quinta-feira, janeiro 26, 2006

From another point of view

Trata-se de Sorte! O novíssimo filme de Woody Allen é um filme sobre Amor...acho que não se pode chamar bem amor ao que asistimos, mas convenhamos, que filme do Woody Allen trata o Amor puro? Pois eu também não me recordo. É que o que acontece para o nosso amigo Woody é que o que ele chama de Amor nos trailers não é senão Fascínio. O fascínio que alguém exerce sobre o outro, a igualdade que o outro nos transmite por ser tão diferente, o equílibrio por nos recoradr de onde vimos, enfim não é Amor. Matchpoint surpreendeu-me por se vislumbrar pouco Woody na tela. Primeiro porque desta vez ele não é a personagem perdida na ponta do pião lançado por uma mulher que o desarma, segundamente porque podemos dizer que este filme é noir, e não filme noir...se me é permitida a expressão. Não consigo enquadrá-la em nada do que já vi deste realizador, apenas no que toca aos laivos de imprevisiblidade levado a cabo pelos estupendos Jonathan Rhys-Meyers e Scarlett Joansson (a menina menos hollywoodesca que tenho em mente, por ser dotadíssima de talento e beleza, e convicta nas palvaras "You're a liar!!!", e por isso tão invejada ...podem invejar desde que não sejam invejosos). A imprevisibilidade chega também das personagens tão banais na nossa sociedade e pelas sitiações que desencadeiam. E é isto que eu adoro no filme, o não saber ao certo o que se segue...saber apenas que será algo simplesmente simples, que provoca o riso da plateia porque nada poderia ser menos apropriado... Assisti ao filme numa sala do Monumental, ou seja, nem sempre é um público fácil no que toca a americanadas e foi ouvir risos do início ao fim...não sei bem se pelo filme em si, ou por se reverem no anti-herói do filme, porque todos nós consciente ou inconscientemente já pensámos aquilo..."Era tão mais fácil se ela m*******!","Era tão mais fácil se eu tivesse aquilo!" e por aí fora. Matchpoint é como se diz no ínício, uma questão de Sorte ( ou aquilo a que muitos chama Destino...e para outros o seu fatalismo), é uma questão de querer aquilo que está mesmo ao lado pondo a perder aquilo que está dentro de portas, é uma questão de dinheiro, de poder, de persuasão, de sorrisos falsos, de caçadeiras com canos cortados, de de esperança, de espera, de Inglaterra, de promessas, de acasos, de música clássica, de branco, de beijos à chuva, de Arte, de chamadas furtivas, de casa com vista para o Big Ben, da vizinha do lado, é um caso de polícia, de sonhos premonitórios, é uma quaestão de Woody Allen. O filme é também um caso de "não está tudo bem!", é o que me parece pelo menos, a noção que tenho é que para o senhor quando estamos apaixonados a obra reflecte-nos e Matchpoint reflecte alguma amargura com a vida e com o amor pois claro. Mas que fazer quando somos ultrapassados e esmagados pela bola de neve que desce a colina branca a duzentos à hora?? Podemos simplesmente esperar que passe e no próximo Inverno como sabemos o que nos espera, já lá não voltamos!! Era bom não era?? Para o ano lá estamos de novo, com novo fogo, esmagados talvez por uma bola ainda maior e mais rápida, ou então recorremos à caçadeira de canos cortados...porque não?? Ou então optamos por uma partidinha de ténis e esperamos que a bola caia para o campo do jogador adversário, que também com sorte será muito melhor que nós e uma vez na vida não tenhamos que fazer tudo! Tenho dito.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Sala DeCinema

Quanto menos faz, menos o Homem quer realizar, como se se deixasse envolver num turbilhão de tédio e passividade,( porque um leva ao outro), culminando no pessimismo do ser e da espécie. É contra isto que eu luto todos os dias, nem que seja arrastando-me para uma sala escura e vazia de cinema onde me espera uma bobina gasta e pesadamente desenvolvida, cujas falhas na imagem me lembram o que é o cinema. Gosto disso. Fui há pouco levada pela corrente e não sei. Fui há pouco levada a ver algo de que gostei, não queria, não me apetecia...mas fui e hoje sou melhor. Não interessa que horas são, o relógio foi inventado para que me pudesse atrasar, tenho sono, travo uma luta sanguinárea com as minhas pálpebras,elas dominam as minhas pestanas e teimam em derrotá-las...mas elas não cedem...são como eu...levantam-se impunemente de bandeira hasteada e ânimo renovado e banhado pela lágrimas que não choro, porque não preciso, ainda. Ás vezes acho que as lágrimas não foram feitas para chorar mas para serem vistas...e eu dessas fujo, escondo-me: só quero chorar as minhas lágrimas e se possível sozinha, triste, feliz, parada, em movimento, em raiva calma e doce. A sala de cinema é o lugar ideal para o fazer, estou sozinha mas não estou, está escuro mas não está, reconheço todos mas não os conheço...que mais quero eu?? O filme é solidão, é um exercício solitário que orgulhosamente se impõe na minha vida. E eu gosto.

sábado, janeiro 07, 2006

Guerra

A Virgem com os anjos Adolphe William Bouguereau( 1825-1905) Sacrificar a plenitude e enfrentar os céus, fazendo do meu caminho uma estrada longíqua. E descortinar os véus da escuridão e ver os anjos que chamam pelosos corpos espalhados no chão ensaguentado, e por mim. Alguém escuta os murmúrios? Alguma vez seremos os mesmos? Recordar, recordar para não esquecer que a vida é uma árdua tarefa esmagadoramente compensadora. E encontrar uma porta aberta para o meu espírito quebrantado. Fechar os olhos na corrente salgada e mover os lábios para jamais falar, ver uma estrela que flutua do céu nas asas de uma Mãe adorada. E os Generais que vêem a queda sem a perceber e encerram as portas da liberdade não descobrindo o céu e os anjos e como eles se sentam e sustém a paz. É disto que se trata.

