domingo, maio 14, 2006

Le petit Prince

Perdido num novo mundo. Maior, perigoso, só, louco, estranho, longíquo e esquecido. E tu meu pequenino, eu só queria fazer como ele o fez, pegar-te ao colo, balançar-te, cantar-te baixinho ao ouvido, esperando a tua estrela que não partiria primeiro sem uma lágrima minha. Feliz ele que te viu no deserto, que procurou contigo um poço, e que só acreditando o encontrou, que te viu encantar uma serpente venenosa...que ilusão, tu eras o veneno dela. A mim só me resta procurar uma seara e procurar-te por entre o trigo, acariciar-te o cabelo ao sabor do vento cálido numa tarde quente de Verão, enquanto escuto os cânticos dos anciões. A mim só me resta cuidar da flor, que sendo igual a todas as outras, me cativou...e espera por mim naquela que é a sua sepultura terrena ou pela raposa que a rapte e a sepulte noutro paraíso. Meu menino adorado, foste tu quem me ensinou a viver, a amar, a perceber o que no fundo já sabia, mas esqueci, porque infelizmente nos esquecemos daquilo que de mais puro alguma vez já tivémos, aquela coisa curta, e vivida longamente, mágica, curiosa, sagrada, colorida, a cheirar a rebuçados de limão e da cor dos cogumelos vermelhos com bolas brancas. Infância. Queria casar contigo, ser a tua princezinha, viver no teu reino que nunca será teu porque nunca serás adulto, admirá-lo, coberta pela tua capa e avistá-lo por entre os teus cachos de cabelos doirados que seriam a minha luz no mais escuro dos universos. E se não voltas?...tu prometeste que vinhas. Tu vens. Eu sei. Só os adultos é que não cumprem promessas. Vai ao deserto Principezinho, ajudar a alma do aviador.

quarta-feira, maio 10, 2006

HOSPITAL

By Frida Kahlo Ao nascer lembrei-me que já havia algum tempo que não morria, curiosamente todos dizem ou pensam que morremos sem precisar de nascer (os vencidos da vida), mas o que no fundo queremos é nascer sem precisar de morrer, queremos aquilo que não podemos ter..e não é sempre assim? ...odeio aquele sítio, o cheiro, a cor, a energia mórbida da espera, as conversas vazias entre desconhecidos, porque ali o nome não é importante, apenas o autocolante colocado em local visível, e a audição em plena sintonia com a voz esganiçada do altifalante que pronunciará sim o nome, de modo seco e arrogante, como se o doente fosse culpado do mal que padece. A sala é um espectáculo triste, quase como um jogo cinzento em que tenhamos que adivinhar por onde é que a sombra da morte vai pairar... Entretanto voltei e não sei por onde queria ir, mas recordo-me enquanto vou para lá que tenho medo deste caminho, medo desta calçada e destas árvores, lembro-me do gelo na barriga que sentia ao subir a rampa ampla e barulhenta, e entrar no edificio grande e cinzento, do qual só conhecia parte, a parte que menos gostava, calma, asseada, sem alma, o corpo inerte do meu pai numa cama fina e opaca de metal, o tic-tic-tic da máquina azul com luzes verdes a piscar initerruptamente...ditando vida... a parede de borracha, o vaso com flores de plástico..dálias, vejo eu. A conversa seca e metódica do momento, com frases de circunstância e expressões de boa vontade lançadas no calor do momento. A alegria momentânea e a beleza da vida fracamente apreendida, nem pelo mais talentoso dos pintores impressionistas...apenas o helicóptero pousado no espaço que lhe era reservado aguaradando a fraqueza de mais alguma alma em sopro desistente. Há dois dias voltei lá, e senti o mesmo, repeti o sentimento por mais estranho e inexplicável que pareça (porque não acredito em sentimentos repetidos), estarei a mudar, a desistir, a chorar..................quando lá iá fazia frio e o vento reunia-se todo no meu tronco a fim de sair pelos meus olhos, no outro dia fazia calor e em vez de vento era o sol que se encolhia todo dentro de mim, senti-me queimar friamente, mas o sol não me saiu pelos olhos, está ainda aqui a queimar. Vou ser fria para ele não me magoar mais.

sexta-feira, abril 28, 2006

(entre) tanto

(Entre) tanto fico sem perceber se sou uma força do Mal ou se sou apenas uma vítima dele?... Tanto (entre) as luzes que se escondem por entre os véus da deusa obscura que não me deixa ver e adormecer, porque eu vejo em sonhos, e nós nunca daríamos certo porque eu sou muito ganaciosa e tu cioso da minha ganância, não te deixas dormir. Eu não quero dormir, apenas adormecer, não quero ser a continuidade da inexistência, os suspiros lamentosos de uma cria ensaguentada, o uivo de um vulto esbranquiçado que se esquece de soprar e vive para me ver chorar. Eu quero matar para não morrer, embora ao fazê-lo estou também eu já morta, se é que alguma vez vivi. Quero? A vontade é-me estranha, por vezes perco-a, alimento-me da dos outros, renego os sentidos e deixo-me absorver pela manifestação física do corpo. Confusão? Não. Perfeição. Na noite, a vida torna-se morte. E apraz-me, seduz-me a ideia de inexistência mantida por breves longos momentos, como se algo de dentro de mim deixasse de ser, como se o ar deixasse de me entrar nos pulmões, um sussurro, um arfar, um momento breve, longo, rápido, lento, frio, morno, um coração...qual? Um, dois, nenhum, será preciso o coração?Já ninguém o usa. O perfume intoxicante começa a fazer efeito, vejo tudo de uma cor nova, é tudo feito de um amarelo gelado...e eu voltei a abrir os olhos. Que vejo eu? Tudo. Nada.O gelo do amarelo. Que vês? Não responde. Não vê? Não quer ver. Não sinto. Não o sinto. Perdida. Entretanto volta, mas a cor essa mudou. Já não gosto dela. Tanto entre ela e eu que já me esqueci de que cor é o amarelo gelado.

