltei. No ano seguinte regressei pela mesma altura, os planos foram alterados à última da hora, peguei em mim, comprei um bilhete e meti-me no avião, queria desaparecer...mesmo que fosse só por 10 dias, mesmo sabendo que o longe é sempre perto demais. Voltei tristíssima por sair de lá, foi uma verdadeira tortura, mas voltei. Alterada. Tomei decisões, mudei tudo, desisti do que havia a desistir e formulei uma recuperação: nos entretantos fui celebrando a vida! Desde então a viagem que fiz foi por aqui mesmo, a do ano passado não conta...e este ano também não prevejo nenhuma no horizonte! Viajarei nos sonhos, que vou trilhar por entre caminhos feitos em chão de pedra dourada coberta por todo um manto feito de retalhos de alegria e cheiro a moringa. Além dos sonhos, viajarei com as palavras, nos intervalos dos esforços laborais, nas noites quentes e abafadas de Verão, nas manhãs cheias de esperança e frescura, nos entardeceres calmos e abraçados, sim o entardecer é capaz de nos abraçar: normalmente é nesse momento que o nosso coração se deixa inflamar.

sábado, julho 03, 2010

Manifesto ao Prazer

Creio que preciso de descodificar o prazer. Afinal o que é isso de "prazer". Sei sentir, mas não sei explicar. Não sei se coloque a questão em termos físicos, ou siga outro rumo que desemboque numa ressonância magnética à alma. O prazer poderá ser dor? Acho que sim. Pode gerar ou ser gerado por ela. Deveriam ser antagónicos, mas vejo-os um ao lado do outro, de mãos dadas. Porém, e é aqui que entra a grande questão: o prazer proporciona felicidade. Andamos todos à procura de ser felizes, mas dou por mim a olhar para isto tudo e a crer que procuramos de maneira errada. É como se a felicidade fosse uma meta e não todo o chão que pisamos até chegar a ela...A felicidade meus caros é algo que está sempre connosco, dentro de nós, e para onde quer que vamos, a felicidade está em nós, é tudo aquilo que somos, o que de bom nos alegrou e o que de mau nos fez mudar, mudar para melhor. Sejamos independentes e encontraremos forma de dar a quem precisar de receber. Talvez a questão à qual não quero responder seja "És feliz?", mas sim "Podes ser ainda mais feliz?", prefiro responder à segunda questão. E eis que me lembro do prazer, e nas suas variações, o prazer na dor como já mencionei, o prazer como escape, o prazer como manifestação sensorial dos nossos sentimento, ( a sensação de sentir...jamais esquecerei isso), o prazer como resultado explosivo do afecto que sentimos por alguém, o prazer em dar, o prazer de receber, o prazer da carne pura e dura, o prazer na vontade que se gera entre duas pessoas sem que precisem de fazer uma pergunta que seja, o prazer de um simples acordar silencioso, porém majestoso em gestos, o prazer de ouvir a voz de alguém de quem se gosta e que nos faz falta, o prazer em achar que há muito para fazer, por isso o que está feito se feito com prazer não precisa de qualquer recriminação. O prazer. Sintam-no, mas não façam dele um sedativo, não vejam no prazer uma sensação momentânea, um escape para os problemas da vida, problemas sempre teremos, resolvemos uns e logo surgem outros, com o prazer é a mesma coisa, deixamos de ter prazer numas coisas para ter noutras, e o mesmo com as pessoas, e o mesmo com as cores, e o mesmo com a felicidade, hoje sou feliz, mas amanhã quero ser mais!

domingo, junho 27, 2010

É de noite que os deuses descem à Terra dos Sonhos

Às vezes sinto que o dia presente, será o último dia em que usarei palavras.
Normalmente adormeço com esse pensamento. Durante a noite algo de mágico acontece. É como se me despedisse milhares de vezes de alguém, e no dia seguinte ele voltasse a aparecer na minha vida. Ao acordar, as palavras estão já deitadas a meu lado leves e sorridentes. De noite costumam acontecer coisas mágicas, os deuses descem à terra e ofertam-nos com os seus encantos, mas fiquem atentos, porque os deuses são caprichosos. É de noite que os deuses descem à terra dos sonhos. Pairam sobre nós, sussuram-nos palavras doces e tornam os nossos sonhos em matéria. Afinal de que são feitos os sonhos? Hei-de morrer sem saber a resposta, apenas a posso imaginar.
Imaginar e depois escrever, sendo que escrever nada mais é que reviver um momento que já não se repete, apenas o podemos voltar a imaginar, tentar decifrar pedaços da nossa existência e criar laços a partir daí. Laços que quando dados e depois recolhidos no fio da memória nos arrancam sosrrisos rasgados. É assim, doce e frenético...o sonho, o momento que se sonha. O meu último sonho foi uma realidade. Estava meia que a dormir, mas sem dormir verdadeiramente, digamos que estava naquele momento em que internamente travamos uma batalha entre vontade e necessidade, que nem sempre são a mesma coisa, mas quando são, é de facto um momento maravilhoso. E meia que a dormir, era chamada ao meu mundo por uma voz, ela estava ali colada ao meu ouvido, como que um zumbido, fazendo com que a necessidade fosse rebaixada pelo desejo, porque eu desejava ficar acordada durante horas. De repente, o zumbido tornou-se um grito, a distância que eu imaginava encurtou-se, e senti a adrenalina nos minutos que antecediam a abertura dos presentes no Natal quando era pequena. Saltei da cama, juro que saltei da cama para ver com os meu próprios olhos aquilo que os meus ouvidos me diziam. Não era mentira. A melhor prenda, pele com pele, voz com voz, toque com toque, sentir algo a crescer, o mundo poderia começar a arder nesse preciso momento que não daria conta, será que ardeu? Parece que parou de girar, ou então começou a girar mais depressa que nunca. A noite envolta tornou-se madrugada, os deuses por ali, sobre nós, por entre, de dentro para fora, entrando e saindo. Os deuses só nos deixaram quando afugentados pelos primeiros raios de sol. Para nossa sorte, nós ficámos, por uma vez, completamente a sós.