sábado, dezembro 31, 2005

Prece

Não me queria despedir deste importuno 2005 sem deixar mais umas palavras. Tenho a tendência para ficar algo nostálgica nas passagens de ano, acho que desde pequena. Não me lembro muito bem, ou talvez lembre e não queira partilhar isso com outro humano. Curiosamente dou comigo a pensar não no futuro...como era de esperar... mas no passado, na infância, na importância desmesurada que damos ao tempo ( ao tempo que já passou), porque o futuro esse é desejado num misto de esperança e felicidade envoltos em falsos clichés. Também hoje dei comigo a olhar as árvores húmidas das gotas de água que teimavam em cair do céu e envolver tudo o que por elas fosse tocado.E lembrei-me... ...lembrei-me que li outrora palavras da Florbela Espanca que diziam que as árvores assemelhavam-se a mãos em posição de prece em direcção a Deus. Sorri ao ler, e reti na minha confusamente clara memória esta analogia. Não sei ao certo se todos terão a mesma imagem que ela, mas lembrei-me... e é tão bom lembrar, mas será que me lembro convenientemente, será que não estou a deturpar as palavras dessa sábia?? É melhor parar. Vou abandonar por hoje as palavras, vou guardá-las na minha gaveta mágica e deixá-la entreaberta, não vá a minha alma precisar de consolo literário. Vou rir de noite, recordar velhas imagens ( aquelas que não nos abandonam nunca, e que vemos mais quando fechamos os olhos), deliciar-me com o aroma festivo da noite, o brilho a incendiar o céu naquele fogo multicolor, a família a desejar de mil e um modos a felicidades daqueles que por eles são amados...acho que é daqui que vem a minha nostalgia na despedida do velho ano ( que é velho porque esteve connosco durante trezentos e sessenta e cinco dias consecutivos). Agora, neste momento fiquei sem palavras...e continuo a escrever, a sensação é incrível, escrever sem guia, sem ponteiro na mente, compulsiva e freneticamente...acabo de me lembrar de duas, três coisas, não me quero esquecer de as escrever, sinto a minha mente a querer voar para longe... Primeiro (e peço desculpa se nada disto estiver a fazer sentido), se quando fechamos os olhos continuamos a ver, será que quando morremos e o espiríto( quero acreditar nele) continua a respirar, será que continuo a ver...eu quero ver quando morrer, quero ver as árvores em posição de prece mas não a Deus, não quero pedir nada a Deus, pelo menos uma vez na vida. Mas pedir o quê? A quem se não o fizer a Deus? As ovelhas vão para o paraíso e os carneiros vão para o Inferno. From Cake (ainda não faz sentido? Não era essa a intenção)

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Eça é que é Eça ( by Halley)

Bem sei que felizmente o meu espaço é reservado a cinema, mas felizmente também tenho outra grande paixão...um senhor chamado Eça de Queirós, que escreveu há muito uma carta a alguém sobre o Natal. Acho incrível como este génio da literatura ( e por isso génio) mantém-se tão fresco, tão único, tão fascinante, tão verdadeiro e tão cruelmente lúcido. Vou transcrever parte da carta (que eu desejaria que tivesse sido escrita para mim), espero que o que eu vou fazer não se revele crime: " O Natal, a grande festa doméstica da Inglaterra(...)As desgraças públicas nunca impedem que os cidadãos jantem com apetite: e misérias da pátria, enquanto não são tangíveis e se não apresentam sob a forma flamejante de obuses rebentando numa cidade sitiada, não tirarão jamais o sono do patriota(...). O que estragou o Natal foi simplesmente a falta de neve(...), com um sol(...),deslizando timidamente sobre uma imensa peça de seda azul desbotada;(...)Um desapontamento nacional!(...) O assunto não varia na paisagem repetida: é sempre a mesma entrada de um parque, de aparência feudal, por vésperas de Natal, antes da meia- noite;(...) e a perder de vista tudo está coberto da neve caída, uma neve branca, fofa, alta, que faz nos campos um grande silêncio (...) felizes aqueles para quem essas portas difíceis se abrem.(...) - Merry Christmas! Merry Christamas! (...) Sob a chaminé estala e dança a grande fogueira do Natal: a sua luz rica faz parecer de ouro os cabelos louros, e de prata as barbas brancas.(...) E o piano não se cala nestas noites! É alguma velha canção inglesa, em que se fala de torneios e cavaleiros, ou uma dança da Escócia, que se baila com o gentil cerimonial do passado(...) as crianças(...) correm, cantam, riem vão a cada momento espreitar os ponteiros do relógio monumental, porque à meia noite chega o Santo Claus, (...) e que já a esa hora vem caminhando pela neve da estrada.(...) Amável santo Claus! Por um tempo tão frio, naquela idade, deixar a cabana de algodão que ele habita no País da Legenda, e vir por sobre ondas do mar e ramagens de florestas trazer a estes bebés o seu Natal!(...) O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade(...) Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente(...) as bochechas reluzem-lhe de escralates, as barbas, parecem crescer-lhe, e ali está bonacheirão, com a importância de um deus tutelar e amado, como a encarnação sacramental da alegria doméstica.(...) E as pobres crianças cantam as loas: e elas sabem que não serão esquecidas(...) porque Santo laus é um democrata ,e , se enche os seus alforges para os ricos, gosta sobretudo de os ver esvaziados nos regaço dos pobres. Tudo isto é encantador. Mas tire-se-lhe a neve, e fica tudo estragado. O Natal com uma lua cor de manteiga, a bater numa terra tépida de Primavera, torna-se apenas uma data no calendário.(...) Resta a consolação de que os pobres tiveram menos frio.(...) Nem eu sei realmente como a ceia faustosa possa saber bem - quando se considere que lá fora há quem regele(...). É justamente nestas horas de festa íntima, quando pára por um momento o furioso galope do nosso egoísmo - que a alma se abre a sentimentos melhores de fraternidade e de simpatia universal, e que a consciência da miséria em que se debatem tantos milhares de criaturas volta com uma margura maior(...) - para que se chegue à fácil conclusão que isto é um mundo abominável. Deste sentimento nascem algumas caridades de Natal, mas findas as consoadas, o egoísmo parte à desfilada, ninguém torna amis a pensar nos pobres...) e a miséria continua a gemer ao seu canto!(...) Jesus(...) ameaçou-nos, que teríamos sempre pobres entre nós. Tem-se procurado com revoluções sucessivas fazre falhar esta sinistra profecia - mas as revoluções passam e os pobres ficam.(...) Não é possível mudar. O esforço humano consegue, quando muito, converter um prolterariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão; haverá sempre pobres entre nós. Donde se prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu.(...) Nos dois ou três primeiros mil anos de existência trepámos a uma certa altura de civilização, mas depois temos vindo rolando para baixo numa camabalhota secular.(...) Já não falo dos gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante génio para compor um coro de Ésquilo ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitectura somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar com Lúculo; agitavam-se em atenas ou Roma mais ideais superiores num só dia do que nós invetámos num século,(...) e o escravo, essa miséria da antiguidade, não era mais desgraçado do que o proletário moderno.(...) Deus tem só uma medida a tomar com esta humanidade inútil: afogá-la num dilúvio.(...) sem repetir a fatal indulgência que o levou a poupar Noé; se não fosse o esgoísmo senil desse patriarca borracho, que queria continuar a viver, para continuar a saber, nós hoje gozaríamos a felicidade inefável de não sermos..." ( De Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres) Um mágico Natal a todos os que lerem, dias felizes com efeito.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