segunda-feira, abril 24, 2006

Parabéns meu Anjo

E há dias em que me sinto positivamente feliz, sem medos, como se a sombra já lá fosse longe e me tivesse desprendido para eu poder enfim respirar, voar, desmaterializar! Fim do desabafo... Mas o que me leva hoje a escrever não é uma sombra, é um anjo, um anjo que como todos os anjos, caiu, mas que cedo se ergueu. Ele sabe que é um anjo, ja lho disse, mas ainda não tinha partilhado. A queda dos anjos é algo fundamental e miraculoso: um estrondo, uma cratera manifesta-se na escura e fria terra, um jacto de luz, e um homem, ja não é anjo porque as asas cairam, desintegraram-se, e voltam a nascer em breve rápida e docemente. Eu já vi um anjo a cair, mas melhor que isso, vi-o a voar, e um anjo quando voa é algo de maravilhoso, tão ou mais maravilhoso do que todas as belezas deste universo. Não chorar, não baixar os braços, lutar, lutar, é esta a mensagem que lanço ao mundo dos homens, é esta a mensagem que te deixo este dia tão feliz, que eu quero que seja feliz para ti, memorável, digno de recordação, de celebração! Oh meu anjo querido se tiveres que cair de novo, chama pela tua aurora, grita pela Humanidade, diz o que tens a dizer, esgota as tuas forças, queima as folhas de papel, lava a tua alma, anda pelo teu caminho...porque tens um mesmo à tua frente, só tens que o descobrir por entre os arvoredos. Se nada disto te apaziguar sussura-me que eu apareço, choras no meu ombro, mas por pouco tempo, porque quero ver-te sorrir, sempre, hoje, amanhã e por todos os aniversários da tua vida! **Feliz vigésimo primeiro aniversário** (a imagem escolhida não é descabida de todo)

quarta-feira, abril 19, 2006

Enquanto puder

"This is the end... my dear friend..." já dizia Jim Morrison numa das suas noites de criação, noites altas, enfumaradas e alcoolizadas, noites de inspiração, de sonhos, de voos mais altos do que aquilo que as asas muitas vezes nos permitem alcançar. Quanto mais voamos, mais vivos nos sentimos, as crias ganham essência e independência, caiem do nosso regaço, ganham forma e libertam-se de nós, é agora delas a vez de voar. Todos temos a isso direito, não nos deve ser negado, não nos deve ser tirado.Porque pior do que não ter é deixar de ter, não há nada de pior para o Homem do que ter algo, e no momento seguinte perdê-lo. O sentimento de perda é das piores coisas de que tenho ideia, escrevo por experiência própria, porque mentir e escrever não é uma combinação saudável, embora como já dissesse Pessoa:" O poeta é um fingidor", talvez no fundo não seja só o poeta aquele que finge, o poeta somos todos. Todos nós somos poetas mal ou bem, todos nós sentimos, por isso de poetas todos temos um pouco, tal como de loucos. Mas não confundamos os conceitos, o poeta é quele que sente as palavras a brotar de dentro de si, acorda de noite para apontar duas ou três linhas que se vão transformar, ou não, que ficaram guardadas como que fósseis se à espera de serem encontrados por debaixo da terra e mostrar ao mundo todo o seu esplendor. Comecei o texto com dois versos ou uma linha (consoante a métrica a adoptar) de Jim Morrison porque ele era um poeta e um louco e por ser isto não tenho dúvidas de que ele sentia (todos nós sentimos), mas Jim sentia aquilo que o mundo não o deixava espelhar. Usou a excentricidade e as modas da época (algumas que ele ditou), para revelar o seu interior, interior esse que mesmo assim se mantém preservado numa concha (outro fóssil). Jim incendiava, encadeava, renascia, bebia da vida os líquidos funestos, poetizava. E se as asas gritam "És louca!", eu respondo "Enquanto puder..."

segunda-feira, abril 17, 2006

2006 vai já no seu quarto mês e só agora surge algo de refrescante nas salas portuguesas. Spike Lee é o culpado desta proeza, diga-se de passagem porque este não é mais um filme de mindgames (obrigado Pedro por essa), de twists, e intrigas policiais.Não senhor. Inside man ou Infiltrado como preferirem é uma comédia...a meu ver com laivos de triller e joguinhos(psicológicos...).Comédia porque não esxiste um diálogo nesta obra que não seja inteligente, não existe um diálogo que não nos faça rir, e não há um diálogo que não seja provavelmente indicador de algo. O mesmo se aplica a cenas, acções (por mais pequenas que sejam), cenários, pormenores, enfim tudo o que se possa imaginar. A cena de abertura é genial e de facto está lá tudo, claro que o público (que nunca é estúpido) só se apercebe disso no fim, ao som da voz de Clive Owen (voz colocada e calma como convém a um assaltante de bancos) que se repete mas agora com uma linha de entendimento que o público (aquele que não é estúpido) já pode seguir e fá-lo inevitavelmente. É sem dúvida um filme de interpretações, o incontornável Denzel Washington brilha inescapavelmente nesta obra, ofuscado em momento pelo não menos brilhante Clive Owen e pela sempre correcta e implacável Jodie Foster (como lhe ficam bem papéis de Senhora poderosa!), ah e Christopher Plummer embora um pouco "apagado" também dá as suas cartadas. Ainda relativamnete ao elenco uma pequeno achega...num papel secundariozíssimo temos Willem Daffoe...mas porque é que sempre que eu vejo este homem o imagino com uma coroa de espinhos??!! Mas deixando esta parte de lado, falemos de música de fundo, a película brilha magestralmente aos acordes de sons meio árabes e hip-hop (uma misturada que resulta na perfeição), contrastados com sons "à la Hollywood" de suspense. O tema de fundo que à partida é um assalto, à partida repito, tarnsforma-se numa incursão numa América (ainda) pós 11 de Setembro "we never forget", movida por forças exteriores a ela e que sobrevive graças a elas, essas forças são pessoas diferentes, mas pessoas que podem ser ladrões ou reféns...e as canetas podem ser preciosas durante 30 minutos.... Uma reflexão sobre os conflitos raciais de um país que os promove recriminado-os e os recrimina promovendo-os..uma e outra não são a mesma coisa! Ah e não esquecer que profissionais de alta qualidade e que escolhem cuidadosamente as palavras que usam, só abandonam o local de trabalho quando o trabalho está feito.Done.

sábado, abril 15, 2006

A beleza ao nascer do dia

...e eu não me lembro do meu nome. Vivo porque escuto o bater do coração, essa preciosíssima caixa de música (in)quebrável, essa melodia para ouvidos meus, essa calma... ...e eu não... E o rio segue o caminho lenta e sanguinariamente, enquanto rasga a terra profunda e esquecida. E eu sigo o rio por pensar que ele me leva onde quero ir, mas não...ele sem querer sabe para onde vai, eu querendo não sei para onde sou levada. Quero ser vermelho e banhar de sangue as caras feias do mundo, incomodar as almas dos melévolos, aliviar a dor dos que sofrem em silêncio(porque em silêncio não se faz sofrer mais ninguém). ... me lembro do meu nome... Quero ser como ela, morrer a tempo de me ver (re) nascer, quero arder...melhor quero que me vejam arder e (re) erguer-me das cinzas ardidas que alguma coisa purificaram. Quero ser tela, sentir o artista a vislumbrar-me por entre as linhas do pano branco, ver-me em noites acordado porque o enfeitiço, o confundo, o transtorno, o satisfaço. Quero ser manhã e amanhecer na beleza dos sentidos, na exactidão dos raios de Sol, no amarelo da aguarela que ao se misturar com água se amantiza com o toque e se esvai sofregamente. Quero esgotar-me, sentir exaustão, e continuar porque esgotamento e exaustão acalmam. ...e eu não me lembro do meu... Esquecer.Esquecido. Esquecimento.Esquecida.Esquecidamente. ...nome...que chamam, que não é meu, que não sou eu, que sou outro que choro por dentro (em silêncio)...porque toda a beleza tem um fim.

domingo, abril 09, 2006

Operação coelhinho da Páscoa (continuação)

- Daqui gatinha do matagal escuto! - Branca de neve agente 277 escuto. Aguardo coordenadas superiores para começar a busca, escuto. - As coordenadas são: descida de rampa a velocidade bastante moderada a fim de visualizar o veículo suspeito de matrícula shsksskshssksksdhh.... (interferencia) - Escuto, mensagem mal recebida, abortar missão? - Abortar missão (era então não era?), fora de questão, as ordens foram bem claras, procurar até à exaustão, não vá o suspeito contactar com o inimigo, escuto. - Escuto, fico então a aguradar novas coordenadas, só mudo de turno às 4 da manhã até lá há muitos mapas a analisar e situações a prever, over and out. À vontade, gatinha do matagal agente 278, over and out!

sábado, abril 08, 2006

"...a tua alma alegre que patina no meu vapor..."