A minha mãe mudou a posição das coisas da sala

The river of light A minha mãe mudou a posição das coisas da sala, é como se me tivesse mudado também, e eu gosto, mas não mudei verdadeiramente, as coisas são as mesmas, eu é que talvez tenha mudado porque estou consciente de que sou alterada todos os dias permanecendo sempre . Ao acordar, acordo sempre outra, alguém feliz ao acordar, e não sei o porquê. Essa felicidade vai-se desvanecendo ao longo do dia, culminando com a tristeza da noite, uma tristeza interesseira e antecipadora de uma felicidade plena que aguardo laboriosamente, a felicidade da manhã (aquela de há pouco). A minha mãe mudou a posição das coisas da sala. Agora há uma divisão aparente entre "jantar" e "de estar", e eu gosto. Gosto principalmente do facto do meu adorado sofá azul (aquele que depois de 15 minutos nos oferece uma ligeira e languida dor nas costas) ficar de fronte à janela. ... A janela que fica virada para Norte, o Norte que é tocado pelo campo, o campo que é beijado pelo verde, o verde que é lavado pela água da chuva, a chuva que vejo cair do céu como lágrimas de um Deus velho e cansado, um Deus que eu não vejo, não sinto, não falo, que não dá por saber que vai tirar, um Eu que crê na beleza da vida e na tristeza do Homem, um Homem que respira o ar compassado e necessário, todos os dias, até que o último chegue sem ele saber, porque o Homem nunca sabe e feliz é aquele que sabe que não sabe.

domingo, dezembro 18, 2005

Be careful with King

...It was the beauty that killed the beast...ou foi o facto de haver muito dinheiro para ideias pequenas?? E perguntam vocês: "Mas não é isso que resulta em Hollywood?" e eu respondo: "De facto é. Mas não quando se fala de Peter Jackson.". DESILUSÃO. Era essa a palavra marcada na minha testa quando saí da sala de cinema, exausta de três horas longas e devastadoramente massivas de King Kong. Sei perfeitamente quando um filme não me agrada, basta a caminho de casa eu não pensar nele uma única vez, foi o que me aconteceu. Só me lembrei do Kong agora que quero escrever sobre ele. Bem sei que o filme é um remake, mas a verdade é que continuo a achar que há algo que não resulta. Tudo acontece neste filme, lutas, amor( ou qualquer coisa que se compare), gritos (muitos), então e novidades?? O Kong é a novidade, e o polegar para cima do filme, está fantasticamente criado, e mais uma vez fizeram um bom trabalho no que toca a a gerar expressões facias naquele grande ser. Lembram-se de Gollum?? Devem ter sido os mesmo artistas, porque podemos sentir com o Kong o amor pela Ann, o isolamento na ilha e o sofrimento em plena New York, que diga-se de passagem está muito bem recriada. Acção há muita, pena é que as cenas na selva se prolonguem por mais de duas horas repetitivas, onde vemos não um, não dois, mas três T- rex que lutam com Kong, morcegos gigantes que também lutam com Kong, mais os homens do navio que levam a equipa nas filmagens que também lutam com ele, e pensamos nós: "Mas o Kong não tem amigos?", claro que tem! Um: a Ann interpretada por Naomi Watts, uma actriz apaixonada recentemente, alguém que sente que lhe falta ver, ter algo na sua vida e não sabe o que é...será o gorila?? Faz isto sentido?? É isto que eu não gosto em King Kong, não me parece real, as personagens são construídas pela metade, ficamos sem saber ao certo quem é Jimmy o mais novo marinheiro do navio, aliás existem muitas personagens que se perdem pelo caminho, ou porque sã0 comidas por algum ser fantástico da selva ou porque simplesmente desaparecem na espuma do guião. Peter Jackson parece repetir uma fórmula que não resulta a meu ver, 3 horas para Senhor do Aneis é totalmente compreensível mas não par King Kong, seres fantásticos também não se percebem muito bem, os seres humanos da ilha parecem soldados de Sauron um pouco mais velhos, parece até que reutilizaram cenários da trilogia, e neste caso há algo mais que se vira contra o feiticeiro sem ser o seu próprio feitiço, são os efeitos especias que são excessivos e que acabam por retirar grande parte da verosimilhança da obra, isto porque ainda não atingiram a perfeição esperada, e o público espera mais e não estabilidade, Jackson já devia saber mais depois de 9 horas de obra de arte( sem contar com cenas adicionais). Interpretação, não posso deixar de pensar em Jack Black que sobressai, ele é irritavelmente irresistível e penasativamnet apaixonante, não pr ser bonito...que não é, não por ser um herói, que também não é mas por ser o vilão ganacioso, símbolo da indústria cinematográfica da época que tudo fazia,não olhando a vidas humanas para atingir o seu sonho, tudo isto enquadrado numa New York em plena depressão, com pobreza por todos os lados, na qual os valores se perdem e o amor parece não ter lugar, a não ser no topo do Empire State building no qual o pôr do sol pode ser tão bonito como o da selva, porque o sol é o mesmo, o sentimento também, o que muda é que aqui as pessoas divertem-se com o sofrimento dos outros e só pagam 25 centimos por isso. Vejamos depois qual o veredicto dos Oscares.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

E o Natal dos hospitais??