Existem dias que nascem só para nos enriquecerem, ontem fui muito rica para a cama(que de si não é nada de especial: apenas o facto de ser a minha cama). Sabia lá eu que o encontro com uma pessoa (conhecida há tantas eternidades, que relógios comprados não serviam para contar todos os segundos), ela emprestou-me um livro que a partir de agora fica retido na minha memória por todo o devir, a obra chama-se No dia em fugimos tu não estavas em casa da autoria de Fernando Alvim...esse Senhor! Sempre engracei com o rapaz, com o seu humor fora dos parâmetros, o seu cabelo algo desalinhado e estranho (convenhamos), as suas piadas que parecm fugir aos cânones do bom gosto mas que intimamente fazem rir o nosso âmago, mas desconhecia redondamente, ou será quadradamente(?) esta sua faceta pura e vivida. "Quero que saibas que a minha paixão por ti é orfã de pai e de mãe mas vive feliz na casa do Gaiato." F. Alvim Ai pessoa que me deu o livro a ler...Bem hajas, apetece-me dizer-te mil e duas coisas mas as palavras às vezes são assim marotas e parecem ter vontade própria fugindo da ponta dos nossos dedos escondendo-se nas membranas dos hemisférios do nosso cérebro...há que aguardá-las e zás usá-las e usá-las, sim porque não acredito em escrita por pré esquematização, a escrita surge, do nada e do tudo, podemos sentar-nos à frente de uma folha branca sem ideia alguma, e no segundo que se segue imediatamente, termos tantas ideias capazes de nos dar uma valente senhora dor de cabeça, e aí é mau, é árduo conciliar beleza a organização...quando isso acontece é respirar fundo e contrariar as palavras, fazermo-nos de difíceis e saber dizer "Não!"...elas gostam disso!!(private joke) Claro que não podia deixar de mencionar os 2 Cd's desse filósofo optimista céptico dos nossos tempos...ouvir aquilo que já sabemos em composições haroniosas ritmadas e esgalhadas (adoro esta palavra) com rimas e vogais que só um Deus musical poderia criar! Sim ele é um Deus! Mais uma vez o meu muito obrigada. Tu minha linda pessoa, és isso mesmo linda, forte e senhora de sim mesmo, tens planos, sonhos, medos e manias, tudo isto faz de ti um ser único (ok cada ser humano é único) mas a tua unicidade não se resume a caracteristicas estereotipadas que nos habituamos a realizar mentalmente e a escrever mecanicamente nos profile comments do Hi 5..do you know what I mean?? Se agora é um momento menos bom, o que acho que está verdaeiramente no final dos seus dias, "enquanto houver estrada para andar", tu só tens que seguir um caminho seja ele qual for,"...sempre em frente não se pode ir muito longe..." seja qual for o resultado que daí nasça, pensa assim: tudo tem um propósito(cada dia penso e acredito mais nisso), talvez tenhas algo de grandioso à tua espera, aqui ou ali, ali ou acolá, se tiver que ser lá a vida encaminhar-se-á de te lá levar, tal como o vento leva o pólen de uma flor para a outra sem fazer qualquer tipo de perguntas sobre a paternidade do rebento ou sequer se ele tem condições para a sustentar! O vento sabe por onde seguir, ninguém lhe diz nada, tu não precisas que ninguém te diga nada, segue, faz isso...já diz o outro "viver todos os dias cansa", se o faz é porque não vive, limita-se a estar e isso cansa porque não te chega! (citações de Fernando Alvim, Jorge Palma, Pedro Paixão e Saint Exupèry)

segunda-feira, abril 03, 2006

Paragem no tempo

...o som ritmado ao compasso do bater do coração que bate, bate, cada ves mais e mais depressa. Conegues ouvi-lo? Retém a respiração, retém, retém...suspira, o olhar que se se fecha, o movimento que se repete, o rodopio de luzes apagadas, pára. Recomeça e pára, esvai-se e pára de novo. O cheiro que se entranha na pele como se dela nunca tivesse saído e que teima em não desaparecer, o cheiro que fica e que recorda...ah como o faz tão bem. O toque pausado, e suave, que se contrai e foge, escorre e harmoniza. ...eu sei que voo para cair, e que caio para voar, que me calo para cantar, que canto para me calar ( canto quando estou feliz, e estou feliz quando canto), espero para ter, e tenho para esperar, ouço para (re) agir, e (re)ajo para ouvir, dou para receber, e recebo para dar, dou para ver a felicidade nos olhos do outro e saber que sim, ele sopra-me nas pálpebras no vazio( private joke, can't help it)...e saber, tenho um plano maior do que viver. ...o início, é bom começar pelo início, parece já tão longíquo...tão vago, tão bem amado... ...os planos, as horas, os minutos, os segundos...tic-tac,tic-tac..já nenhum efeito tem. ...o meio, o momento, a adoração, a alegria da hora chegada, o silêncio que tudo diz... ...o azul do céu e do mar, a inconstância do corpo, a calma aparente, o respeito, o valor... ...o fim, não até nunca mais, e pensar... Não quero pensar, quero ficar inconsciente, quero que este seja o último dia em que penso, ou pelo menos o último em que ultimo este penasamento. Confusão? Algo entre... Entre algo... Acreditar... Eu acredito, sim todos os dias, ao entrar em casa.