E pensemos no Natal... Quem não gosta de pensar no Natal?? Passamos todo o santo ano a pensar no Natal, os familiares que chegam carregados de coisinhas da Terra, os primos que não víamos há que tempos, os irmãos que se reunem depois da grande discussão por causa da fiação do carro, a papinha deliciosa que as nossas mães cozinham. A fartura à mesa, a árvore decorada com 1 mês de antecedência, o presépio ( que se for como o meu é composto por: uma ovelha, um burro, uma nossa senhora branca, um José que é nada mais nada menos que um rei mago e um mennino Jesus chinês - chamo a isto Globalização) e todas aquelas coisas bonitinhas, pequeninas e rechochundinhas!!! Mas o Natal são dois dias e a vida três!! E culpem-me mas eu gosto do Natal, não me venham com as estórioas do consumismo, e da hipocrisia e afins. Sinceramente acho que o Natal é das poucas coisas boas criadas pela nossa religião. Tudo bem as pessoas não se lembram dos mendigos no resto do ano, não se lembram da fome em África nem dos milhões de famílias vítimas de guerras que não as suas e que vivem em perfeito estado de miséria. Mas pelo menos lembram-se no Natal e é para isso que ele serve, para que as pessoas muito más ou simplesmete aquelas mais "esquecidas" não o sejam pelo menos uma vez em todo o ano. Imaginem agora a tristeza frustrante que seria um ano sem Natal, sem o já tão repassado Natal dos hospitais ou episódio do Mr Bean and the Christmas na RtP 1?? O natal dos hospitais é um marco na nossa televisão, ver toda aquela alegria nos doentes acamados e ligados ao soro a ponto de quase apanahrem uma pneumonia só para verem o Marco Paulo!!! É Natal é a tradição...e o nosso gosto em ver que existem sempre uns piores que nós, o Natal lembra-nos isso faz-nos também recordar de que o mesmo nos pode acontecer a nós, por isso o melhor é sermos de facto bons un para os outros. Até o Mr Bean que é o britânico mais triste alguma vez criado em televisão ama o Natal e nós pobres mas sortudos mortais rimos da sua solidão::: o Mr Bean é aquele senhor que envia cartões de Natal a si próprio, oferece olhos ao seu único amigo e recebe uma única prenda de Natal: o seu parzinho de meias!! Não é tudo isto triste?? E não ficamos nós logo com muita vontade de festejar a época, de dar, de sorrir, de comer, de chorar, de recordar, de ajudar?? Que seja pelo menos uma vez no ano todo. Que seja pelo menos no Natal. Párem de dizer que o Natal é comércio, porque os senhores que vendem na rua, não jantavam se não fosse o nosso Natal consumista...se pensarmos assim já não somos tão maus pois não??

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Escravidão

"...Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele..." José Luis Peixoto, Morreste-me E não é reconfortante imaginar que a noite pinta um quadro para apreciar pela manhã? E não é apaziguador saber que o frio que sentimos nos relembra o quanto estamos vivos? E não é angustiante pensar que nunca penso nisto? Hoje fazia frio de manhã e eu pensei. Ao fazer o meu caminho habitual, parei por um instante para admirar os galhos das árvores que choravam lágrimas cristalizadas sem sal ... como me comprazi na dor daqueles seres, a minha alegria é a sua tristeza. Olhei a erva orvalhada de uma brancura esverdeada - pura magia! Senti o vento nos olhos e nos lábios que fechei ao mesmo tempo, esse vento cortante e arrepiante, esse vento sussurrador de silêncios, pareço estar a ouvi-lo agora...................................................................................................................... (Estranhamente) esta tela que devia ser pintada um dia nunca desaparece, mas eu só a vejo, a vi, hoje, ontem , amanhã...E quero lá voltar. Quero sentar-me na relva. Ouvir o que o vento tem para me contar. Perceber como é que os pássaros ensaiam aquelas coreografias voadoras por entre as nuvens. Ai! Como quero voar para nunca mais voltar. Porque eu volto todos os dias. Sigo o meu caminho sem medo, porque ele espera por mim numa doce indolência. A noite, essa deusa agora exclusiva dos românticos, foi outrora minha escrava, hoje, ontem, amanhã, a escrava dos meus sonhos, a minha escrava fazedora de paz que me abandonou, deixando-me apenas a paisagem da manhã, os seus restos mortais, como se a noite morresse todos os dias com o nascer do Sol. Amanhã volto seguramente.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Everything will change now!! (possíveis spoilers)

Regra número 1: Nunca gerar grandes expectativas relativamente a um filme ou a qualquer outra coisa que seja. Estejam cientes de que a nossa mente é demasiadamente grandiosa para se contentar com aquilo que a mentes dos outros são capazes de criar. Foi assim que na passada semana corri às salas de cinema para ver o novíssimo Harry Potter e o cálice de fogo, e claro desiludi-me. Acontece sempre com as adaptações ao cinema, lemos e sonhamos tão alto que depois na tela o sonho é esquartejado e ficamos com aquela leve impressão de que não foi exactamente aquilo que li!! Também não se pense que é tudo mau, não, pelo contrário, este é o melhor filme da saga ( também não era dificil fazer melhor). Faltam coisas como sempre, o pior para mim é sermos privados de ver o Harry a sofrer às mãos dos tios Dursley; os actores não estão maus, cresceram, individualizaram-se no grupo, não fosse só a pequena Hermione um pouco histérica demais para o meu gosto. Outra coisa que não entendo é como é que a relação de Harry com Dumbledore é uma coisa nos livros e nos filmes é algo tão fria e distante, tudo bem que os actores são ingleses mas é preciso calor humano, já que até este ponto da saga Dumbledore é o que de mais parecido com um pai que Harry tem (a relação com Sirius vem mudar isso), deviam pensar melhor nisso no próximo Harry Potter e Ordem de Fénix, o meu preferido depois do prisioneiro de Azkaban... Quem tiver pequenada watch out! este filme é muito mais dark que todos os outros, mais sombrio, o Voldemort é terrível e maravilhoso ao mesmo tempo Salve Ralph Fiennes, e Snape continua a ser o meu professor preferido embora Moody esteja estupendo e a sua caracterização muito bem conseguida com o seu olho louco!! Os cenários são desta vez menos "Hogwarts" que nos outros filmes, sendo muitas das cenas filmadas nos exterior, mas também muitos credíveis. Este filme inova , não tanto como em Azkaban mas de um modo ainda mais assustador. Quanto a Daniel Radcliffe, bem ele é Harry Potter, não há nada a fazer, era um erro fatal trocá-lo neste momento, por mal ou bem que faça vai ser sempre Harry, e por mim ele fá-lo muito bem( não estou a ser irónica). Esperemos que no próximo filme a sua faceta de adolescente em turbulência se manifeste positivamente e ele consiga a aclamação da crítica, que lhe vai fazendo falta, porque os milhões de libras ele já conquistou... Por isso já sabem, se são fãs e ainda não viram, vão com algumas reservas, para se poderem deliciar com a obra, que são 2 horas e tal bem empregues sim senhora. Só vos peço que limitem um pouco as vossas capacidades imaginativas, só para que não saiam da sala e digam :" Tanta coisa para isto!!" É tudo uma questão de perspectiva. Ah é verdade e não atendam telemóveis na sala!! Para mais visões interessantes de filmes visitem: http://www.zoomlight.blogspot.com