domingo, março 26, 2006

J

E já não tenho palavras, porque o silêncio impera. Porque eu não temo o silêncio porque contigo o silêncio é o tudo, depois de roubadas as palavras, que não digo porque só as sinto a invadirem-me o coração quente. E foste tu quem fez isso. E és tu quem eu quero que mo faça. E serás tu, só tu. "...Strong hold on his affections, were to him A pleasure feeling of blind love, The pleasure which there is in life itself. "...The evening star"...More from instinctive tenderness, the same fond spirit that blindly works in the blood of all... "...From the Boy there came Feelings and emanations- things which were Light to the sun and music to the wind." William Wordsworth, Michael (adaptado a ti)

domingo, março 12, 2006

Aurora no crepúsculo

E os primeiros raios de Sol escorrem por entre o fino véu de água que me cobre os olhos. Não estranho a ausência da felicidade, estranho-a quando a sinto, porque por mais que a queira ela obriga-me a flutuar no futuro, como seu eu soubesse secreta e ocultamente que lá acaba e que se vai rir de mim por pensar que não, porque todos pensamos que não. Isto é tao real. Quando estou infeliz sou a primeira a perguntar "Porquê?", mas quando feliz é o meu estado de alma, não me recordo de me questionar a mim ou o que quer que seja, o porquê...o Homem é tão inexplicavelmente explicável. Nao deveríamos ser o grande segredo da humanidade. O cofre da vida, a questão inquestionável, a prisão num Hades imaginado? Talvez não. O Homem é simples...demasiadamente simples, ele não se considera, mas é. A complicação descende da nossa mente, essa cortina de veludo vermelho que insiste em nos obrigar a viver num mundo que não percebemos, porque somo nós que o criamos, somos nós que o complicamos e somos nós que nos escondemos por entre as cortinas, enviando apenas mensagens indecifráveis para quem as quiser ouvir, quem as quiser decifrar...quem as quiser esquecer. Hoje sou feliz, por quanto tempo não sei. Sigo as passadas da minha sombra que inadvertidamente caminha à minha fente antecipando todos os meus movimentos. Tudo é mais fácil quando temos uma sombra, tudo é mais fácil quando somos só nós, e a nossa sombra. Hoje tenho sombra. Hoje é um dia feliz, amanhã espero ao acordar, vê-la sentada ao meu lado a contemplar-me, qual deusa do Olimpo no seu trono branco a coroar heróis com coroas de folha de oliveira. E eu fujo da Terra, Como se não houvesse mais Fogo Como se não houvesse mais Ar Como se não houvesse mais Água Como se não houvesses mais Tu. Obrigada, por saber que um dia pararei de fugir.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Walk the line (from London)

"My momma told me so: Son, don't you mess around with guns! But I shot a man in Reno just to watch him die!" J Cash Walk the line e definitivamente um filme a ver por aqueles que conhecem a musica de Cash e por aqueles que nao conhecem e ainda querem ver bom cinema, como ha muito nao acontece. Quem me conhece ja sabe que eu so podia tecer elogios a um filme onde entra o insuperavel Joaquin Phoenix, e verdade eu amo o trabalho deste rapaz e este filme vem apenas consolidar ainda mais a minha opiniao e a dos criticos que este ano o elegeram um dos 5 melhores actores de Hollywwod do ano de 2005. Aqueles que me conhecem sabem ainda que prefiro que ele nao ganhe o premio pois nao o quero ver a chafurdar na lama como os ultimos vencedores, dos ultimos anos. E que sinceramente dou mais valor a nomeacao em si do que a estatueta na mao. Voltando a pelicula, o filme e a simbiose perfeita entre dedicacao de Mangold, Witherspoon e Phoenix, os desempenhos de ambos sao brilhantes bem como as suas interpretacoes das musicas. E não é que os putos até cantam, já sei, já sei, com muito trabalhinho e arranjos vocais a melhorar a coisa, mas convenhamos...Phoenix e Witherspoon aprenderam bem a lição. Walk the line conta uma estoria. Ok e um biopic (que esta cada vez mais na moda), mas ha amor na estoria do filme, um relato de uma epoca, o renascer de um heroi, um explicar dos acontecimentos, o filme em sim digamos que "light", nao ha nada que fira sensibilidades, e se calhar esse e o unico dedo a apontar, o facto de se querer ver um Cash hiper revoltoso e agressivo, tal como a sua musica!! Cash e uma figura como poucas, pela sua individualidade e pela su musica, pelas suas letras e pela sua presenca em palco. Esta tudo no filme, agora e so ver e deliciar-se! "Love is a burning thing! I fell in love in a ring of fire!" James Mangold esforçou-se por contar uma estoria digna de ser contada, foram cerca de 10 anos de pesquisa sobre Cash que sao passados para a tela a transbordar de amor por todos os lados. O guarda roupa do filme é digno de nota, bem como a banda sonora que claro so podia ficar a cargo do Man in black em si (nao fosse a venda da banda sonora pagar quase os cutos de producao do filme), música essa que nao deixa ninguem indiferente, musica que essa que caiu talvez no esquecimento e é agora relancada para a ribalta; as letras sao altamente tocantes e ate mesmo perturbadoras, tudo o que se quer no momento! O climax do filme e condensado numa cena incrivel em que Cash faz o seu comeback em Folsom prison depois de tempos dificeis, cenas essa que e deixada no ar logo no incio do filme...mais uma ode a Mangold, pela sua inteligencia em repartir os acontecimentos e em seguida estes nos serem oferecidos espaçada e inteligentemente!! Por favor vejam o filme, apreciei cada minuto, cada segundo, deixem-se levar e ofuscar, porque somos ofuscados por filmes como estes!! (Mas torçam antes por Philip Seymour Hoffman, ele sim deve ganhar o oscar por melhor actor este ano!! ) Peco desculpa pela falta de acentos e que o teclado british nao os tem, pura e simplesmente(em manutenção...)!