quinta-feira, novembro 17, 2005

Lembrar

E se eu disser que sou o que sinto? Se sinto medo, sou medo. Se sinto fome, sou fome. Se sinto amor, sou amor. Se não sinto, não sou? O mundo que crio é a minha realidade, os outros só a percebem quando nela entram, limitam-se a vaguear que nem simples sombras e : "Louca"- dizem eles, não sabendo eles que é mútua a loucura que se prolonga nessa estranha linha que nos une. São eles meras marionetas que manipulo com o meu fio de pesca e que retiro de cena no momento em que deixo de precisar deles, e se os mato não é por não gostar deles (pois gosto mais do que imaginam) é porque a sua ausência magnifica a minha gratidão, ou então é simplesmente porque já não fazem sentido, já me ultrapassaram. Faço-o sabendo na inconsciência das minhas premeditações que também eles criam, manipulam, riem, matam...matam-me. Será que não me podem deixar em paz? Claro que não. Porque eu nunca os deixo. Quero dormir tenho tanto sono. Não me lembro do início e foi há tão pouco tempo. Mas o tempo é corpo, porque é o corpo que sente o tempo, e o meu corpo quer descanso, quer não pensar na criação...esse monstro no armário da roupa velha do criador, esse dador de almas. Com isto pareço ser infeliz, mas não. Sou tão ou mais feliz que os outros, aquilo que me separa é o facto de eu me lembrar. Sinto felicidade, sou felicidade. Lembram-se?

sábado, novembro 12, 2005

China clowns

Based on an almost true story: " Hi. My name is John. I'm 50 years old and this is my first time here, in this therapy group. Well, when I married 25 years ago, I never imagined things would get so bad. I'm not speaking about my job, nor about my wife's chocolate cake, which is terrible, just for the record, nor about my kids who refused to to their Philosophy homework because they go against their Socialist ideas. No. What happened was that when I agreed to marry my present wife, I simply ignored those 18 giant pasteboard boxes that she brought home. The word "FRAGILE" written on them also in giant words didn't catch my attention at all, and those were the boxes that would change my life forever. Crystal glasses! I thought. ..it's always good to have glasses, and if they're crystal. Lucky me! Dead bodies?! Why not? At least I would have some fun...for a while. No. ORNAMENTS. My wife is a compulsive ornament collector, and I am the one who is here. Name the collection, she owns it. "The one hundred and one plates of the royal family", she bought them. "The seventy seven Russian dolls", she bought them. "The eighty eight handamade China clowns", well there's one to complete that collection, oh Thank You Lord! And she even has the nerve to say:" Honey, the kids love my collections!!" Yeah right! And I say to her: " Honey, "the kids" are seventeen, they're probably communists, so they must just love China clowns. And my friends, do you know who cleans the dust off those collections?That would be me. I'm the man who spends all his Sunday mornings cleaning the dust off those China clowns and whathever!!!.... Why on Earth didn't I pay attention to those 18 boxes when I had the time? Because if I had...if I had, they would have probably have...accidently fallen out of our window. Thank you all for listening. I feel much better now." Monolgue by LG

sábado, novembro 05, 2005

O inexistente Dalí nos EMA 2005

Foi no passado dia 3 que Portugal se fez passar por um dos "grandes", não é que o nosso país não o tente todos os dias, mas é que desta vez fê-lo à frente de todos, e pior do que isso, admitio-o em público. Acho muito triste quando figuras públicas vêm, portanto a público, dizer: " Portugal mostrou que também tem capacidades para esta e aquela"...ah tem?? Então se tem, vamos a fazer as 'ditas' coisas e não ficar à espera que os outros nos venham dizer "menino bonito" e afagar-nos o pêlo...tomemos as iniciativas, lutemos com as nossas armas, (eu sei que são poucas e made in China) mas pelo menos vamos...não tenhamos medo de nos agregar astuciosamente aos gigantes porque se eles o são devem-nos a nós ( "porque nos dominam", diz o inteligente), mas nós precisamos dos mestres, e só é grande aquele que excede o seu modelo já dizia Aristóteles no tempo em que os prémios MTV ainda exibiam artistas com máscaras em vez de operações plásticas tapadas com óculos Dior com lentes gigantescas...aqueles da moda!! Não foi um mau espectáculo, não senhor, mas pareceu-me como hei-de dizer...uma lágrima perdida na imensa chuva. Sim é isso. Os artistas, para variar, pareciam menos interessados em actuar do que em promover os seus últimos trabalhos...ouvi o título do cd da Shakira aí umas 10 vezes e o quanto ela estava contente em cá estar e como os portugueses são bonitos.... Espanquem-me! O espectáculo começou com uns largos minutos de atraso à la bonne mode du bon Portugal, e os prémios pareciam ser recebidos como mais uma banalidade do showbusiness. Devo admitir que gostei da apresentação que coube a Borat, o pivot do Cazaquistão, que numa época como a nossa parece-me uma crítica bem mais inteligente e interessante do que a feita pelo Jared Leto na sua apresentação numa de actor jovem, e por isso rebelde, que só o fez porque está a milhas do seu país natal, onde o Bush está longe de adivinhar o que é se passa na cidade espanhola Lisboa...só se algum empregado do empregado da White House que é filho do filho que era casado com a filha de um tal Ferreira o disser ao senhor, enquanto lhe apara um charuto cubano, que a este o Fidel não lhe pôs as mãos. Borat representa bem melhor o mundo daqueles que vivem na miséria porque os outros lá no fim do mundo assim o desejam, não tendo eles nada a ver com uma coisa chamada poder porque nunca a possuiram, sendo eles apenas leves carnes para canhão, carne a viver num tempo errado, num local deslocalizado. Eles são apenas o produto de um mundo humanamente entristecedor e ganacioso. Não haviam eles de querer fugir do seu país natal numa avioneta amarela em direcção a Tires. Torturem-me com ácido! Quanto a performances, bem não há muito a dizer...ou haverá?? Se tivesse que eleger uma, seria Foo Fighters, que não são o MEU grupo mas estiveram bastante bem a meu ver. A eterna Madonna, e eu aprecio muito a senhora, como não está em época de tournée ainda não aqueceu o corpinho, por isso dou-lhe um desconto, mas ficou far far away das minhas expectativas. Portugueses, portugueses...cadê?? Só mesmo os encarregados de limpeza e uns gatos pingados no público. Era no mínimo surreal encontrar descendentes d'El rei D. Afonso Henriques a defender o seu território valentemente. Uma actuaçãozita... afinal quem é que ía ligar? Se por muitas vezes nem mesmo nós permanecemos no mesmo canal onde eles estão, havia de ser os outros...era então não era... A malta queria era Robbie e este e aquel'outro, os portugueses no palco íam destoar o cenário, como acabaram por fazer no final aquando da entrega do prémio portugês. Uma actuação portuguesa era para a esmagadora maioria do público estrangeirado como dar Dalí a neoclacissistas!! Era desequilibrar todo um sistema já de si, tão pobremente estruturado e era vê-los a fugir do olho visionário. Sirvam-me cianeto num copo alto! Mas como já disse, Portugal ainda não é aquele destino. Um dia quem sabe?? Vamos pensar que sim. eu quero pensar que sim, para quando for velha não ser uma exilada ou pior, uma emigrante toda saudosista do mau que afinal era tão bom!! Queria antes dourar a minha velhice numa quinta em Sintra sentada na minha cadeira de Balouço em pleno Outono a mirar as folhas caídas das árvores a jogar à apanhada numa roda viva.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Entrevista de emprego