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Brokeback mountain

Cada dia sem gozo não foi teu (Dia em que não gozaste não foi teu) Foi só durares nele.Quanto vivas Sem que o gozes, não vives. Odes, Ricardo Reis Como é que se pode invadir um espaço, se nunca se deixou de fazer parte dele? A estória de Brokeback mountain é simplesmente umas das mais belas estórias de Amor no mundo do cinema.Um amor tão elevado como uma montanha, tão branco como a neve tão secreto, e tão mudo como todos os amores deveriam ser. Mais que sentimentos Brokeback é verdade acima de tudo, uma verdade que os outros não entendem porque não podem ou simplesmente porque não querem, ..." mas nós vivemos na prisão, e em cujas vidas o único acontecimento é a tristeza, temos de medir o tempo pelas palpitações da dor e pela recordação dos momentos amargos."...já dizia Oscar Wilde em De Profundis. O Amor não é nem nunca foi a plenitude da felicidade. O amor é violento quando sentido, é arrebatador, é consumidor...manipulador, é dor, é ausência...é carne, segredo, paz inalcancável, isso é o Amor.É o saber que nunca será como se deseja, por quem se deseja, porque quando o é quer-se fugaz para que possa ser todos apreciado no mínimo tempo/espaço possível.É fazer juras a quem já não está para nos ouvir, é sentir o seu cheiro na sua ausência e chorar para que se prolongue a sua existência. Não me vou alongar sobre a obra cinematográfica em si, fui de tal maneira envenenada pela sua beleza que tudo à minha volta perdeu quelquer significado e sinto-me incapaz de reproduzir qualquer momento ou carcaterística da obra de arte..raras são as vezes que isto acontece, infelizmente. Acoselho apenas a todos que o vejam. Não percam a oportunidade de perceber finalmente o que o Amor é. Fazem-se tantos filmes , tantos romances trabalhados em série, tantas canções lamechas e tão poucos Brokeback(s). Finalmente faz-se justiça a essa palavra tão banal, sem que por uma única vez que seja, se profira a frase mais célebre do mundo: "I love you.", fica portanto provado que as palvras são nada e o que elas dizem tudo. Vejam e percebam.

sábado, fevereiro 11, 2006

Munich e a vontade de chegar aos oscares

Im nin'alu Dal thae na di vim Dal thae na di vim Dal thae ma di rom Staring up into the heavens In this hell that binds your hands Will you sacrifice your comfort? Make your way in a foreign land? Whrestle with your darkness Angels call your name Can you hear what the're saying? Will you ever be the same? Isaac Para variar spielberg faz uma filme sobre a família. Sim disse famíla e não sobre a questão palestiniana e sobre a guerra que os Eua travam desde sempre com vista ao fim do terrorismo, um contrasenso eu sei... não será antes o desejo dos Eua de se tornarem num género de nova "terra prometida"?. Não quererão eles ser a nova jersusálem de outros tempos, até onde é bom ser patriota...patriotismo náo será mais que a germinação de um vírus chamado nacionalismo.... E quando me refiro a família, refiro-me àquilo a que chamamos de lar, pátria, coração, bandeira, sangue...pó... Não se pode dizer que Munich seja um filme de interpretações como Lista de Schindler, nem tão pouco um filme "à la Spielberg", com tudo a que temos de direito, não é mesmo. Eric Bana ( por muito que este actor me agrade) não convence...o ilustre Geoffrey Rush não desmotiva, funcionando não como a consciência do assassino com causa justa ( algo que nunca entenderei), mas mais como a voz da pátria que teima em exigir algo que jamais deveria ser exigível...carne humana. Como secundário, Daniel Craig resulta bem, uma personagem algo estereotipada como convém a Spielberg e ao grupo em questão, mas está sem dúvida à altura- o nosso nouveux Bond. A acção de Munich é lenta..diria eu mesmo muito lenta, é uma viagem pela Europa à procura dos senhores da acção terrorista, enquanto o grupo pelo qual torcemos (ou não) se mantém unido, e vive cada dia na esperança de que tudo termine pelo melhor...como se fosse possível, com muita jantarada à mistura, o drama familiar da praxe, e a vontade de acordar em casa. A banda sonora é para variar do majestoso John Williams, que eleva Munich a um nível compensante mas não profundamente satisfatório, que nos faz sorrir com as alusões musicais è época em questão, músicas de sempre..a música sempre a música. O realizador já sabemos que há muito que queria levar o assunto à tela, mas foi sem dúvida um erro dirigi-lo com um único objectivo: o dos Óscares- em tempo record, com uma pré e pró produção relâmpago (foi o que me constou), Munich tem falhas detectáveis até pelo olho menos treinado...e refiro-me ao meu, porque nem sempre reparo...mas...enquanto chove lá fora, sair de casa já molhado é gozar com os 5 euros e 20 centimos que nos custam os olhos da cara. Queria muito fazer desta minha visão do filme algo mais poético, mas não consigo, revela-se muito difícil, primeiro porque não me agradou de todo e segundo porque para variar é mostrada uma visão das coisas que não é nem pode ser a visão imparcial dos factos, mas vá lá desta vez não é a história de um americano a salvar o dia, porque não dava mesmo claro... Nomeaação a melhor filme...vai-se lá entender, o Spielberg que me perdoe porque admiro-o abbastaza bene, mas até os grandes se esquecem de coisas no momento da condenação política, mesmo quando esta é usada a nível particular de modo a expressar o mundial...aquele que volta vai sempre voltar...e quem mata, morre muito antes de premir o gatilho. E não esquecer que pappa was a Rolling stone!!