Primeiramente perguntam:"Como está? Prazer em conhecer!" bla bla bla, mas eis que começam as perguntas traiçoeiras.... - "Então e você (vamos sublinhar o você ao longo da conversa) tem experiência neste ramo?" - "Bem claro que sim", quem é que neste mundo respondia numa entrevista de emprego não ter qualquer tipo de experiência (mesmo que não tivesse) se quisesse trabalhar num banco??? - E em que banco? - Portanto num banco que por acaso fica aqui na zona...mas o ambiente sabe,não era dos melhores, achei que estava na altura de mudar de valores...percebe?" Nesta linha a entrevista cotinua num modo calmo mas fascinantemente ritmado. - "E diga-me quanto é que gostava de ganhar?"-Quanto é que QUERO ganhar??!! Devo dizer que esta é A pergunta, aquela que me mata. Quanto é que EU QUERO ganhar??!! Bem estamos num banco não estamos? Até quanto está interessado em gastar com uma competente e EXPERIENTE funcionária??!!- pensei eu. Nesse momento respondi numa voz muito profunda e quase honesta: - "O dinheiro não é importante senhor, o que eu QUERO é fazer parte de um grupo tão importante como este." O entrevistador vidrou os olhos em mim de um modo estupendamente dramático ( ou seria ironia?) e perguntou: - "Você está disponível?" - Nesse momento devolvi o mesmo olhar dramático( para ele não pensar que era o único que o sabia fazer) embora cá dentro estivesse com uma vontade de rir desbravada, porque estava a tentar pensar numa única pessoa no mundo que se dignasse a ir a uma entrevista de emprego sem estar propriamente disponível, quem é que faz isso? Serão muitos e eu não sei, andarão eles espalhados pelo país a comprar jornais na esperança de que as páginas centrais possuam algum quadrado mialgroso que possivelmente irá pagar a luz, a água e a renda que por acaso já estão em atraso??... Talvez este entrevistador estivesse habituado a falar com pessoas INDISPONÌVEIS NO MOMENTO. Então eu respondi: - "Estou disponível no momento.", e rematei com um belíssimo "claro". Enquanto o senhor falava sobre o banco, a competência, o rigor...comecei a pensar que ele nunca mais se despachava e que eu tinha que estar na pizaria ás 10 para começar o meu turno. -"Nós ligamos." disse ele. "Ligam?" pensei eu?? Isto foi há 2 meses, e eu continuo a trabalhar na mesma pizaria, o telefone não tocou, às vezes o rigor não se aplica, o exemplo vem de cima mas cai ao trambolhões, se calhar mandam-me uma mesnsagem escrita ou assim... No fim disto tudo fico com a ideia de que o banco e a pizaria não são duas coisas muito distintas, é que ambas sobrevivem do mesmo: Dos pobres. Com sorte o pobre vai ao banco, deposita o ordenado na conta e 95% é gasto na prestação do empréstimo - o banco sobrevive- e seguidamente com os 5% pensa onde os vai gastar enquanto se refastela com uma fatia de piza aviada pela minha pessoa. É um ciclo como qualquer outro.

domingo, outubro 30, 2005

Sangue

Il sangue di Cristo, Bianca Maria Romano Leio as palavras dos outros e percebo o quão livres não são. Quero tanto escrever, ser livre como elas, ao falarem-me aos ouvidos, ao sussurrarem-me lamentos... E eu escuto-as. As pessoas, essas gritam-me mentiras: " É verdade!" juram elas. Mas eu sei o que sei, e não me engano, e as palavras voam para longe. Regresso a mim, tenho pressa em acabar. Quero cantar mas sinto-me amordaçada. As minhas asas colaram-se uma na outra e conspiram abraçadas contra mim, contra mim que lhes dei vida. Foram elas quem raptram as palavras, as palavras que não são minhas, porque são livres, e elas soltam-se porque não passam de palavrase para elas é fácil. Mas como são fortes! E as asas, essas sim minhas, como são fracas! Ao acabar, isolo-me confusa no meio dos outros. Perco o chão, sufoco no ar que os outros respiram. Afogo-me nas lágrimas que não choram por mim. As palavras que voltaram, agora livres, escorrem para o papel como que meu sangue sejam. Sinto-me engradecer na minha fraqueza... o mundo fecha-se. Amanhã volta a força, com novo sangue, o sangue que é meu, meu e das palavras.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Alice