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

O outro lado do mundo

É possível chover de dentro de nós? Acredito que sim, tenho chovido nos últimos dias, uma chuva fria e ácida, irreflectida mas consciente, se é que é possível tal barbaridade. Por vezes preferia não ser consciente, não ser chamada à atenção à razão, habitar o meu mundo, o mundo perfeito o tal das maravilhas eternas. Mas depois penso... e depois? Se as maravilhas fossem sempre presentes como poderia eu dar-lhes algum valor...só temos falta daquilo quando "aquilo" começa a ser "aquilo" porque nunca foi "isto", nunca foi atingindo ou se o foi, efémera e inconscientemente, e vaziamente desfrutado, graciosamnete dispensado. No fim é tarde de mais, não há retorno possível, não há a quem pedir perdão, nem a nós mesmos, porque amanhã somos outros e o que fica são as memórias trazidas pelo tempo...porque o tempo é a única coisa que temos de genuinamente, esse é maior que Deus, mais implacável, mais ditador, mais e Deus nada. Estou segura de que Deus não existe, não pode, não quero. Estou segura de que Deus é uma manifestação do tempo, que demora a passar e que só preciso quando preciso, porque o tempo de nada precisa e nunca termina. Deus é esquecimento, é entrega a algo de que não me lembro, é uma ponte que me leva ao outro lado do mundo, é uma janela aberta que nunca fecho na esperança de ver o Sol, sempre. Não preciso de Deus para ver o Sol, não preciso de Deus, não preciso de Deus para lembrar, não preciso de querer, não quero precisar, e a vontade é minha, não preciso de Deus para ver as horas a passar, não preciso de Deus, preciso de tempo. Tempo para ver o outro lado do mundo.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

From another point of view

Trata-se de Sorte! O novíssimo filme de Woody Allen é um filme sobre Amor...acho que não se pode chamar bem amor ao que asistimos, mas convenhamos, que filme do Woody Allen trata o Amor puro? Pois eu também não me recordo. É que o que acontece para o nosso amigo Woody é que o que ele chama de Amor nos trailers não é senão Fascínio. O fascínio que alguém exerce sobre o outro, a igualdade que o outro nos transmite por ser tão diferente, o equílibrio por nos recoradr de onde vimos, enfim não é Amor. Matchpoint surpreendeu-me por se vislumbrar pouco Woody na tela. Primeiro porque desta vez ele não é a personagem perdida na ponta do pião lançado por uma mulher que o desarma, segundamente porque podemos dizer que este filme é noir, e não filme noir...se me é permitida a expressão. Não consigo enquadrá-la em nada do que já vi deste realizador, apenas no que toca aos laivos de imprevisiblidade levado a cabo pelos estupendos Jonathan Rhys-Meyers e Scarlett Joansson (a menina menos hollywoodesca que tenho em mente, por ser dotadíssima de talento e beleza, e convicta nas palvaras "You're a liar!!!", e por isso tão invejada ...podem invejar desde que não sejam invejosos). A imprevisibilidade chega também das personagens tão banais na nossa sociedade e pelas sitiações que desencadeiam. E é isto que eu adoro no filme, o não saber ao certo o que se segue...saber apenas que será algo simplesmente simples, que provoca o riso da plateia porque nada poderia ser menos apropriado... Assisti ao filme numa sala do Monumental, ou seja, nem sempre é um público fácil no que toca a americanadas e foi ouvir risos do início ao fim...não sei bem se pelo filme em si, ou por se reverem no anti-herói do filme, porque todos nós consciente ou inconscientemente já pensámos aquilo..."Era tão mais fácil se ela m*******!","Era tão mais fácil se eu tivesse aquilo!" e por aí fora. Matchpoint é como se diz no ínício, uma questão de Sorte ( ou aquilo a que muitos chama Destino...e para outros o seu fatalismo), é uma questão de querer aquilo que está mesmo ao lado pondo a perder aquilo que está dentro de portas, é uma questão de dinheiro, de poder, de persuasão, de sorrisos falsos, de caçadeiras com canos cortados, de de esperança, de espera, de Inglaterra, de promessas, de acasos, de música clássica, de branco, de beijos à chuva, de Arte, de chamadas furtivas, de casa com vista para o Big Ben, da vizinha do lado, é um caso de polícia, de sonhos premonitórios, é uma quaestão de Woody Allen. O filme é também um caso de "não está tudo bem!", é o que me parece pelo menos, a noção que tenho é que para o senhor quando estamos apaixonados a obra reflecte-nos e Matchpoint reflecte alguma amargura com a vida e com o amor pois claro. Mas que fazer quando somos ultrapassados e esmagados pela bola de neve que desce a colina branca a duzentos à hora?? Podemos simplesmente esperar que passe e no próximo Inverno como sabemos o que nos espera, já lá não voltamos!! Era bom não era?? Para o ano lá estamos de novo, com novo fogo, esmagados talvez por uma bola ainda maior e mais rápida, ou então recorremos à caçadeira de canos cortados...porque não?? Ou então optamos por uma partidinha de ténis e esperamos que a bola caia para o campo do jogador adversário, que também com sorte será muito melhor que nós e uma vez na vida não tenhamos que fazer tudo! Tenho dito.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Sala DeCinema