Alice angustia, revolta, sufoca, entristece, diminui-nos. Faz-nos perceber porque é que as pessoas são mais do que pessoas, são muito mais do que isso, são parte de nós e se desaparecem, então também nós desaparecemos. É sem dúvida uma experiência dolorosa assistir a Alice, muitos daqueles que já se confrontaram com a dor da perda de um filho cruzam-se com todos nós todos os dias, no metro, no comboio, nas 'casas de sandes', na rua. Nunca percebemos a sua dor simplesmente porque não vemos essas pessoas, limitamo-nos a olhar e a passar porque temos mais com o que nos preocupar...daí a nossa surpresa quando uma criança nos olha e nos sorri aparentemente do nada, mas a criança sabes porque é que o faz, nós é que já perdemos essa delicadeza pura. A perda de um filho é a maior dor que alguém pode sentir (não duvido), pior do que isso é a incerteza... porque perante a morte nada mais podemos fazer a não ser recordarmo-nos todos os dias dessa pessoa mantendo-a viva aos nossos olhos, mas não saber se ela 'partiu', se ela respira, se ela ainda sorri, dor maior não deveria ser humanamente suportável. Alice fala sobre a ausência, a perda - de si mesmo- o silêncio, os tempos mortos, as acções mecânicas inatas do ser obsecado(se me é permitido falar nestes termos), as tentativas, as desilusões, as frustrações, o medo da verdade, a esperança no reencontro, e sobre o inverno desolador que reina os nossos corações. Desde o início sabemos qual o desfecho do filme, infelizmente são poucos os casos que terminam com um sorriso na cara daqueles que procuram incessantemente por algo que ninguém (nem Deus- para os crentes) deveria ter o poder de os privar. Alice desapareceu a 17 de abril de 2003. Tinha cabelos encaracolados castanhos claros (como os do pai) e vestia a bata do infantário por debaixo de um casaco azul.Desde esse dia nunca mais foi vista. Inês Batarda é simplesmente fantástica, ela é a mãe da sua menina qua passa os seus dias num estado de completa apatia agora que perdeu qualquer vontade de viver ou amar. Nuno Lopes é o pai de Alice que é também um actor, que através da sua profissão escapa ao drama da sua vida, sendo o palco o seu refúgio e local onde recupera as suas forças para mais um dia de rotina na sua busca solitária na grande Lisboa, com a juda de pessoas que instalam as suas camaras em pontos estratégicos da cidade, 'fazendo o que podem' na busca, de forma relutante ou até despreocupada...é que eles não acreditam. A banda sonora acompanha a obra de forma magestral, cada nota de piano é como que um passo deste desolado pai, ou um suspiro da mãe, ou um baixar de olhos de um comum peão...O azul chamou-me a atenção, é que além de tudo isto Alice é ainda ums obra visualmente fascinante, como se a qualquer momento o écran pudesse ser invadido por uma queda de água apaziguadora, que nunca chega. O azul predomina. Os ingleses dizem estar 'blue' quando estão tristes. A água ao reflectir o céu torna-se azul. A multidão é cinzenta, ou será azul? O casaco de Alice era azul. Vi Alice não como um simples filme, mas quase como se estivesse a ler um poema, ou melhor um hino cantado a todos aqueles que sofrem em silêncio por causa de um acto tão cruel como levar algo que não é seu, sinto que as minhas palavras não chegam para explicar o que sinto, é que sinceramente não consigo perceber. Só sei que a vida deixa de fazer sentido. O mundo deixa de rodar. A incerteza apodera-se do nosso espírito...espiríto??Acredito que a dor ultrapassa essa barreira, dilacera a carne,faz o sangue deixa de correr. Ficam palavras por dizer, o amor incindicional que une as pessoas não consegue cortar o véu negro da dor, que ele é tão bem costurado que faz a menina Alice perder-se num outro mundo(não o das maravilhas), regido pelo vazio,pelo silêncio... Mas o Amor é só um sentimento, não traz ninguém de volta e a vida continua. Alice agora é passado para os outros, e constante para aqueles que amarão sempre a menina dos seus olhos. As duas cenas finais do filme decidem-no( se é que ele não estava já decidido desde o primeiro segundo...), a escolha é feita: procurar Alice ou viver? Para Lewis Carrol a fonte secou, mas a vida, essa subsiste, Alice também.

sexta-feira, outubro 14, 2005

O que conta é a beleza interior

O Homem é seduzido pela beleza, sempre o foi desde o mais remoto dos tempos. A beleza é dificilmente explicável bem o sei, porque não se resume a uma beleza. Fazemos a distinção tão comum nos nossos dias entre a física e a interior, o que o Homem não sabe é que a beleza física é vísivel, palpável, apreciável... limitada, mais limitada do que muitos imaginam. A outra , a chamada interior, essa nunca se corrompe, não se extingue. Consegui até perceber que a interior tem ainda outra faceta incrível, é que como poucos sabem, a beleza interior irradia, tem uma luz própria, não se importa de partilhar. A beleza física é egoísta como poucas, fecha-se atrás de uma porta de metal e grita "É minha, minha e não tua!", tira tudo e não deixa nada. A interior torna os outros bonitos, arranca-lhes sorrisos, fá-los felizes. O nosso erro é querermos o imediato na palma das nossas mãos, queremos a beleza mais visível que conseguirmos porque não temos tempo para a outra, os outros que se preocupem com eles próprios. No fundo é como a estória da Rosa e do Rouxinol...ele cantava maravilhosamente e não suportava a dor dos que sofrem por amar, ela a rosa, queria-se vermelha e bela, vermelha de sangue e bela de amor. O rouxinol cedeu, cantou uma última vez enquanto dava cor à bela rosa, mas aqueles que se amavam deixaram de o fazer, e o seu esforço foi em vão. Os amados separam-se, o rouxinol morre ao deixar o espinho da rosa cravar-se no seu coração, dando-lhe todo o seu sangue. A rosa fica vermelha do sangue do rouxinol, a rosa vermelha é esquecida e deixada na lama de uma noite escura de Inverno, porque o rouxinol morreu ao dar-lhe beleza. A rosa que era vermelha, fica sozinha. Bela mas sozinha. O mundo é mais do que aquilo que os nossos olhos conseguem ver. O mundo só começa realmente quando fechamos os nossos olhos.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Parabéns maninha

Nem sempre é fácil escrever sobre de quem se gosta, principalmente quando se gosta muito e quando essa pessoa é uma das principais da nossa vida. Sabes que és!! Se fosses actriz escrever-te-ia um argumento arrebatador para que brilhasses numa luz poderosa e só tua, mas primeiro teria que ter o dom da escrita e a imginação de uma poetisa para criar um belo poema digno de ti. Serias talves uma femme fatale, não, não que digo eu... Serias uma deusa do Olimpo, daquelas que encantam o chão que pisam, enfeitiçam os seres para que só para ela eles olhem, possui a bondade de poucos neste mundo e voa sobre o mar calmo, mas é nesse momento que um golpe do destino rasga a barreira do divino uma última vez ...(porque a esse nem as deusas escapam...) o mar revolta-se, a tempestade é sentida pelos pescadores que puxam os seus barcos para a areia, um relâmpago encadeia o horizonte, o trovão, esse ensurdecedor vilão condena as asas da deusa, ela cai no mar. As ondas devolvem-na à terra, os pescadores exclamam que jamais viram semelhante beleza, a deusa olha à sua volta e percebe que as suas asas cairam e já não é eterna, mas não se importa, sabe que agora vai entrar na vida de alguém que a ama muito, de quem nunca se separará. A deusa esquece que foi deusa. A deusa esquece que foi eterna. Mas eu lembro-me que ela é eterna no meu coração. Eu lembro-me que a minha irmã é a deusa.

sexta-feira, setembro 30, 2005

O eterno rebelde

Fazem hoje 50 anos que o rebelde dos nossos sonhos nos abandonou. Nada fazia prever que a vida de um jovem, atraente, magnetizante e ultra talentoso iria ser tão curta e talvez tão duradoura nos nossos imaginários. Há gente assim. E felizmente são extremamente poucos. James Dean deixa um legado cinematográfico de culto bastante reduzido, tal como o número de dias que lhe foram possibilitados viver a vida. Entre eles Giant (terminado já com James morto), Rebel without a cause, East of eden, Harvest, e mais 2 ou 3 filmes...mais pequenos se é que me percebem.... Partiu para sempre de forma violenta num acidente de carro, tendo recebido apenas duas horas antes uma multa por excesso de velocidade, mas os dados estavam lançados, os deuses já reunidos em concílio e a sua vida a ser pesada na balança...os deuses devem ter pensado que alguém como ele devia ser eternizado assim, na sua maior perfeição, no auge(ou não) dos seus actos, e por azar divino ou não, o seu Porsche colidiu com um outro carro e o ícone tornou-se lenda, ganhando asas invisíveis e voando hoje no nosso mais profundo imaginário. Dizia-se que era algo petulante para com os outros actores, mas todos o admiravam, "era do carisma" diziam eles - chamem-lhes loucos!! Era excesivo, vivia intensamente, leu e amou o pequeno princípe, e condenava-se todos os dias com o seu inconfudível cigarro, imagem de marca e motivo de doença prolongada para todos aqueles que o passaram a imitar. Viveu apenas para ser reconhecido e ter consciência desse reconhecimento com o filme East of Eden, gozando pouco do seu enorme sucesso, merecendo uma nomeação póstuma ao oscar, a primeira a ser atribuída na indústria, e a segunda com Giant. Claro está que sempre que existe um ranking dos homens mais bonitos no mundo do espectáculo, Dean aparece de novo como se nunca o dia de 30 de setembro de 1955 tivesse acontecido, é o eterno adolescente que nunca nos abandonará, um ideal de beleza eterna também masculina. Uma combinação hipnotizante: o olhar profundo, o cabelo platinado naturalmente, o inconfudível cigarro, o look desmazelado e cuidado ao infímo pormenor...um verdadeiro trabalho de actor que joga com o que tem e dele tira o melhor partido. Milhares são as fotografias a que temos acesso, as minhas preferidas são as a preto e branco porque acho que recvlam algo de tenebroso sobre ele, algo que nunca ninguém descobriu, como se ele possuísse um qualquer tipo de segredo sagrado a revelar ao mundo, segredo esse que se silenciou com ele num grito abafado pela pressa de viver, é só pensar nas famosas fotografias tiradas em Madison Square, num dia chuvoso de inverno. Felizmente nunca o chegámos a ver desmoronar-se, a sua beleza jamais foi corrompida com o peso dos anos, o corpo jamais foi marcado com as cicatrizes da vida, o espiríto jamais foi aprisionado pelas leis do mundo. Como já diziam: James Dean...too fast to live, to young to die......

domingo, setembro 25, 2005

Wake up Donnie

A primeira vez que vi Donnie Darko não percebi nada. A segunda vez que vi Donnie Darko não percebi nada. A terceira vez que vi Donnie Darko percebi tudo. A mesma terceira vez deixou-me maravilhada. Este não é um filme simples de seguir ou compreender, mas de um determinado ponto de vista não é nada complicado, o segredo é deixarmo-nos levar pela mente de Donnie e pelos vários sinais que nos são deixados ao longo do filme. A existência do coelho tenebroso tem algo de Alice nos país das maravilhas, como uma personagem também ela enigmática, num mundo a ser desoberto pelas piores razões.E se nos recordarmos existe também um coelho interessante no mundo da Alice. É que aqui o dia do juízo final é anunciado com a maior das calmas como se fosse o próximo passo a dar na nossa longa caminhada pela existência terrestre. Não quero contar muito sobre a obra, iria estragar a surpresa das surpresas e iria deturpar certamente a visão do público, pois a imaginação aqui é rei e decisivamente imprescindível. É injusto dizer que o filme é x e percorre o caminho y e vai ter a z. A piada é exacatamente divagar pelo universo criado e no fim discutir com os outros os vários aspectos que moldam as máscaras do roll de personagens que desfilam em acções paralelas que só se tocam porque o destino é implacável e o desenvolver da acção remete para a fatalidade dos actos falhados. E não vale a pena querer mudar o decurso dos acontecimentos. E não vale a pena lutar. E não vale a pena saber que viajar no tempo é possível. E não vale a pena porque qualquer criatura humana neste mundo morre sozinha. É curiosíssima a forma como nos é mostrado que a acção do filme decorre nso anos 80, quer seja pela banda sonora, pelo guarda roupa, pelas referências culturais e políticas ou simplesmente porque se o mundo acabasse nos anos 80, a nossa existência de lá para cá simplesmente não o é. Talvez seja essa a crítica da obra, dizer que a cultura morreu com o culminar dos anos 80, que nada nasceu desde então, e que nem sequer somos capazes de nos reinventarmos. Mas porquê um coelho? Se fosse uma ovelha a pergunta seria feita na mesma, qualquer que fosse o animal...a vida é feita de escolhas, e aqui um simples coelho, aquele ser adorável é nos entregue de forma assustadora e quase anedótica, fazendo-nos pensarmos duas vezes antes de nos rirmos do Bugs Bunny. Um conselho, se ainda não viram Donnie Darko vejam-no como se fose ver um filme de David Lynch, lutem com as outras pessoas que digam: "Ai! Não é nada disso que estás para aí a dizer..." Quem não gostar deste tipo de desafios cinematográficos, nem vale a pena aventurarem-se porque aí aos 20 minutos do filme desligam o leitor de dvd ou então será possível percorrer com lupa o caminho da vossa baba, que vai directamente do canto inferior direito da vossa boca até à extremidade superior da almofada do sofá da vossa mãe!!