Quanto menos faz, menos o Homem quer realizar, como se se deixasse envolver num turbilhão de tédio e passividade,( porque um leva ao outro), culminando no pessimismo do ser e da espécie. É contra isto que eu luto todos os dias, nem que seja arrastando-me para uma sala escura e vazia de cinema onde me espera uma bobina gasta e pesadamente desenvolvida, cujas falhas na imagem me lembram o que é o cinema. Gosto disso. Fui há pouco levada pela corrente e não sei. Fui há pouco levada a ver algo de que gostei, não queria, não me apetecia...mas fui e hoje sou melhor. Não interessa que horas são, o relógio foi inventado para que me pudesse atrasar, tenho sono, travo uma luta sanguinárea com as minhas pálpebras,elas dominam as minhas pestanas e teimam em derrotá-las...mas elas não cedem...são como eu...levantam-se impunemente de bandeira hasteada e ânimo renovado e banhado pela lágrimas que não choro, porque não preciso, ainda. Ás vezes acho que as lágrimas não foram feitas para chorar mas para serem vistas...e eu dessas fujo, escondo-me: só quero chorar as minhas lágrimas e se possível sozinha, triste, feliz, parada, em movimento, em raiva calma e doce. A sala de cinema é o lugar ideal para o fazer, estou sozinha mas não estou, está escuro mas não está, reconheço todos mas não os conheço...que mais quero eu?? O filme é solidão, é um exercício solitário que orgulhosamente se impõe na minha vida. E eu gosto.

sábado, janeiro 07, 2006

Guerra

A Virgem com os anjos Adolphe William Bouguereau( 1825-1905) Sacrificar a plenitude e enfrentar os céus, fazendo do meu caminho uma estrada longíqua. E descortinar os véus da escuridão e ver os anjos que chamam pelosos corpos espalhados no chão ensaguentado, e por mim. Alguém escuta os murmúrios? Alguma vez seremos os mesmos? Recordar, recordar para não esquecer que a vida é uma árdua tarefa esmagadoramente compensadora. E encontrar uma porta aberta para o meu espírito quebrantado. Fechar os olhos na corrente salgada e mover os lábios para jamais falar, ver uma estrela que flutua do céu nas asas de uma Mãe adorada. E os Generais que vêem a queda sem a perceber e encerram as portas da liberdade não descobrindo o céu e os anjos e como eles se sentam e sustém a paz. É disto que se trata.

sábado, dezembro 31, 2005

Prece

Não me queria despedir deste importuno 2005 sem deixar mais umas palavras. Tenho a tendência para ficar algo nostálgica nas passagens de ano, acho que desde pequena. Não me lembro muito bem, ou talvez lembre e não queira partilhar isso com outro humano. Curiosamente dou comigo a pensar não no futuro...como era de esperar... mas no passado, na infância, na importância desmesurada que damos ao tempo ( ao tempo que já passou), porque o futuro esse é desejado num misto de esperança e felicidade envoltos em falsos clichés. Também hoje dei comigo a olhar as árvores húmidas das gotas de água que teimavam em cair do céu e envolver tudo o que por elas fosse tocado.E lembrei-me... ...lembrei-me que li outrora palavras da Florbela Espanca que diziam que as árvores assemelhavam-se a mãos em posição de prece em direcção a Deus. Sorri ao ler, e reti na minha confusamente clara memória esta analogia. Não sei ao certo se todos terão a mesma imagem que ela, mas lembrei-me... e é tão bom lembrar, mas será que me lembro convenientemente, será que não estou a deturpar as palavras dessa sábia?? É melhor parar. Vou abandonar por hoje as palavras, vou guardá-las na minha gaveta mágica e deixá-la entreaberta, não vá a minha alma precisar de consolo literário. Vou rir de noite, recordar velhas imagens ( aquelas que não nos abandonam nunca, e que vemos mais quando fechamos os olhos), deliciar-me com o aroma festivo da noite, o brilho a incendiar o céu naquele fogo multicolor, a família a desejar de mil e um modos a felicidades daqueles que por eles são amados...acho que é daqui que vem a minha nostalgia na despedida do velho ano ( que é velho porque esteve connosco durante trezentos e sessenta e cinco dias consecutivos). Agora, neste momento fiquei sem palavras...e continuo a escrever, a sensação é incrível, escrever sem guia, sem ponteiro na mente, compulsiva e freneticamente...acabo de me lembrar de duas, três coisas, não me quero esquecer de as escrever, sinto a minha mente a querer voar para longe... Primeiro (e peço desculpa se nada disto estiver a fazer sentido), se quando fechamos os olhos continuamos a ver, será que quando morremos e o espiríto( quero acreditar nele) continua a respirar, será que continuo a ver...eu quero ver quando morrer, quero ver as árvores em posição de prece mas não a Deus, não quero pedir nada a Deus, pelo menos uma vez na vida. Mas pedir o quê? A quem se não o fizer a Deus? As ovelhas vão para o paraíso e os carneiros vão para o Inferno. From Cake (ainda não faz sentido? Não era essa a intenção)